segunda-feira, setembro 23, 2013

And like that, poof. He's gone.



Um dia, este momento tinha de chegar.

À escassez de disponibilidade para actualizações regulares, soma-se a ausência, tanto pessoal como externa, de motivação para prosseguir este projecto.

Para já, reina o desapontamento por uma iniciativa em curso — «O Cinema dos Anos 2000» — não conhecer continuação nem o desfecho que merecia. Sobretudo, pela preciosa e muito qualitativa colaboração dos bloggers que aceitaram embarcar no convite que lhes efectuei. São eles os principais destinatários das minhas desculpas por esta decisão e da minha gratidão pelo tempo que consumiram a escrever no Keyzer Soze's Place.

Talvez outros projectos se formem no futuro, provavelmente darão por mim noutros locais da comunidade blogger cinéfila. Garantidamente, fica o arquivo de posts. E a certeza na omnipresença do Cinema.

Até sempre.




sexta-feira, julho 19, 2013

Hollywood Buzz #207

O que se diz lá fora sobre ONLY GOD FORGIVES, de Nicolas Winding Refn:



«The wallpaper emotes more than Ryan Gosling does in ONLY GOD FORGIVES, an exercise in supreme style and minimal substance.»
Peter Debruge, Variety.

«The movie is so devoid of emotion that its ritualized gore acts as a narcotic. Filmed in shades of red, with a minimal screenplay, ONLY GOD FORGIVES looks like a ghoulish fashion shoot in hell.»
Stephen Holden, The New York Times.

«ONLY GOD FORGIVES is a hypnotic fugue on themes of violence and retribution, drenched in corrosive reds.»
David Rooney, The Hollywood Reporter.

«It's a solemnly preposterous piece of designer revenge pulp, with actors who stand around bathed in red and blue light like David Lynch mannequins in between scenes of torture and murder.»
Owen Gleiberman, Entertainment Weekly.

«The movie is like one thin satiric lark inexplicably slowed down to the point of lethargy.»
Eric Kohn, indieWIRE.

terça-feira, julho 16, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Garden State, de Zach Braff




GARDEN STATE pertence a um tempo, a um lugar melancólico e sombrio, muito representante de uma adolescência irremediavelmente fatalista à procura de um sentido para uma vida diferente, mais promissora da ilusão de maturidade. Paralelamente, existe também um desejo de estagnação, ou, antes, dessa necessidade afim de evitar o derradeiro adimplemento: a convergência de contradições e a percepção de que a maturidade não é a tal ilusão idealizada, antes uma inevitabilidade.

Discutivelmente o indie por excelência da última década, a primeira obra de Zach Braff rege-se por valores anti-moralistas. O protagonista, Andrew Largeman, descobre a vida na ressaca da morte; o seu pai, afogado em sentimentos de culpa, implode emocionalmente; e Sam, a mentirosa compulsiva expõe a fragilidade que lhe é esperada sob um manto de quasi-originalidade para, de forma idealística, esconder o negrume da mortalidade que desesperadamente procura esquecer. No universo de Largeman, o tempo passa e com ele a linha de consciência desvanece-se naquele a que socialmente se convenciona de "mundo real". A aprendizagem é progressiva e o triunfo dá-se lá para o fim da película quando existe uma ruptura das convenções em detrimento de realismo. É esta palpabilidade que potencia a qualidade do escrito e que comprova o tacto de Braff a lidar com uma temática sobre-explorada no advento do indie norte-americano.

Pautado por uma primorosa e laureada banda-sonora, GARDEN STATE é hábil a manter o equilíbrio entre um humor que dói na alma e um romance envolto numa honestidade trágica. Para a história fica um momento no tempo, tão único e significativo quanto alguma vez o poderia ser. E nas palavras de Sam: "This is your one opportunity to do something that no one has ever done before and that no one will copy throughout human existence. And if nothing else, you will be remembered as the one guy who ever did this. This one thing." E foi exatamente isso que Braff fez.

por Filipe Coutinho (Cinema is my Life).

Elenco
. Zach Braff (Andrew Largeman), Natalie Portman (Sam), Peter Sarsgaard (Mark), Ian Holm (Gideon Largeman), Jean Smart (Carol), Armando Riesco (Jesse), Jackie Hoffman (Sylvia Largeman)


Palmarés
. Festival de Cinema de Estocolmo: Melhor Actor (Peter Sarsgaard)
. Independent Spirit Awards: Melhor Primeira Obra (Zach Braff)
. National Board of Review: Melhor Realizador Estreante (Zach Braff)



terça-feira, julho 09, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Homem em Fúria, de Tony Scott




A validade do conceito de abordagem autoral, no âmbito do filme de acção, está longe de ser consensual e de encontrar uma definição aproximadamente derradeira. Mas para essa hipotética análise, HOMEM EM FÚRIA constitui título de consulta obrigatória — um filme quase dividido em três arcos narrativo-temáticos (arrependimento, vingança e redenção) unificados pelo estilo corrosivo, frenético, saturado e impulsivo empregue pelo malogrado Tony Scott, que "arrasa" o poder cristalino da imagem em prol da imediata identificação das apetências formais muito singulares do seu realizador.

A figura torturada de Creasy (Denzel Washington, naquele registo que lhe é muito próprio mas sem nunca estar na vertigem do cliché) rege os preceitos de HOMEM EM FÚRIA. O seu passado duvidoso enquanto agente dos serviços secretos norte-americanos transformou-o num indivíduo embriagado, instável e de de sonhos agitados, estado que só parece encontrar serenidade quando é contratado como segurança privado da frágil Pita Ramos (num desempenho assertivo pela jovem Dakota Fanning). Pouco tempo depois de iniciar funções e formar uma improvável amizade com a menina, Pita é sequestrada e anunciada como morta às mãos de uma rede especializada em rapto e resgate. Tal desenvolvimento impele Creasy a encetar uma autêntica cruzada vingativa, pautada por aquele discurso em que ele promete matar «todos os que estiveram envolvidos, todos os que lucraram com isto, qualquer um que se atreva a olhar-me da forma errada».

