sexta-feira, setembro 28, 2007

Reflexão Cinéfila... de Portugal

Foi oficialmente comunicado, pelo Instituto do Cinema Audiovisual e Multimédia (ICAM), que o filme português submetido à Academia, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro 2007, é BELLE TOUJOURS, de Manoel de Oliveira.



O destaque desta notícia, aqui no Keyzer Soze's Place, não serve para críticar a decisão do júri do ICAM. Na verdade, considero que candidatar, todos os anos, um filme de Manoel de Oliveira ao Oscar deveria ser um lugar comum entre quem tem o poder de decisão. O quase centenário cineasta continua a produzir o seu habitual filme anual (inclusive, adivinham-se dois projectos para 2008); e já reflectiram sobre o presente ano cinematográfico de Portugal? Não? Eu ajudo-vos.

Recordemos, então, os filmes estreados no nosso país, entre Janeiro e Setembro de 2007, com produção portuguesa: BRAVA DANÇA, documentário sobre os Heróis do Mar, de Jorge Pires e José Pinheiro; SUICÍDIO ENCOMENDADO, comédia de Artur Serra Araújo; O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA, drama histórico de Jorge Paixão da Costa; ATRÁS DAS NUVENS, uma fantasia delicodoce de Jorge Queiroga; e, recentemente, O CAPACETE DOURADO, drama adolescente de Jorge Cramez. Se a esta listagem, acrescentarmos as curtas-metragens HISTÓRIA TRÁGICA COM FINAL FELIZ (Regina Pessoa) e CHINA, CHINA (João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata), fica assim descrito o 2007 cinematográfico de Portugal.

Apetece mesmo soltar o desabafo: "panorama desolador". Não me recordo de haver, como este, um ano tão parco em número e qualidade das produções lusas. E, numa altura em que o futuro reserva títulos como CORRUPÇÃO, não olho para 2008 com olhos animadores...

P.S.: caso não tenha referido, por lapso, algum título português que tenha estreado, agradeço desde já o vosso reparo.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Primeira imagem...

...do próximo filme do "lendário" realizador Sidney Lumet, BEFORE THE DEVIL KNOWS YOU'RE DEAD:



Protagonizado por Philip Seymour Hoffman, Marisa Tomei, Albert Finney e Ethan Hawke, estamos perante um drama em que o crime e a fraternidade se cruzam e provocam um confronto com desfecho inesperado.

Estreia prevista, nos EUA, para 26 de Outubro.

quarta-feira, setembro 26, 2007

FHM Online

No âmbito da promoção do seu mais recente filme norte-americano, SHOOT 'EM UP, a bela Monica Belluci concedeu uma entrevista à FHM americana (na sua versão digital), devidamente acompanhada pelas excelentes fotografias que abaixo publico.

A entrevista é bastante sui generis e não resisti a fazer uma tradução da mesma. O título do artigo diz tudo: "Ciao Bella".



FHM: Você já participou em alguns filmes "loucos", mas SHOOT 'EM UP deverá ser o mais "louco" de todos.
Monica Belluci: Este é o tipo de filme que eu nunca faria na Europa, porque é um género que não se faz lá. Não os sabemos fazer. Na Europa, participo em filmes mais "artísticos". Para mim, é cativante fazer filmes Italianos, Franceses e, de vez em quando, Americanos. Quis entrar em SHOOT 'EM UP porque, quando li o guião, disse "Este filme é tão estranho e incrível!". Nunca fiz nada semelhante. Mas apesar de ter muita acção, houve espaço para construir personagens com emoções reais.

FHM: A sua personagem é uma prostituta, um papel que já tinha desempenhado antes. O que a atrai para este tipo de personagens?
Monica Belluci: Diverti-me imenso a interpretar DQ [o nome da personagem de Belluci em SHOOT 'EM UP], porque ela é totalmente livre. Ela tem atitudes perigosas e condenáveis, mas tudo de uma forma divertida. Esta personagem teve uma vida difícil, foi maltratada, mas não encara as coisas como uma vítima. Ela é muito forte. É uma sobrevivente.

FHM: Partilha uma cena de sexo com Clive Owen a meio do filme. Como foi a experiência?
Monica Belluci: A sequência é sexy, sem dúvida, mas é também muito divertida. Fazê-la com Clive Owen foi muito fácil, porque ele é um actor incrível, tem um óptimo sentido de humor e é um verdadeiro cavalheiro britânico.



FHM: Alguma vez se cansa de desempenhar personagens sensuais?
Monica Belluci: Não, porque sei que não vou fazer esse tipo de papéis durante toda a minha vida. Mais alguns anos e isso acabará.

