

A tremenda e eficaz simplicidade de OS OUTROS começa logo pelo seu próprio título, sugestiva e misteriosamente indicando a presença de uma ameaça que o filme, de modo sedutor, teima em deslindar — e se tal revelação nunca ocorresse, Alejandro Amenábar continuaria a ter concebido uma das obras de terror mais completas e impactantes dos anos 2000.
O ano da acção é 1945. Grace (Nicole Kidman), os seus dois filhos (Alakina Mann e James Bentley), alérgicos à luz, e três criados recém-chegados habitam uma casa atmosférica e quase intemporal. Corredores estreitos, quartos cavernosos e soalhos que rangem compõem aquela mansão, onde "nenhuma porta deve ser aberta sem que a anterior esteja fechada" e que em breve demonstrará sinais de estar assombrada. Grace escuta risos e choros infantis através das paredes, a sua filha afirma vislumbrar pessoas estranhas à casa, portas trancadas surgem misteriosamente abertas, um piano toca sozinho: por outras palavras, território adequado para uma história de fantasmas, sem pejo de exibir truques familiares mas que, nas mãos de Amenábar, figura uma delicada subversão na mecânica técnica e narrativa do género.
Extravasando o terror físico e/ou material, OS OUTROS opera a um nível totalmente primordial. Tal surge na forma como, no seio de uma provável presença fantasmagórica naquele "lar", se inquieta também o espectador através das circunstâncias dúbias do passado recente da protagonista, do papel das duas crianças (cuja natureza, a certa altura, parece dever mais a J.D. Salinger do que a O GÉNIO DO MAL) no desenrolar dos acontecimentos ou das misteriosas intenções dos serviçais.
O inexorável twist final de OS OUTROS, permeável a repetidas e obrigatórias visualizações, não é impedimento para o deslavar de diversas camadas e pormenores visuais do filme — canalizados, sobretudo, pela sensibilidade europeia do seu realizador, capaz de "fugir" às mais óbvias referências cinematográficas, sendo A CASA MALDITA (1963) exemplo principal. O seu proeminente imaginário religioso, quando confrontado com os conteúdos sobrenaturais (heréticos?) aqui dispostos, eleva o potencial psicológico do argumento, como poucos horror movies da última década alcançaram, a um patamar de perturbação essencialmente humana. Pois se o desconhecido, esse temeroso factor da nossa existência ("o medo daquilo que não vemos é sempre um chamariz para os nossos próprios medos"), encontra no invisível seu proeminente sinónimo, os sustos gerados pelos "outros" de Amenábar revelam-se inteiramente quotidianos.
Elenco
Nicole Kidman (Grace Stewart), Alakina Mann (Anne Stewart), James Bentley (Nicholas Stewart), Fionnula Flanagan (Bertha Mills), Eric Sykes (Edmund Tuttle), Elaine Cassidy (Lydia), Christopher Eccleston (Charles Stewart).
Palmarés
. Academia de Cinema de Ficção-Científica, Fantasia e Terror: Melhor Filme — Terror, Melhor Actriz (Nicole Kidman), Melhor Actriz Secundária (Fionnula Flanagan)
. Prémios Goya: Melhor Filme, Melhor Realizador (Alejandro Amenábar), Melhor Argumento (Alejandro Amenábar), Melhor Fotografia (Javier Aguirresarobe), Melhor Montagem (Nacho Ruiz Capillas), Melhor Direcção Artística (Benjamín Fernández), Melhor Direcção de Produção (Emiliano Otegui e Miguel Ángel González), Melhor Som (Ricardo Steinberg, Tim Cavagin, Alfonso Raposo e Daniel Goldstein)

Nos anos 2000, observou-se o incremento da produção hispânica dedicada ao cinema de terror, a qual saldou-se, na sua maioria, em sucessos de crítica e público internacionais e inúmeros remakes por parte da (no que a este género cinematográfico diz respeito) pouco inspirada indústria norte-americana. Uma realidade potenciada, para além de Alejandro Amenábar, por realizadores como Guillermo del Toro (NAS COSTAS DO DIABO, 2001), Juan Carlos Fresnadillo (INTACTO, 2001), Jaume Balagueró ([REC], 2007) ou Juan Antonio Bayona (O ORFANATO, 2007).







