Partindo deste enlace de obra de pura e simples retaliação, HOMEM EM FÚRIA apresenta mais originalidade na sua composição visual do que na narrativa (inspirada, ressalve-se, num romance previamente adaptado ao Cinema em 1987). Expondo todo o flair técnico de Tony Scott — a quem foi, só após a sua morte, atribuído o estatuto de "pintor de acção" —, eis um filme que não hesita em enveredar pelo experimentalismo no seio de um dos géneros menos propensos a tal, formulando uma imagética radical, obtida através da manipulação na própria mecânica da câmara de filmar, que se associa irremediavelmente às memórias e sentimentos, em torno das suas personagens e emoções, gerados pelo espectador logo a seguir à sua visualização.

HOMEM EM FÚRIA é, portanto, acção em inflamado e visceral estado de experiência sensorial, num percurso estético que o realizador haveria de perpetuar em obras posteriores — com DOMINO (2005), DÉJÀ VU (2006) e a curta publicitária BEAT THE DEVIL (2002) em plano de destaque — que as avaliações pública e crítica do Cinema dos Anos 2000 teimaram em não louvar.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Denzel Washington (John W. Creasy), Dakota Fanning (Lupita 'Pita' Martin Ramos, Marc Anthony (Samuel Ramos), Radha Mitchell (Lisa Martin Ramos), Christopher Walken (Paul Rayburn), Giancarlo Giannini (Miguel Manzano), Rachel Ticotin (Mariana Garcia Guerrero), Mickey Rourke (Jordan Kalfus)


Sobre Tony Scott

Tal como o seu irmão, Ridley Scott, Tony evidenciou-se pelos seus filmes de acção onde a composição visual é motivo de instantânea atracção e notoriedade. Da sua filmografia, salientam-se FOME DE VIVER (1983), TOP GUN — ASES INDOMÁVEIS (1986), DIAS DE TEMPESTADE (1990), AMOR À QUEIMA-ROUPA (1993) e MARÉ VERMELHA (1995).



quinta-feira, julho 04, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Colateral, de Michael Mann




Entre o ritmo pulsante e a acção contida, mas vibrante, está o grande trunfo deste filme. Obra que, a bem dizer, é coerente e identificativa dos traços de Michael Mann, o artífice por detrás das câmeras e o homem que é capaz de filmar a cidade e a sua noite com uma personalidade invejáveis. A reboque das personagens e das suas convicções, somos conduzidos para uma trama misteriosamente camuflada e à mercê de inúmeras metáforas, sempre envolta num clima de ansiedade e suspense, e segundo uma atmosfera irrequieta, vadia, que nunca dorme.

Num táxi entra um cliente, e na cidade entram dois destinos, dois flancos do mesmo campo mental, tal como na noite entramos nós, espectadores, à boleia com Mann e os seus permeáveis planos aéreos. De um lado, o taxista que planeia a vida, os seus sonhos, a sua família, o seu trabalho e as conquistas para o sucesso, do outro, o cliente, o vilão e o assassino que não cobiça qualquer futuro ou esforço algum em busca de um ideal caracterizado por signos e valores moralmente (e previamente) aceites. No seguimento, os (aparentes) opostos atraem-se e na necessária e inevitável confrontação os efeitos colaterais sobressaem-se e sobem à tona em electrizantes debates e em angustiantes combates (à boa maneira dos gangsters).

Temos, portanto, dois eixos numa mesma história, diametralmente distinguíveis, mas humanamente confusos e questionáveis, quase como se pudéssemos e tivéssemos a capacidade de enveredar por um ou por outro se tal fosse a nossa intenção, isto sem descrédito nenhum para o desenrolar dos acontecimentos, porque na verdade ambos os protagonistas têm algo de aliciante, de cativante, algo que nos diz respeito e com que nos identificamos. A competência do argumento neste aspecto é impecável, diga-se de passagem, embora a concretização ou as interpretações pudessem estar mais intensas (os actores apesar de tudo estão bem). A narrativa, essa, avança assim, desde a contenção à acção frenética e entusiasmante, sempre na cadência e tensão certas e sem grandes exageros ou montagens alucinantes (o que é de salutar).

A realização, por seu lado, está noutro patamar, tanto na vivacidade da pequena escala (ou do enredo propriamente dito), no carro — espaço confinado e expressivamente amplificado — ou até no metro, como na luminosidade e transparência da grande escala — Los Angeles — fabulosamente descrita e interpretada. Michael Mann é exímio neste retrato a três dimensões e em alta definição (dois intérpretes e uma cidade), ao arquitectar um gradual jogo de poder e de suspeita, incutindo simultaneamente a audiência a questionar, a duvidar e a reflectir sobre o que vê e o que não vê.

COLATERAL pode-se definir como um cruzamento de duas vidas, de duas jornadas, que na colisão dissipam belas sequências de diálogo e de acção exemplar e lateralmente filmadas na vivência urbana e nocturna de L.A., mas, sobretudo, conservam um rol de dúvidas e receios pessoais que, no fundo, dizem respeito a todos nós como indivíduos e como sociedade. Cada consciência fará por si e para si tudo o que a motivará, tudo o que acreditará e necessitará e, aí, os dois protagonistas aqui em foco são uma mera amostra, são duas faces da mesma moeda, adequadamente encaixada num nível entre tantos outros e onde a realidade é bem mais estratificada e abrangente. Alicerçado então por diversas camadas de entendimento e envolvimento, o filme acaba por impressionar na medida em que converte um argumento interessante numa experiência admirável.

por Jorge Teixeira (Caminho Largo).