FHM: De A PAIXÃO DE CRISTO até IRREVERSÍVEL, entrou em alguns filmes bastante violentos.
Monica Belluci: SHOOT 'EM UP é um filme violento, mas muito divertido. É violento, mas não vão faltar gargalhadas porque o que se vê é totalmente surreal. É sexy. É rock and roll. É louco, é negro, é assustador, mas tudo com muito humor.

FHM: Há alguma razão em especial para se sentir atraída a participar em projectos controversos?
Monica Belluci: Não sei. [Risos] Talvez devesse fazer terapia.



Fonte: FHM Online

terça-feira, setembro 25, 2007

Hollywood Buzz #2

O que se diz lá fora acerca de EASTERN PROMISES:



«A film that takes us beyond crime and London and the Russian mafia and into the mystifying realms of human nature.»
Roger Ebert, Chicago Sun-Times

«Perhaps the director set the bar so high with A History of Violence that there was no way he could equal it with Eastern Promises, but for him to fall so short is nothing less than criminal.»
James Berardinelli, Reelviews

«Expertly realized and gunmetal slick, Eastern Promises whirs along with perfect efficiency, but doesn't stir much in the way of visceral horror despite its penchant for treating the human body like a chicken carcass on a block.»
Carina Chocano, Los Angeles Times

«Containing one of the most cinematically virtuosic set pieces of Cronenberg's career — a bone-crunching battle in a bathhouse that Mortensen (whose performance is entirely remarkable) plays in the nude — Eastern Promises is nonetheless one of Cronenberg's subtlest, most insinuating pictures, and one of the highlights of the year so far.»
Glenn Kenny, Premiere

«Eastern Promises [...] is fundamentally about the moral scandal of slavery, the traffic in human bodies and human misery that persists, in secret and in the shadows, even in the modern, cosmopolitan West.»
A.O. Scott, New York Times

Birth — O Mistério (2004), de Jonathan Glazer



Imaginem uma trilogia (cinematográfica, literária ou de outra expressão artística) cujo primeiro volume possui uma aura de mistério suficientemente adequada para vos prender a atenção, a segunda parte prossegue e adensa essa característica e, no derradeiro capítulo, tudo é deitado a perder por uma conclusão que não foi capaz de ser tão arrojada quanto a sua premissa.

Assim é a estrutura narrativa de BIRTH, um conto de contornos góticos realizado por Jonathan Glazer (SEXY BEAST, 2000).

A sequência inicial será, provavelmente, das melhores tours de force da presente década. Acompanhando o genérico (decorado pela magnífica e intimidante banda sonora de Alexander Desplat), vemos o vulgar jogging de um homem, a sua face imperceptível, através do Central Park. Ao entrar no túnel de uma ponte, cai subitamente fulminado por um ataque cardíaco. A sua esposa, Anna (Nicole Kidman), só demonstra sintomas de recuperação dez anos depois, em vésperas de retomar a sua vida profissional e prestes a casar-se novamente.



A orla de mistério patenteada no genérico persiste durante toda a duração de BIRTH, nomeadamente quando Sean (Cameron Bright), de 10 anos, confessa ser a reincarnação do homem (também se chamava Sean) que morreu no parque, deixando a vida de Anna num limbo de incerteza e angústia. As palavras do rapaz parecem confirmar o fenómeno sobrenatural, ao mesmo tempo que descortinam pormenores pouco morais da existência do falecido...

Por vezes, o filme parece encaminhar-se para a surpreendente revelação final ou tornar-se numa versão encapuçada de GHOST - O ESPÍRITO DO AMOR. Pelo contrário, BIRTH não esconde que o interesse dos seus responsáveis é de cariz psicológico e não paranormal. Os argumentistas Milo Addica (MONSTER'S BALL - DEPOIS DO ÓDIO, 2001), Jean-Claude Carriére (possuidor de uma longa carreira e várias colaborações com Luis Buñuel e Roman Polanski) e o próprio Glazer estão mais preocupados com a atmosfera em detrimento de explicações minimamente plausíveis para o enigma que conjuraram. Prova disso, é a sóbria paleta cromática de BIRTH, da responsabilidade de Harris Savides, a qual imprime um fulgurante tom de sépia que, por vezes, sugere o ligeiro desfoque das personagens.



As interpretações são credíveis, nomeadamente se tivermos em linha de conta a normal perplexidade que o conceito de "reincarnação" suscitaria em qualquer indivíduo inserido numa cultura ocidental. Nicole Kidman e Cameron Bright estão em plano de destaque, e a mais "badalada" sequência do filme (na qual os dois tomam banho partilhando a mesma banheira) é tratada com a devida elegância, não restando dúvidas de ser ajustada ao material narrativo aqui tratado.