Elenco
. Tom Cruise (Vincent), Jamie Foxx (Max Durocher), Jada Pinkett Smith (Annie Farrell), Mark Ruffalo (Ray Fanning), Peter Berg (Richard Weidner), Bruce McGill (Frank Pedrosa), Irma P. Hall (Ida Durocher), Javier Bardem (Felix Reyes-Torrena)


Palmarés
. BAFTA: Melhor Fotografia (Dion Beebe, Paul Cameron)
. Festival de Veneza: Prémio Future Film (Michael Mann)
. Satellite Awards: Melhor Montagem (Jim Miller, Paul Rubell), Melhor Som (Lee Orloff, Elliott Koretz, Michael Minkler, Myron Nettinga)
. National Board of Review: Melhor Realizador (Michael Mann)
. Associação de Críticos de Los Angeles: Melhor Fotografia (Dion Beebe, Paul Cameron)


Sobre Tom Cruise

Representação máxima da definição contemporânea de star-system em Hollywood, a sua carreira tem conhecido a união entre o cinema comercial — sobretudo de acção, com ASES INDOMÁVEIS (1986, Tony Scott) e MISSÃO IMPOSSÍVEL (1996, Brian De Palma) em destaque — e desempenhos de profundo desenvolvimento psicológico — NASCIDO A 4 DE JULHO (1989, Oliver Stone) e MAGNOLIA (1999, Paul Thomas Anderson), ambos merecedores de nomeação ao Oscar. Títulos como NEGÓCIO ARRISCADO (1983, Paul Brickman), RAIN MAN — ENCONTRO DE IRMÃOS (1988, Barry Levinson), ENTREVISTA COM O VAMPIRO (1994, Neil Jordan) e GUERRA DOS MUNDOS (2005, Steven Spielberg) cimentaram o seu estatuto actual.



terça-feira, julho 02, 2013

Julho na Cinemateca Portuguesa



«A programação de julho prossegue em modo variado, com a apresentação de filmes provenientes, na sua esmagadora maioria, da coleção da Cinemateca, de distintos registos, cinematografias e datas de produção, refletindo um olhar abrangente sobre a História do cinema e as suas múltiplas facetas.»

Programação completa.

segunda-feira, julho 01, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Noite Escura, de João Canijo




Antes do sucesso marcante de SANGUE DO MEU SANGUE (2011), NOITE ESCURA foi o mais importante filme de João Canijo e um dos mais brutais retratos de um Portugal sujo, sórdido, retrógrado e, para a maior parte de nós, escondido. A vida nas casas de alterne, cujo realizador pesquisou abundantemente, participando no filme algumas das alternadeiras que Canijo conheceu no processo, é concomitante com o Portugal retratado nos média, mas parece aqui um outro mundo, de violência e morte, de sordidez e redenção, de uma sobrevivência terrível e incestuosa em tons de vermelho escuro. Inspirado na Efigénia em Aulis de Eurípides, toda a sua ambiência de pesadelo é sustentada pelo aspecto lúgubre da casa de alterne, pela coexistência visual e sonora de campo e contracampo, pelos relatos reais que perpassam as cenas, pela interacção entre os tons de vermelho e negro e por um final exímio nos processos de catarse e pathos típicos da tragédia grega.

Coadjuvado pelo seu leque de actores tradicionais (Rita Blanco, Fernando Luís, Clélia Almeida), o mais parecido que temos com um grupo de actores à Fassbinder ou à Almodòvar, marca também o zénite, até ao momento, da carreira cinematográfica dessa fabulosa actriz que é Beatriz Batarda, aqui responsável por uma transfiguração que raras vezes (nunca?) vimos no cinema português. NOITE ESCURA era suposto ser o primeiro de uma trilogia de filmes sobre o Portugal profundo inspirada por tragédias gregas. Se o segundo filme foi em frente e redundou em MAL NASCIDA (2007), o terceiro, ao que se sabe sobre a máfia nacional, ficou por fazer, alegadamente por motivos orçamentais. Sobrou-nos este grande filme, dos melhores que Portugal viu na década passada.

por Miguel Domingues (Café e Cigarros, À Pala de Walsh e Letra 1).

Elenco
. Beatriz Batarda (Carla Pinto), Fernando Luís (Nelson Pinto), Rita Blanco (Celeste Pinto), Cleia Almeida (Sónia Pinto), Natalya Simakova (Irka), José Raposo (Nicolau)


Palmarés
. Globos de Ouro Portugal: Melhor Filme, Melhor Actriz (Beatriz Batarda)


Sobre João Canijo

Um dos cineastas portugueses mais versáteis da actualidade, a sua obra tem sido dedicada à observação das contingências sociais e psicológicas nacionais — o ênfase nas heroínas de FILHA DA MÃE (1990) e SANGUE DO MEU SANGUE (2011) —, com um olhar profundo sobre o passado — no documentário FANTASIA LUSITANA (2010) — e as vivências dos portugueses na diáspora — GANHAR A VIDA (2001).



domingo, junho 30, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Spartan — O Rapto, de David Mamet




A velha máxima "nem tudo é o que parece" foi obviamente inventada para descrever o cinema de David Mamet. Na já extensa filmografia do dramaturgo norte-americano é fácil encontrar um tema recorrente: o bluff. Ao contrário do MacGuffin, um acessório narrativo para Alfred Hitchcock (talvez um pouco mais do que isso, o que não interessa discutir agora), o bluff é essencial para perceber a obra de Mamet, desde a estreia com JOGO FATAL (1987), que metia póquer, enganos e reviravoltas (a principal vítima dos truques de Mamet é o espectador), até às várias desconstruções de diferentes géneros cinematográficos: o filme de gangsters — AS COISAS MUDAM (1988); o policial — BRIGADA DE HOMICÍDIOS (1991); o heist movieO GOLPE (2001); o filme de artes marciais — REDBELT — CÓDIGO DE HONRA (2008). E este SPARTAN — O RAPTO, um estranhíssimo filme de acção (Mamet haveria de voltar à "acção" na série de televisão UNIDADE ESPECIAL).

SPARTAN — O RAPTO aparenta ser sobre a operação de resgate da filha do Presidente dos Estados Unidos, e esse é o motor da acção, mas o que realmente interessa a Mamet é a encenação que encontra em qualquer universo (aqui, o político e o militar), a encenação que o própria monta (não há cinema mais artificial). O protagonista (o inteligentíssimo Val Kilmer, um grande actor que se perdeu na década de 2000 em filmes cada vez menores e engordou numa inversa proporcionalidade, e é um match perfeito para o mametiano William H. Macy; melhor, que, neste filme, se descobre como um actor mametiano) é, quase ao mesmo tempo, criador e alvo do logro. O engano atinge sobretudo o espectador, que apenas numa sequência está a par da encenação, mas ao vislumbrar os seus mecanismos intui que por trás de tudo o que lhe é dado a ver estarão outros. Por isso, o final — o salvamento improvável — parece ainda mais risível. Um pouco como todos os finais na obra de David Mamet, este põe em causa o próprio filme, até porque para o espectador "acreditar" nele tem de fechar os olhos (suspender a descrença) a incongruências espectaculares (no sentido, de serem espectáculo em si mesmas).