Contudo, não consigo deixar de lamentar a pobre resolução de BIRTH. Longe do twist surpreendente, caracteriza-se mais por ser inconsistente com a maioria dos factos e/ou emoções anteriormente expressas. Num filme já apelidado de Art-House Hit, por uma vez teria sido agradável que se reduzisse nas preocupações formais. Tornaria BIRTH numa obra única e sedutora em todos os aspectos.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Hollywood Buzz #1

O que se diz lá fora acerca de RESIDENT EVIL: EXTINCTION:



«"Resident Evil: Extinction" actually plays less like a continuation of the vidgame-inspired franchise than a throwback to '80s post-apocalyptic programmers in the "Road Warrior" mode. »
Joe Leydon, Variety

«Even with all the problems this film has, it works because Jovovich really holds the screen and your attention. When she's in battle mode you have no choice but to just shut your mind off and go with it.»
Michelle Alexandria, Eclipse Magazine

«More of the same game.»
John Monaghan, Detroit Free Press

«The palette is post-apocalyptic America, with generous squeezes of every cinematic pigment from Omega Man to Mad Max to Night of the Living Dead. Really, the lack of flying saucers ultimately becomes quite amazing.»
Matt Weitz, Dallas Morning News

«The director, Russell Mulcahy (“Highlander”), pulls off a few decent set pieces, including attacks by skinless dogs and Hitchcock-inspired clouds of glassy-eyed undead crows. But they have no weight because there’s no characterization or emotion, just slick mayhem.»
Matt Zoller Seitz, New York Times

Antestreia da Semana



THE ASSASSINATION OF JESSE JAMES BY THE COWARD ROBERT FORD afigura-se, desde já, como uma das incógnitas mais deliciosas dos próximos tempos.

A começar, prendemo-nos imediatamente no seu título pouco usual, longo e descritivo da personalidade de um dos seus protagonistas. Depois, e a julgar pela crítica norte-americana, estamos perante um dos melhores westerns dramáticos das últimas décadas. Um "épico negro", uma "reinterpretação da mitologia americana", o "melhor desempenho de sempre de Brad Pitt" e "totalmente oscarizável", são apenas alguns dos epítetos que têm sido lançados a este filme, o qual assinala a estreia do neozelandês Andrew Dominik à frente das operações de uma produção made in Hollywood.

Destaque para a magnífica direcção de fotografia, bastante evidenciada no trailer que abaixo coloco:



Estreia prevista em Portugal para 8 de Novembro.

domingo, setembro 23, 2007

Oldboy (2004), de Park Chan-wook



Há uma cena em OLDBOY que ilustra, de forma pragmática, tudo o que o filme expressa: num longo plano-sequência, assistimos ao protagonista (Oh Dae-su) a desancar, com o auxílio de um martelo e das próprias mãos, um grupo de irados guardas prisionais, ao longo de um corredor imundo e mal iluminado — no fim, Dae-su sai triunfante, não obstante ter um punhal enterrado nas costas e dos "litros" de sangue derramados durante a luta.

A composição formal desta sequência é, ao mesmo tempo, violenta, surreal, cómica e imprevisível. Sugere, por vezes, a aliança de um videogame com o que de melhor é permitido pelo cinema digital. OLDBOY é tudo isto, acreditem. No entanto, resumi-lo como uma peça de mero virtuosismo cinematográfico seria injusto; amiúde, OLDBOY atinge estatuto de poderosa narrativa.



Em cenário reminescente às obras de Franz Kafka, Oh Dae-su (interpretado por Choi Min-sik) permanece encarcerado, num berrante quarto de hotel, durante 15 anos, sem saber os motivos ou os responsáveis pela sua detenção. Entretanto, descobre pela televisão que a sua esposa foi assassinada e a filha entregue a pais adoptivos. Quando finalmente é libertado, a ânsia de vingança sobrepõe-se a qualquer outra ambição.

É então que o caminho de Oh Dae-su se cruza com o de Mido (Kang Hye-jeong), uma simpática cozinheira de um restaurante de sushi. Demonstrando a princípio compaixão por ele, Mido ajuda Dae-su no seu processo de recolha das pistas necessárias para encontrar o autor daquela estranha prisão.



A resposta para todas as dúvidas parece residir em Woo-jin, astuto homem de negócios e residente da penthouse mais state-of-the-art alguma vez observada — no fim, descobrimos que Woo-jin não só foi o responsável pela captura de Dae-su, como também foi o manipulador supremo dos restantes protagonistas, num clímax de contornos devastadores.