Mas não há sinceridade em qualquer gesto de Mamet, a começar nos diálogos sincopados e repetitivos (o "Mamet speak"), passando pelas interpretações cabotinas (perfeitamente intencionais) e a acabar nas histórias rocambolescas e inverosímeis. Apenas a crença no cinema como jogo de espelhos, jogo de enganos, jogo puro.

por João Lameira (À Pala de Walsh e O Alvo Sentado).

Elenco
. Val Kilmer ("Bobby Scott"), Derek Luke (Curtis), Tia Texada (Sargento Jackie Black), Kristen Bell (Laura Newton), Johnny Messner (Grace), Ed O'Neill (Robert Burch), William H. Macy (Stoddard), Clark Gregg (Miller)


Sobre David Mamet

Dramaturgo e ensaísta, foi capaz de transportar para a Sétima Arte todo o estilo cáustico, pessimista e eloquente dos textos que produziu para os palcos. Autor dos argumentos de OS INTOCÁVEIS (1987, Brian De Palma), SUCESSO A QUALQUER PREÇO (1992, James Foley) e HOFFA — O PREÇO DO PODER (1992, Danny DeVito), foi capaz de variar nos géneros que abordou em Cinema — JOGO FATAL (1987), BRIGADA DE HOMICÍDIOS (1991), STATE AND MAIN (2001) e O GOLPE (2001) — mantendo sempre a mesma eficácia dramática.



sábado, junho 29, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Dogville, de Lars von Trier




Depois de ONDAS DE PAIXÃO (1996) e DANCER IN THE DARK (2000), eis que o génio de Lars von Trier surge em alta mais uma vez em DOGVILLE. Ancorado por mais uma magnífica interpretação de Nicole Kidman na sua fase mais áurea — tendo mesmo viajado para a Dinamarca no dia seguinte a receber o Óscar — DOGVILLE rouba inspiração a Brecht e a Wilder para criar uma fábula contra a americanização e, mais que isso, uma alegoria interessante sobre a crueldade e egoísmo da condição humana.

Von Trier reinvigora as suas temáticas habituais de opressão e realismo com uma radical abordagem à história, inventando um cenário despido, com as paredes das casas da pequena aldeia onde a narrativa decorre simplesmente desenhadas a giz. Este efeito de alienação, foi amplamente discutido e aplicado por Brecht no seu teatro por obrigar o espectador a focar-se nos temas e ideias em discussão ao invés dos cenários ou do ambiente. A crítica está lá, como sempre, acutilante, agressiva e ousada, bem ao estilo do provocateur dinamarquês. John Hurt, que narra o conto, apresenta-nos Grace (Kidman) que ao fugir das autoridades dá de caras com a pequena aldeia de Dogville, nas Rocky Mountains, nos anos 30. Quando os cidadãos da isolada e retrógada pequena comunidade não a recebem da forma mais calorosa, Tom (Bettany), filósofo e filho do médico da aldeia, vê-se obrigado a interceder por ela, pedindo que lhe seja dado abrigo e uma oportunidade. Grace, buscando ardentemente a aprovação dos seus pares, sujeita-se ao seu escárnio, discriminação e escravidão, ganhando esforçadamente o afecto e admiração de todos ao longo do tempo perdendo a sua identidade e personalidade até se tornar definitivamente um deles. Mal sabia ela que quando dados do seu passado se revelassem a tortura e opressão aumentaria e aquela pequena e dócil comunidade revelaria a sua real personalidade. Desde o mais mesquinho ao idealista Tom, cada um assume as suas cores verdadeiras e todos, da sua forma, condescendem e maltratam Grace.

DOGVILLE nem sempre consegue executar as ideias e ambições a que von Trier se propõe. Nem sempre o seu conceito resulta na prática e partes do filme parecem esforçar-se para encaixar e muito depende da capacidade que o espectador tenha para analisar criticamente e absorver o que está a ser exposto em ecrã. Não deixa nunca de ser uma obra viva, elegante, experimental e incrivelmente original. A exposição do dinamarquês sobre a injustiça que reina na sociedade contemporânea, violenta, desumana, fechada e antipática, em que muitas vezes julgamos os outros pela sua aparência e não damos oportunidade a quem é diferente de nós, é pertinente, actual e justificada. O seu voraz apetite para introduzir missivas contra os americanos, apesar de desnecessário, não retira valor ao resultado final do filme. Desafiador e profundo, DOGVILLE deve ser comemorado, porque além de uma obra-prima singular, de cunho indelével do cineasta dinamarquês, procura algo mais: fazer o espectador pensar criticamente, para variar.

por Jorge Rodrigues (Dial P For Popcorn).

Elenco
. Nicole Kidman (Grace Margaret Mulligan), Paul Bettany (Tom Edison, Jr.), John Hurt (Narrador), Lauren Bacall (Ma Ginger), Chloë Sevigny (Liz Henson), Stellan Skarsgård (Chuck), Udo Kier (Homem de casaco), Ben Gazzara (Jack McCay), James Caan (The Big Man), Patricia Clarkson (Vera)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Lars von Trier), Melhor Fotografia (Anthony Dod Mantle)


Sobre Lars von Trier

Depressivo, controverso e literalmente considerado como persona non grata pelo Festival de Cannes, é conhecido como um dos principais impulsionadores do Dogma 95 — colectivo avant-garde de realizadores baseado em valores narrativos, representativos e temáticos tradicionais — e a sua obra está preenchida por uma abordagem variada e iconoclasta a ambientes opressivos e pessimistas, onde a Humanidade é, invariavelmente, a causa de todos os males. Da sua filmografia, realce para O ELEMENTO DO CRIME (1984), EUROPA (1991), ONDAS DE PAIXÃO (1996), DANCER IN THE DARK (2000, Palma de Ouro em Cannes) e ANTICRISTO (2009).



domingo, junho 23, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, de Kim Ki-Duk




Ninguém fica imune ao poder das estações e ao seu ciclo anual de nascimento, crescimento e envelhecimento. Nem mesmo dois monges, como os presentes em PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO... E PRIMAVERA, que partilham um remoto mosteiro flutuante, num lago rodeado pelas montanhas. À medida que as estações se sucedem, todos os aspectos das suas vidas são preenchidos com uma intensidade que os conduz a uma enorme espiritualidade — e à tragédia. Porque também eles não conseguem resistir à escalada da vida, aos anseios, sofrimentos e às paixões que nos arrebatam a todos.