As revelações que concluem OLDBOY não escondem o aspecto mais trabalhado pelo realizador Park Chan-wook, ou seja, o já referido espalhafato visual. Durante 120 minutos, somos brindados com todo o género de situações capazes de perturbar o mais empedernido dos espectadores: personagens a devorarem polvos vivos, mãos decepadas, dentes arrancados e até um intricado subplot sobre incesto. A contribuir, temos uma parafernália de técnicas (grandes angulares, planos expressionistas, slow e fast motions, etc.) que definem OLDBOY como um dos filmes mais criativos de 2004.



O idílico final não afasta qualquer sentimento de agitação que possamos sentir. Na verdade, a conclusão de OLDBOY lança mais questões do que respostas — estimulando, inclusive, uma discussão acesa entre os seguidores do filme, os quais tornaram-no num dos mais recentes filmes de culto. Premiado internacionalmente (obteve, das mãos de Quentin Tarantino, o Grande Prémio do Júri em Cannes), OLDBOY é, em última instância, uma obra-prima meticulosamente orquestrada e merecedora de destaque aquando duma futura retrospectiva da Sétima Arte da presente década.

Enquanto que a realização, a direcção da fotografia e o argumento são os seus músculos, a personagem de Oh Dae-su é o verdadeiro motor do filme — um estudo bem sucedido sobre vingança ou uma análise arrojada dos conflitos interiores que grassam na Humanidade? De qualquer maneira, OLDBOY consegue o que outros são incapazes de fazer: entreter-nos à custa de uma sentida dor emocional. Nem que para tal tenhamos de "penetrar" em sequências tão intensas e distractivas como a que referi no início deste texto, capazes de granjearem, por elas próprias, uma crítica exclusiva.

sexta-feira, setembro 21, 2007

Primeiras imagens...

...do novo filme de Richard Kelly (aka o realizador do fantástico DONNIE DARKO), SOUTHLAND TALES.



Por enquanto, o trailer apenas se encontra disponível no Yahoo Movies.

Pontos de interesse? Para começar, julgo estarmos perante o elenco mais imprevisível dos últimos tempos (encontramos no mesmo "saco" Dwayne Johnson, Seann William Scott, Sarah Michelle Gellar, Miranda Richardson, Justin Timberlake, Christopher Lambert, Mandy Moore e até Jon Lovitz) numa película que mistura drama, ficção científica e mundos pós-apocalípticos.

Apesar de ter sido completamente cilindrado pela crítica aquando da sua pré-estreia em Cannes, não posso deixar de revelar o quanto anseio pela estreia deste SOUTHLAND TALES. Pode ser um daqueles filmes tão loucos e radicais, que me é impossível sentir outra emoção que não seja a simpatia...

Filhos de Um Deus Maior #4

Oriundo do mundo da publicidade, Michel Gondry já demonstrou, no Cinema, todas as suas qualidades enquanto criador de mundos oníricos e surrealistas, em títulos como O DESPERTAR DA MENTE (2004) ou no quase a estrar BE KIND, REWIND.

Contudo, e parafraseando o velho ditado de que filho pródigo, a casa retorna, Gondry aprecia dar um saltinho à sua antiga ocupação. E o mais recente exemplo disto é este spot comercial realizado para a Motorola, com supervisão criativa da agência americana Cutwater:



terça-feira, setembro 18, 2007

Antestreia da Semana

Faço minhas as palavras do excelente site JoBlo.com: para quê um remake de BRINCADEIRAS PERIGOSAS (Funny Games, 1997), um dos filmes mais perversos da década de 90 e saído da mente original de Michael Haneke? Para mais, realizado pelo próprio Haneke?

De qualquer forma, esta visão "americanizada" ostenta um trailer capaz de fazer crescer água na boca de quem não viu o original e, sobretudo, dos privilegiados que já tiveram a possibilidade de o fazer:



Da minha parte, anseio principalmente por ver se introduziram alguma novidade na famosa (ou infame?) sequência do comando da TV. O objecto surge, quase sorrateiramente, no trailer.

Quem já viu, sabe do que falo... Quem sentir-se totalmente à parte, não perca esta oportunidade. Estreia já no Outono que agora se aproxima.

segunda-feira, setembro 17, 2007

A Face Oculta de Mr. Brooks (2007), de Bruce A. Evans



A FACE OCULTA DE MR. BROOKS sustenta uma curiosa mistura de cinema popular com obra intelectual. Apesar desta contradição, ou talvez por causa dela, o filme funciona na perfeição. Não custa, portanto, apelidá-lo de thriller tenso e envolvente, aquele tipo de película onde o espectador sente-se desconfortável porque o protagonista é, também, o antagonista e do qual é impossível não gostar por ser tão lúcido.