O filme narra a jornada de um jovem monge de 10 anos, cujo nome permanecerá incógnito, desde a sua infância até à maturidade. Sob o olhar atento do Velho Monge, o jovem experimenta a perda da inocência por intermédio de um encadeado de acontecimentos dispostos da mesma forma episódica como a divisão temporal do título: brincadeiras que se transformam em crueldade; o despertar do amor quando uma mulher entra neste mundo fechado; o poder assassino do ciúme e da obsessão; o preço da redenção; e a iluminação da experiência. Assim como as estações continuam a alternar até ao final dos tempos, também este mosteiro permanecerá como a morada do espírito do protagonista, suspenso entre o agora e o eterno.

O cinema de Kim-Ki Duk notabilizou-se pela natureza visceral, chocante e agitada de obras como O BORDEL DO LAGO (2000) e HWAL (2005). Pelo contrário, PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO... E PRIMAVERA afirma a vertente delicada e "mundana" do seu realizador, que aqui utiliza a mudança das estações como uma metáfora para a vida. E se essa não se revela como uma abordagem original, a concretização é de uma beleza particularmente invulgar, destinada a amplificar emocionalmente a história e respectiva profundidade espiritual.

Num filme que levanta questões sobre a forma como vivemos, e como as nossas acções e as da natureza podem ter consequências inesperadas anos mais tarde, PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO... E PRIMAVERA restaura a esperança de que o mundo possa enfrentar os seus problemas e retirar ilações para o futuro.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Su Oh-yeong (Velho monge), Kim Ki-duk (Monge adulto), Kim Young-min (Monge jovem adulto), Seo Jae-kyeong (Monge jovem), Ha Yeo-jin (Rapariga), Kim Jong-ho (Monge em criança)


Palmarés
. Festival Internacional de Locarno: Prémio do Júri da Juventude (Kim Ki-Duk), Prémio C.I.C.A.E. (Kim Ki-Duk), Prémio Don Quixote (Kim Ki-Duk), Prémio Netpac (Kim Ki-Duk)
. Festival Internacional de San Sebastián: Prémio do Público (Kim Ki-Duk)


Sobre Kim Ki-Duk

Cineasta orgulhoso do seu estatuto, a nível mundial, de autor outsider, tal condição tem-lhe permitido explanar, idiossincraticamente, a sua visão pessimista, brutal e confrangedora da Humanidade. Da sua filmografia, destacam-se O BORDEL DO LAGO (2000), BAD GUY (2001), SAMARITANA (2004), FERRO 3 (2004) e PIETA (2012, Leão de Ouro no Festival de Veneza).



quarta-feira, junho 12, 2013

Jukebox #37

(«Jukebox»: boa música e os videoclips mais criativos do ponto de vista cinematográfico).

. David Lynch & Lykke Li, «I'm Waiting Here»



David Lynch "regressa" a ESTRADA PERDIDA por intermédio do primeiro single para 'The Big Dream', o seu novo álbum a solo.

Concebido pela própria Lykke Li e Daniel Erasure, «I'm Waiting Here» não esconde a inspiração que bebe às ambiências noir de David Lynch, e o universo melancólico da vocalista sueca parece ter encontrado um perfeito complemento visual:



terça-feira, junho 11, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Elefante, de Gus Van Sant




Dia mais infame e justiceiro nunca vi, rumoreja o rapaz, para si mesmo ou, hipótese que nos parecerá mais certeira, para o mundo. Encontramo-nos num belo e outonal dia de escola, que não se poderia assemelhar mais a todos os outros, mas que, por motivos cuja razão ainda nos é transcendente, terminará de uma forma particularmente diferente.

Van Sant consolidou, com esta película aplaudida e premiada por Cannes com a cobiçada Palma de Ouro e o prémio de melhor realizador, o seu estilo de filmagem único e memorável. Apesar de serem enormes as comparações que podemos estabelecer com a curta-metragem homónima de Alan Clarke em 1989 (cuja aconselhável visualização pode ser feita nas opções especiais do DVD), existem alguns elementos próprios de Gus, dos quais passo a nomear quatro. O primeiro, que é o mais saliente, é, claramente, a sua capacidade excepcional de encontrar beleza, estudar e "espiar" as suas personagens pelas costas, como se não as conhecesse, como se os nossos olhos estivessem realmente naquele estabelecimento público e assumissem a visão de um aluno que deambulava, vagarosa mas intensamente, pelos seus incontáveis corredores. Mas que mais poderá sugerir esta decisão de vermos, por detrás, estes humanos que nos são sempre desconhecidos? Talvez nos sirva de uma metáfora visual, que aponta o dedo para a terrível conformidade, indisciplina e revolta de que vivem os alunos (ainda que pensem estar em plena personalidade, se quisermos usar o termo específico da filosofia que Kant nos deixou), ou para a sua desconsideração dos olhares que lhes são alheios (os nossos, portanto) ou, ainda, para a sua procura infinita da sua verdadeira e escondida identidade (referência possível a René Magritte?). A segunda "marca de autor" que é amplamente visível é o gosto pelos longos takes que tem o cineasta, assim como a preocupação de não contar a história com um tempo linear, percorrendo assim, de forma um tanto surreal, a escola com uma poética e impressionista steadycam que nos permite ter uma visão integral do mundo onde as formigas vivem, sem notarem a nossa presença. Em terceiro lugar temos, também característico do estilo van santiano, a filmagem notória do realizador em 180º, cujo possível significado alegórico já foi, por mim, pressuposto na crítica que escrevi de MILK. E, por último, mas certamente não menos curioso, é a forma como o realizador decide fazer dos actores elementos estruturais do processo criativo de como é avançada a obra, pela improvisação de falas e acções, através de um subtexto previamente fornecido.