O Mr. Brooks do título (Kevin Costner) acaba de ser nomeado o Homem do Ano de Portland. Sem que ninguém suspeite, ele é igualmente o «Assassino do Polegar», um periódico serial-killer que vem aterrorizando a cidade. Earl Brooks não mata há dois anos, mas o desejo homicida, inflamado pelo seu demoníaco alter-ego Marshall (William Hurt), é demasiado intenso. Assim, após deixar a esposa (Marg Helgenberger) em casa após a cerimónia da sua nomeação, Earl faz uma incursão nocturna pelo seu passatempo secreto. Desta vez, Earl comete um erro incaracterístico: as cortinas da janela do quarto das suas vítimas estavam abertas no momento crucial, e um mirone vizinho (Dane Cook) fotografa tudo. A partir daqui, tudo vale: uma tentativa de extorsão pouco convencional, a perseguição policial por uma intemporal Demi Moore e um esquema de homicídio imprevisível a encerrar o filme.



Um dos melhores pormenores (embora não original) de A FACE OCULTA DE MR. BROOKS é a forma como se balança as duas caras da personalidade de Earl. Kevin Costner é a faceta racional, inteligente e dominante. William Hurt ostenta o aspecto amoral e animalista da personagem. Na maior parte do tempo, Earl controla os seus actos, mas há ocasiões em que as aparições de Marshall detêm um poder impossível de ignorar. E a interacção entre os dois actores é deveras fascinante: embora os seus diálogos decorram na mente do protagonista, o realizador Bruce A. Evans decide dramatizá-los, suspendendo o tempo à volta de Earl e Marshall e colocando-os em plano de destaque. Esta opção poderá parecer pouco credível à partida, mas não demora muito para que o espectador "alinhe" no ritmo do filme.

O argumento projecta alguns obstáculos inesperados ao percurso de Earl. A personagem assume-se tão meticulosa que parece ser impossível capturá-la, a menos que ela assim o deseje, e essa possibilidade é explorada. É interessante notar que, não obstante o seu comportamento brutal, Earl é a personagem mais empática do filme. A opção de dividi-lo em duas figuras — Marshall é o vilão e Earl a alma torturada que mata por vício — torna possível detectar o conflito do filme, ou seja, quem amar e quem detestar: Earl é o marido ideal, o pai extremoso e profissional de sucesso; Marshall é a "criatura do mal" que espreita nas sombras, sequiosa de sangue e caos (na verdade, Hurt é sempre filmado de modo a parecer fantasmagórico e predatório).



Existem muitos condimentos para tornar este MR. BROOKS numa receita para o êxito. As interpretações são infalíveis, desde o pacato indivíduo com uma tenebrosa vida dupla construído por Costner [o seu melhor desempenho desde UM MUNDO PERFEITO (Clint Eastwood, 1993)] ao diabólico retrato de Hurt; apenas a detective de Demi Moore "sofre" com uma personagem escassamente explorada. Há, também, o vislumbre do chocante twist final: embora o "truque" surja quase gratuitamente, serve na perfeição o seu propósito. E perante uma obra mais interessada em ilustrar a complexidade da mente humana, a abordagem visual é definitivamente visceral: as sequências de acção são emocionantes e plausíveis, os homicídios são sangrentos (numa ocasião, roça o extremamente gráfico), há sexo e nudez, o susto de criar "arrepios na espinha" também marca presença. E, para terminar, somos brindados com um macabro sentido de humor.

Em forma de conclusão, deixo apenas um ambicioso repto pessoal: este A FACE OCULTA DE MR. BROOKS contém todos os adjectivos necessários para lutar pelos grandes prémios de Cinema deste ano. A compará-lo com outra obra, não me custou salientar o exemplo de O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991) — no seu tempo, rotulado de filme que explorava, de forma fácil, a violência e a perturbação psiquíca.

O quê? Encontraram alguma coincidência?

Primeiras imagens...

...de THE BUCKET LIST, interpretado pelos sempre eficazes Jack Nicholson e Morgan Freeman.



A ajuizar pelo primeiro trailer distribuido na passada semana, não restam dúvidas que estamos em pleno território de Rob Reiner, realizador perito em histórias delicodoces mas capazes de lutarem por Oscares (exceptuando, apenas, MISERY - O CAPÍTULO FINAL).

sexta-feira, setembro 14, 2007

Primeiras imagens...

...do novo projecto de Francis Ford Coppola, YOUTH WITHOUT YOUTH, nomeadamente o primeiro poster oficial e o teaser trailer:





Para além de assinalar o regresso de Coppola à cadeira da realização, o filme conta com Tim Roth no principal papel e tem estreia marcada, nos EUA, para 14 de Dezembro.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Estreia da Semana



Revelar muitos pormenores acerca da premissa deste A FACE OCULTA DE MR. BROOKS poderia ser um factor inevitável para estragar o brilhantismo do conceito patenteado neste filme.

Brilhantismo esse que se destaca imediatamente pelo rol de intérpretes, num elenco que figura Kevin Costner (grande regresso!), William Hurt, Demi Moore e Marg Helgenberger.

Em poucas palavras, posso descrever o filme como uma história de duplas personalidades, sádicos alter egos, responsabilidades políticas e o drama familiar motivado pelas pressões profissionais, o alcoolismo e algumas ameaças exteriores inesperadas. Resumindo, é um thriller psicológico — mas de categorização complexa — que muito tem surpreendido as comunidades cinéfilas dos locais onde estreou.

Confusos? Talvez o trailer possa "espevitar" a vossa opinião:



quarta-feira, setembro 12, 2007

O regresso de Jon Stewart?



Noticiado pelo New York Times, a Academia anuncia hoje que pretende "requisitar" os serviços de Jon Stewart, apresentador do popular Daily Show e anfitrião dos Oscares de 2006, para ser o mestre de cerimónias da próxima edição.

A cerimónia dos Oscares de 2008 está agendada para o dia 24 de Fevereiro.

Filhos de Um Deus Maior #3

Spot publicitário para a Nike, realizado por Michael Mann (HEAT - CIDADE SOB PRESSÃO, COLATERAL) e concebido pela Wieden + Kennedy.



terça-feira, setembro 11, 2007

Vanity Fair



Destaque para a edição americana de Outubro da «Vanity Fair», onde a cintilante Nicole Kidman revela-se em entrevista exclusiva, devidamente acompanhada de (mais) uma magnífica sessão fotográfica.

Aproveito o presente para destacar alguns dos melhores momentos da actriz numa década de imagens produzidas pela «Vanity Fair»:







P.S.: a propósito de Nicole Kidman, deixo-vos com o link para o site oficial do seu próximo filme, His Dark Materials: The Golden Compass, com estreia prevista, nos EUA, para Dezembro de 2007.

segunda-feira, setembro 10, 2007

Antestreia da Semana

Rapidamente, as ferramentas de marketing de THERE WILL BE BLOOD começam a ganhar forma.

Depois de na semana passada ter sido divulgado o poster oficial do filme (e que abaixo publico), chega-nos hoje o primeiro trailer do filme, por cortesia do /Film.



Como é por muitos sabido, as esporádicas presenças de Daniel Day-Lewis em produções cinematográficas indiciam, da sua parte, um exigente critério de qualidade para o convencer a abandonar a sua sapataria em Veneza e contracenar diante das câmaras. Por isso, qualquer título que possua Day-Lewis no elenco é uma ocasião especial, e este THERE WILL BE BLOOD não é excepção.

Paul Thomas Anderson é o realizador (cinco anos depois de PUNCH-DRUNK LOVE e oito após o magnífico MAGNOLIA) e o filme terá uma distribuição limitada nos EUA a partir de 27 de Dezembro.

Indiana Jones 4 já tem título oficial...

... e "reza" assim: INDIANA JONES AND THE KINGDOM OF THE CRYSTAL SKULL.



O anúncio foi feito, esta madrugada, por Shia LaBeouf (TRANSFORMERS, PARANOIA) durante os MTV Video Music Awards e confirmado horas depois pela Paramount Pictures e Lucasfilm.

Entretanto, para acalmar a ansiedade pela estreia de Indiana Jones 4, o melhor é ir mesmo espreitando, ocasionalmente, o site oficial que, aos poucos, vai ganhando forma.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Cinema do Pós-Verão

Terminada que está a época cinematográfica de Verão, chegou a altura dos filmes com orçamentos abaixo dos 100 milhões e prováveis candidaturas aos Oscares.

De modo a espicaçar a vossa curiosidade para o fim-de-semana que se avizinha, aqui fica a lista de 15 filmes a não perder nos próximos meses:


1) 3:10 To Yuma

Focos de interesse: um remake bem cotado pela imprensa norte-americana, conta com as presenças do carismático Russell Crowe e do sempre regular Christian Bale.
Estreia em Portugal: 29 de Novembro.

2) The Brave One

Focos de interesse: se somarmos Jodie Foster, Neil Jordan (realizador de JOGO DE LÁGRIMAS e ENTREVISTA COM O VAMPIRO) e uma pura história de vingança, o que pode correr mal?
Estreia em Portugal: 18 de Outubro.