O realizador dá, então, um significado diferente ao termo "narrativa" e, ainda assim, consegue, ao debruçar-se sobre temas tão banais como a sexualidade, o bullying, o preconceito, as minorias sociais e as desordens alimentares na juventude, construir um universo onde o absurdo é engrandecido para que, ao vermos as coisas num plano externo e superficial, nos apercebamos da incoerência própria da nossa sociedade. E, apesar deste inegável realismo de que é característica a fita, podemos encontrar indícios simbólicos e trágicos ao longo da “história” que nos é contada — nos planos do céu em fast forward, no uso dos sons da natureza como eufemismo directo da realidade, ou das próprias Für Elise e Moonlight Sonata de Beethoven (ligação directa a LARANJA MECÂNICA, de Kubrick, realizador preferido de Van Sant?). O som e a fotografia, são, portanto, dois factores cinematográficos enaltecidos para a modelação do universo "elephantiano". Ao vaguearmos atrás daqueles humanos sentimos que tudo parece difundir-se no ar em redor deles — os sons nítidos e típicos de um ambiente escolar (risos, conversas e afins) sofrem uma metamorfose quase alienígena e convertem-se em ruídos imperceptíveis à nossa inteligência, tal como conseguimos ver que, progressivamente, o mundo físico começa a perder cor e a sofrer um grandioso desfoque à medida que as personagens se iam perdendo nos seus pensamentos. Destaca-se, dessa forma, o magnífico esforço tido pelo cinematógrafo Harris Savides.

Na segunda metade do pequeno filme entramos na mais sufocante e brutal fase — a do massacre. A cada disparo que ouvimos dentro daqueles sombrios corredores, somos atingidos com a terrível apreensão da singularidade de uma só vida, algo que constante e diariamente é desvalorizado pela sua infinda banalização feita pela comunicação social, pelos videojogos, pela literatura, música ou, como não podia também deixar de ser, pelo próprio cinema. Em jeito de breve referência, o massacre ocorrido recentemente numa escola secundária na Alemanha gerou um grande debate relacionado com a adolescência e o respectivo papel da escola. Ainda assim, onde se homenageavam as vítimas chegavam-se a ver escritas questões simples como "warum?". Porquê? Por que desceu alguém tão baixo ao ponto de, a sangue frio e aleatoriamente, retirar as vidas que pulsavam em distintos anónimos? ELEFANTE, simplesmente, pretende manter-se na sua suposta ignorância e não responder, pelo menos de forma directa, a esta questão, nem a qualquer de outro tipo que interroguem, por exemplo, as motivações do massacre de Columbine em 1999. Contudo, várias são as cenas em que podemos lançar especulações que expliquem os comportamentos dos dois assassinos: lembremo-nos, por exemplo, de uma cena belíssima onde Alex se encontra na cantina escolar, de cabeça escondida e mãos postas na nuca, rodeado por centenas de alunos a almoçar, apavorado pela imensidão daquele som abafador que nos é progressivamente aumentado, sugerindo-nos, talvez, o completo delírio mental por que passava a personagem ou, possibilidade merecedora de reflexão pessoal, a sua completa lucidez...

Por outro lado, o filme não é niilista e não se limita a oferecer um morticínio gratuito — muito pelo contrário. Escondido na aparente barbaridade e crueza com que os assassinatos nos são sequencialmente exibidos está uma sensibilidade única que só Van Sant e poucos demais conseguiriam atingir. Mais explícita está ela quando começamos a estudar as emoções dos personagens nestes casos limite: enfrentando o medo, quebram-se as fronteiras invisíveis que nos separam, e a máscara das aparências que nos esconde é retirada. Sobe-se, verdadeiramente, à condição de humano. E a questão orgânica é inevitável: será que é necessário chegar-se a este ponto para que mudemos de mentalidades, acções, e políticas? É por trazer ao sol tantas questões que o final da película é quase perfeito. Quem ditará o seu verdadeiro fim: o último tiro? Ou a mudança social que, embora possível, não se fez até o momento?

ELEFANTE é uma sublime e inesquecível obra-prima dos tempos modernos, e que é, mais do que uma chamada de atenção para o estado preocupante da nossa educação, um refulgente e melancólico ensaio sobre a vida e a morte, sobre a violência e sobre a puberdade, espelhada tão magnificamente numa escola de qualquer género, de que a sociedade contemporânea insiste em não sair.

por Flávio Gonçalves (O Sétimo Continentetexto originalmente publicado a 04 de Agosto de 2009, revisto a 18 de Abril de 2010).

Elenco
. Alex Frost (Alex), Eric Deulen (Eric), John Robinson (John McFarland), Timothy Bottoms (Mr. McFarland), Matt Malloy (Mr. Luce), Elias McConnell (Elias), Nathan Tyson (Nathan), Carrie Finklea (Carrie), Kristen Hicks (Michelle)


Palmarés
. Festival de Cannes: Palma de Ouro, Melhor Realizador (Gus Van Sant), Prémio do Ministério da Educação de França (Gus Van Sant)
. Círculo de Crítica de Nova Iorque: Melhor Fotografia (Harris Savides)


Sobre Gus Van Sant

Num dos processos de constante reinvenção artística mais interessantes da actualidade, Van Sant tem explorado temas como marginalidade sócio-cultural e ambiguidade sexual através de outsiders como protagonistas e uma carreira que oscila entre cinema independente e o filme comercial. A CAMINHO DE IDAHO (1991), TO DIE FOR — DISPOSTA A TUDO (1995), O BOM REBELDE (1997), PARANOID PARK (2007) e MILK (2008) são as obras mais marcantes da sua filmografia.



segunda-feira, junho 10, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Grande Peixe, de Tim Burton




É delicioso quando a fantasia ganha uma subtileza que nos faz acreditar nela como uma realidade possível. O GRANDE PEIXE — baseado na obra Big Fish: A Novel of Mythic Proportions, de Daniel Wallace, o próprio com uma pequena participação no filme — deixa-nos com esta sensação, e faz-nos ir muito mais além, sem questionar nada do que nos é contado, num dos títulos menos góticos ou extravagantes de Tim Burton, mas, ainda assim, recheado da sua personalidade enquanto realizador.

Ed Bloom (Ewan McGregor/Albert Finney) é um homem de imaginação delirante, um contador de histórias incapaz de as distinguir da realidade. A relação com o seu filho Will, de quem vive afastado há vários anos, não é a melhor. Quando a saúde de Ed fica debilitada, Will é aconselhado pela mãe tentar reaproximar-se do pai, e aí vai experimentar a necessidade de identificar, nas histórias que ouve, a distância entre o que foi realmente a sua vida e o que lhe acrescenta a sua imaginação.