3) Eastern Promises

Focos de interesse: nova incursão de David Cronenberg pelo mundo do thriller, o grande atractivo parece mesmo ser a interpretação de Viggo Mortensen — na rota dos prémios?
Estreia em Portugal: sem data anunciada.

4) The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford

Focos de interesse: apesar da demora (era suposto ter estreado em 2006), o trailer é fantástico, Brad Pitt tem presença e Casey Affleck já é considerado um forte candidato ao Oscar.
Estreia em Portugal: 8 de Novembro.

5) Into the Wild

Focos de interesse: adaptado de um best-seller de Jon Krakauer, é o regresso de Sean Penn à cadeira de realizador numa história de auto-descoberta exibindo as paisagens do Alasca como pano de fundo.
Estreia em Portugal: 29 de Novembro.

6) The Darjeeling Limited

Focos de interesse: mais uma história sui generis de Wes Anderson, o protagonismo de Adrien Brody, coadjuvado por Owen Wilson, promete uma agradável mistura de drama com comédia.
Estreia em Portugal: tudo aponta para o início de 2008.

7) The Kingdom

Focos de interesse: filme de acção com forte carga política, o seu tom de denúncia garante-lhe o rótulo de controverso — e é protagonizado por Jamie Foxx.
Estreia em Portugal: 11 de Outubro.

8) The Heartbreak Kid

Focos de interesse: o reencontro de Ben Stiller com os irmãos Farrelly, o trailer apresenta duas ou três sequências antológicas de comédia.
Estreia em Portugal: 4 de Outubro.

9) Michael Clayton

Focos de interesse: relato de um advogado de Manhattan que desvenda uma conspiração empresarial capaz de o matar — segundo Oscar para Clooney?
Estreia em Portugal: sem data anunciada.

10) Elizabeth: The Golden Age

Focos de interesse: nove anos depois de ELIZABETH, Cate Blanchett volta a incarnar a personalidade que lançou a actriz para a ribalta — agora, acompanhada de Clive Owen no papel de Francis Drake.
Estreia em Portugal: 1 de Novembro.

11) American Gangster

Focos de interesse: plenamente destacado neste blog, os argumentos para o seu sucesso são muito simples: Denzel Washington, Russell Crowe e Ridley Scott.
Estreia em Portugal: 15 de Novembro.

12) Bee Movie

Focos de interesse: o primeiro projecto de Jerry Seinfeild após a sua série TV de culto, só a premissa é deliciosa: uma abelha determinada em processar a humanidade por roubo de mel.
Estreia em Portugal: Novembro.

13) Shoot 'Em Up

Focos de interesse: Clive Owen, Monica Bellucci e Paul Giamatti num filme alucinante que alia assassinos profissionais com babysitting — este título não me escapa.
Estreia em Portugal: 22 de Novembro.

14) Planet Terror

Focos de interesse: segunda parte do projecto GRINDHOUSE (e depois de Tarantino e do seu À PROVA DE MORTE), é a vez de observar o manifesto de Robert Rodriguez sobre o Cinema de série B dos anos 70.
Estreia em Portugal: 4 de Outubro.

15) Sicko

Focos de interesse: mais um filme-denúncia de Michael Moore (FAHRENHEIT 9/11), o cineasta aponta agora as suas armas para os defeitos do sistema de saúde norte-americano.
Estreia em Portugal: 1 de Novembro.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Filhos de Um Deus Maior #2

Spot televisivo para a Cadbury, criado pela londrina Fallon.



"1-18-08" com título definitivo?

Saber a data do anúncio do título oficial da nova produção de J.J. Abrams está a tornar-se numa das maiores obsessões do momento entre a imprensa cinematográfica americana.

Depois das especulações de o filme chamar-se TERRIFYING ou MONSTROUS, posteriormente desmentidas pela Paramount, chegam-nos agora rumores, do site Bloody-Disgusting, de que o título será WRECK (uma possível tradução seria "Destroço").



Quanto ao enredo, o segredo é ainda maior. Não restam dúvidas de que se trata de um monster movie, contudo a natureza da ameaça é, por enquanto, totalmente desconhecida.

Extra: para os mais curiosos, aqui fica o link para sete videos dos bastidores das filmagens de 1-18-08.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Primeira imagem...

... oficial do novo filme de Tom Cruise, de seu nome VALKYRIE, e onde é possível ver o aspecto dos vários actores nesta produção (para além de Cruise, salienta-se a presença de Bill Nighy, Terence Stamp e Kenneth Branagh):



Realizado por Bryan Singer, responsável por OS SUSPEITOS DO COSTUME (1995) e X-MEN (2000), VALKYRIE reconstitui o percurso do oficial nazi Claus Stauffenberg, imortalizado por ter atentado contra a vida de Adolf Hitler em 1944.

Muito criticado pelas autoridades alemãs (desde a interdição da equipa de filmagens a alguns locais históricos até à acusação da péssima escolha de Tom Cruise para o papel principal), este é já um dos títulos "quentes" para as estreias de 2008.

Mais novidades surgirão em breve.

terça-feira, setembro 04, 2007

Bobby e Peter Farrelly — os auteurs do Ridículo?



Se a comédia continua a ser encarada como género "menor" no seio do panorama cinematográfico, bastará recordar o contributo do slapstick e da sitcom enquanto elementos formadores da chamada Sétima Arte para se rebater essa afirmação? Talvez, mas é fácil reparar em como a maioria das comédias, anualmente, são estreadas durante os meses de Verão e encaradas como objectos angariadores de receitas de bilheteira. De facto, a maioria delas transformam-se em sucessos. Será por essa razão que a comédia, enquanto género de cariz popular, não é propícia à criação de "autorismo"?

Nesse ponto, são poucos os nomes que conseguem obter o título de criadores de "humor inteligente", partido do conceito de que essa será, indubitavelmente, a única condição para se empregar o termo «autor». Num ápice, poder-se-ia referir Frank Capra, Jacques Tati ou Woody Allen como os mestres de comédia de qualidade. Mas serão os únicos merecedores de tal estatuto?



A 16 de Dezembro de 1994, estreou nos EUA, de forma pálida, DOIDOS À SOLTA (DUMB AND DUMBER), protagonizado por um Jim Carrey em franca expansão de notoriedade e realizado pelos "caloiros" irmãos Farrelly, Bobby e Peter. Cedo se conseguiu identificar os mecanismos que colocaria no "mapa" esta dupla de cineastas: o gag de mau gosto (com predominância para a exploração de piadas envolvendo fluídos corporais e escatologias diversas), a ausência intelectual dos protagonistas, o abundar de situações e diálogos nonsense, personagens envolvidas nas piores circunstâncias sem que para tal tenham intervenção directa e, na que bem pode ser a característica mais subtil dos irmãos Farrelly, uma extravagante paródia da sociedade norte-americana.

Contudo, só a estreia de DOIDOS POR MARY (THERE'S SOMETHING ABOUT MARY, 1998) confirmaria todas estas imagens de marca dos Farrelly. O catalisador para este sucesso terá sido, certamente, o elenco mais familiar do público geral — a saber, Cameron Diaz, Ben Stiller e Matt Dillon, acompanhados por competentes actores de comédia como Lee Evans e Chris Elliot. DOIDOS POR MARY contém, à partida, todos os elementos clássicos das comédias românticas made in America. O mais interessante é a distorção quase perversa efectuada a esses mesmos elementos: as paixões por Mary são de tal modo impulsivas ao ponto de serem consideradas crime e capazes de provocar os piores acessos de urticária; o baile de finalistas, cliché tão querido do imaginário norte-americano, é aqui reinterpretado como um evento em que tudo o que de mal poderia acontecer, acontece e com proporções épicas; a figura do deficiente mental ganha protagonismo cómico pelas suas limitações; e nenhuma preocupação de esta opção estética ser moralmente incorrecta.



O filme foi um sucesso de bilheteira (aliás, saldou-se como o terceiro filme mais lucrativo de 1998), recebeu críticas mornas mas nem por isso excessivamente negativas e a infame sequência do "gel para o cabelo" proporcionou uma fonte interminável de paródias e referências nos anos seguintes ao filme. Todavia, a principal conclusão a retirar do êxito de DOIDOS POR MARY foi ter estabelecido os irmãos Farrelly como visionários de um mundo cinematográfico muito próprio, por mais ofensivo que este possa ser.

Tal exclusividade permite classificar os irmãos Farrelly de «autores» por uma razão muito simples: qualquer filme do duo é imediatamente reconhecível pelo público mais aplicado. EU, ELA E O OUTRO (ME, MYSELF AND IRENE, 2000), O AMOR É CEGO (SHALLOW HAL, 2001) e (STUCK ON YOU, 2003) partilham o mesmo método de humor directo e simplista — apenas excluo OSMOSIS JONES, provavelmente o título mais mainstream da filmografia dos Farrelly e no qual até figura animação em 2D!

Para concluir, fica aqui a referência à produção vindoura dos Farrelly, nomeadamente THE HEARTBREAK KID, um reencontro com Ben Stiller, com estreia já para este ano. Oportunidade para revermos o seu "estilo": só o trailer descortina todos os itens que enumerei nos parágrafos anteriores.



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