As emocionantes interpretação de Ewan McGregor — o jovem Ed — e de Albert Finney — o Ed idoso — fazem-nos mergulhar na imaginação, e mostram-nos como é fundamental acreditar nela, para que a realidade possa ser menos dura.

À cor, fantasia e paixão, juntam-se um simpático gigante, um circo, uma floresta obscura e cheia de segredos, um poeta muito peculiar, duas irmãs gémeas, e muitas histórias para contar. Resta-nos deixar que Ed nos guie pelas suas aventuras, e cabe-nos a nós, no fim, construir a sua verdadeira história — ou, por que não, aceitarmos a vida que Ed criou. E é essa a lição que ele nos ensina (à plateia e ao seu próprio filho): o destino, seja qual for, é decido por nós.

por Inês Moreira Santos (Hoje Vi(vi) Um Filme, editora de cinema do Espalha-Factos).

Elenco
. Albert Finney (Edward Bloom idoso), Ewan McGregor (Edward jovem), Jessica Lange (Sandra K. Bloom idosa), Alison Lohman (Sandra jovem), Billy Crudup (William 'Will' Bloom), Marion Cotillard (Joséphine Bloom), Helena Bonham Carter (Jennifer Hill / Bruxa), Robert Guillaume (Dr. Bennett), Matthew McGrory (Karl, o Gigante), Danny DeVito (Amos Calloway)


Sobre Tim Burton

Célebre por uma abordagem, simultaneamente mainstream e autoral, de cariz sombrio, gótico, macabro e enternecedor aos géneros do terror e fantasia, é um dos realizadores mais imaginativos e peculiares a trabalhar actualmente em Hollywood. Da sua filmografia, destacam-se FRANKENWEENIE (1984), BATMAN (1989), EDUARDO MÃOS-DE-TESOURA (1990), ED WOOD (1994), A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999) e SWEENEY TODD — O TERRÍVEL BARBEIRO DE FLEET STREET (2007).



domingo, junho 09, 2013

Hollywood Buzz #206

O que se diz lá fora sobre MUCH ADO ABOUT NOTHING, de Joss Whedon:



«From its very first scenes, Mr. Whedon’s film crackles with a busy, slightly wayward energy that recalls the classic romantic sparring of the studio era.»
A.O. Scott, The New York Times.

«More than most adaptations, this is a film true to Shakespeare's practice of employing all means at hand to keep the crowd entertained.»
John DeFore, The Hollywood Reporter.

«The film isn't as fast and funny as it could be, although Nathan Fillion's easily offended constable injects some sorely needed comic relief.»
Chris Nashawaty, Entertainment Weekly.

«Call it a Shakespearean catharsis or just call it a lark - either way, the movie represents Whedon's least essential work, regardless of the material's inherent comedic inspiration.»
Eric Kohn, indieWIRE.

«Homemade as it clearly is, and first-drafty as it often feels, Whedon’s MUCH ADO will reward repeat viewings, for the adroitly paced dialogue, the debauched humor of the extended party scenes and the offbeat visual jokes.»
Andrew O'Hehir, Salon.com.

sábado, junho 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Saraband, de Ingmar Bergman




Depois de FANNY E ALEXANDRE (1982), o mestre Ingmar Bergman anunciou que se ia retirar do cinema. No entanto, como parar é morrer, continuou a trabalhar em televisão e a escrever para amigos e colegas como Bille August ou Liv Ullman, nunca se afastando completamente nas duas décadas seguintes. E ainda bem, porque se há algo que SARABAND revela é que o talento nunca se esvai e, neste que ficou para a história como o seu último filme, está a profundidade na análise do ambiente familiar e o amor pela música que se pode reconhecer em SONATA DE OUTONO (1978) ou DEPOIS DO ENSAIO (1984), com a mesma vitalidade e honestidade. Isto sem esquecer que estamos a falar de uma sequela a CENAS DA VIDA CONJUGAL (1973)...

30 anos depois, na história e na realidade, com os mesmos actores, agora envelhecidos, o que introduz um grau de credibilidade inaudito a esta evolução. Marianne (Ullman) e Johan (Erland Josephson) continuam divorciados, mas mantiveram-se amigos. Ela visita-o no seu retiro veranil, onde uma crise familiar se desenvolve, com Henrik e Karin como centro da atenção, respectivamente filho e neta de Johan. Bergman encontra sempre na intimidade pormenores que, para quem olha de fora, indiciam as causas das relações mal resolvidas entre as personagens, tornando a precisão com que se vão desenvolvendo e o realismo das acções e dos diálogos fascinante.

Obrigado pelas memórias, direktör Bergman!

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Liv Ullmann (Marianne), Erland Josephson (Johan), Börje Ahlstedt (Henrik), Julia Dufvenius (Karin), Gunnel Fred (Martha)


Palmarés
. Prémios Sant Jordi: Prémio Especial (Ingmar Bergman)


Sobre Ingmar Bergman

Reconhecido como um dos autores mais completos e prestigiosos (Woody Allen e Krzysztof Kieślowski são dois dos cineastas que mais notam a influência de Bergman na sua obra) da História do Cinema, demonstrou, também, talento enquanto encenador e produtor de séries de televisão. Os seus temas predilectos — morte, doença, fé, traição, tristeza e loucura — estão patentes em títulos como O SÉTIMO SELO (1957), MORANGOS SILVESTRES (1957), O ROSTO (1958), A MÁSCARA (1966), A HORA DO LOBO (1968) e LÁGRIMAS E SUSPIROS (1972).



sexta-feira, junho 07, 2013

O Cinema dos Anos 2000: The Brown Bunny, de Vincent Gallo




THE BROWN BUNNY é filme da última década e é talvez dos mais importantes. Coisa curiosa por ser realizado por Vincent Gallo, alguém que desperta as mais inúmeras reações em todo mundo. Goste-se ou não Gallo sabe o que faz, já o tinha provado nesse grande filme chamado BUFFALO '66.

Primeiros planos numa pista de motos, um deserto e um personagem. Personagem esse que vai percorrer um longo caminho, não se sabe bem para onde, sem rumo, nem porque vagueia ele neste mundo. O certo é que o seu olhar carrega algo forte, um passado de marcas e de dor. E ninguém melhor do que Vincent Gallo (actor) para encarnar Bud. Os silêncio de Bud dizem muito mais do que palavras poderiam dizer. E mais do que tudo, o rimo do filme, coisa que parece não agradar a muita gente.

THE BROWN BUNNY é filme deste mundo, filme de 2003, filme de mágoa e de feridas. Espera-se mais filmes deste grande cineasta, filmes que parecem tardar. Mais do que tudo, THE BROWN BUNNY pode não agradar à maioria do público mas se há coisa que me interessa no cinema actual, é isto.

por João Gonçalves (Modern Times).

Elenco
. Vincent Gallo (Bud Clay), Chloë Sevigny (Daisy), Cheryl Tiegs (Lilly), Elizabeth Blake (Rose), Anna Vareschi (Violet), Mary Morasky (Mrs. Lemon)


Palmarés
. Viennale: Prémio FIPRESCI (Vincent Gallo)


Sobre Vincent Gallo

Actor, realizador, argumentista, modelo e músico. Ao seu semi-protagonismo em títulos como A IDADE MAIOR (1991, Teresa Villaverde) e O FUNERAL (1996, Abel Ferrara) sucedeu-se um percurso inigualável e controverso como cineasta, chocando plateias e antagonizando críticos de cinema — nomeadamente, Roger Ebert. BUFFALO '66 e PROMISES WRITTEN IN WATER (2010) são os outros títulos de Gallo enquanto realizador.



quinta-feira, junho 06, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Oldboy — Velho Amigo, de Chan-wook Park




O magnum opus da 'trilogia de vingança' assinada por Chan-wook Park, OLDBOY — VELHO AMIGO recebeu o selo de culto ainda em Cannes, pouco antes de se tornar num dos maiores fenómenos cinematográficos de 2003; em causa a controvérsia associada à natureza da sua brutalidade e a qualidade técnica dos cineastas envolvidos que produziu, entre outros, "o" magistralmente coreografado plano-sequência, já um ícone da cultura popular. Mas o impacto causado pela película Sul Coreana vai muito além de um ideal ilusório de violência. É a poesia da narrativa e a instigante honestidade que tornam a viagem de Oh Dae Su (brilhante interpretação de Choi Min-sik) numa miríade de intriga dotada de uma subliminal caracterização de justiça.

Sob o trepidar da angústia e do incompreensível, Park desconstrói um macabro envolto em epistemologias filosóficas, evidenciando um ethos de moral ambígua em prol da exploração de uma dimensão humana de solidão. É através deste catalisador de emoções primárias que Park usa a repressão de impulsos caóticos do seu anti-herói para colorir este subversivo e arrebatador neo-noir. Gravado na retina fica a harmonia entre os tons negros do caleidoscópio óptico e a perversidade do lirismo contextual, bem como a visceralidade psicológica associada à sua visualização. Baseado na manga de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minegishi, OLDBOY é, mais do que um dos melhores feitos da década de 2000, um dos grandes filmes do cinema asiático.

por Filipe Coutinho (Cinema is my Life).

Elenco
. Choi Min-sik (Oh Dae-su), Yoo Ji-tae (Lee Woo-jin), Kang Hye-jung (Mi-do), Ji Dae-han (No Joo-hwan), Kim Byeong-ok (Mr. Han), Oh Tae-kyung (Dae-su jovem), Ahn Yeon-seok (Woo-jin jovem), Woo Il-han (Joo-hwan jovem)


Palmarés
. Festival de Cannes: Grande Prémio do Júri (Chan-wook Park)
. Festival Internacional de Sitges: Melhor Filme (Chan-wook Park), Prémio da Crítica


Sobre Chan-wook Park

Uma das principais figuras do renascimento do Cinema Sul-Coreano, a sua tendência para encenar histórias simples mas sangrentas, através da criação de mundos ilusórios e quase artificiais, está explanada numa carreira diversificada e multipremiada. Destacam-se, da sua filmografia, JOINT SECURITY AREA (2000), SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE (2002), VINGANÇA PLANEADA (2005) e THIRST — ESTE É O MEU SANGUE (2009).



quarta-feira, junho 05, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Touching the Void — Uma História de Sobrevivência, de Kevin Macdonald




O título em português de TOUCHING THE VOID referencia mais do que as provações físicas e mentais, vividas por Joe Simpson e Simon Yates, dois alpinistas britânicos que, em 1985, decidiram enfrentar — com um desenlace quase fatal — as escarpas geladas e traiçoeiras do Siula Grande, nos Andes. Na verdade, em todas as circunstâncias desta "História de Sobrevivência", fica subjacente uma profunda observação sobre a importância da tomada de decisões na vida e (tendo em conta o caso abordado pelo filme) na morte de qualquer um de nós.

Entrecruzando entrevistas a Simpson e Yates com a vívida e atmosférica recriação de uma escalada peculiarmente acidentada, Kevin Macdonald privilegia os contornos morais da situação em detrimento de qualquer exagero emocional, ou gratuitidade na apresentação de sofrimento humano, que a mesma poderia suscitar. Numa abordagem documental séria e cuidadosa, que não sofre por recorrer a técnicas como a Snorricam ou a distorções na sonoplastia — ferramentas até então exclusivamente presenciadas no cinema de ficção —, o espectador permanece facilmente envolvido nas implicações éticas das acções e poderosa superação humana dos intervenientes, as quais são, e sempre, os principais motores "narrativos" de TOUCHING THE VOID.

Objecto singular no seio do cinema documental dos anos 2000 (capaz, inclusive, de obrigar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas a alterar as regras do Oscar de Melhor Documentário, para assim justificar a sua ausência entre os nomeados daquele ano), TOUCHING THE VOID — UMA HISTÓRIA DE SOBREVIVÊNCIA sacrifica o suspense e o grande espectáculo pela introspecção e a quietude das consequências da extrema iniciativa humana num dos piores cenários naturais do nosso planeta.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Brendan Mackey (Joe Simpson), Nicholas Aaron (Simon Yates), Richard Hawking (O próprio), Joe Simpson (O próprio), Simon Yates (O próprio), Ollie Ryall (Richard Hawking)


Palmarés
. BAFTA: Melhor Filme Britânico (John Smithson, Kevin Macdonald)