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segunda-feira, setembro 06, 2010

Festival de Veneza 2010 — Dia 6



Como é habitual todos os anos em Veneza, o Festival apresenta um filme surpresa no alinhamento candidato ao Leão de Ouro. Em 2010, a escolha recaiu em THE DITCH (Em Competição), de Wang Bing.



Relativo aos campos de trabalhos forçados — ou de "reaprendizagem", tal como eram apelidados pelo regime maoísta — para dissidentes na China, que eram presos nestes locais por uma variedade de razões, Wang Bing entrevistou centenas de sobreviventes, de forma a inteirar-se da realidade daqueles locais desoladores.

E THE DITCH já é considerado como um dos melhores filmes da presente edição do Festival, arrecadando o "prémio" da maior ovação até ao momento e conquistando a crítica: «cinemático e elegante, surge como um documentário artístico. Não existe banda sonora e o trabalho de som pode ser apelidado de realista. Tudo parece autêntico. Na verdade, suspeito que a única razão porque THE DITCH parece uma obra de ficção será por abordar uma realidade agora impossível de filmar».

Wang Bing no Lido

I'M STILL HERE (fora de Competição), o documentário rodado por Casey Affleck sobre o primeiro ano de Joaquin Phoenix enquanto rapper, conheceu exibição no Lido.



A esperança de compreender as razões que levaram Joaquin Phoenix, um dos melhores actores da sua geração, a abandonar uma carreira de sucesso no grande ecrã para enveredar pelo mundo da música, não encontrará aqui muitas respostas. A maioria da audiência ficou a ponderar se tinham observado a realidade ou, pelo contrário, um elaborado mockumentary. Na conferência de imprensa, Casey Affleck afiançou que I'M STILL HERE «não é um embuste. Tal ideia nunca me passou pela cabeça até começarem a lançar essa noção para a opinião pública».

Confusão foi, também, o sentimento geral dos críticos que assistiram à antestreia de I'M STILL HERE (vai conhecer distribuição comercial nos EUA a partir da próxima Quinta-Feira). Aparentemente, o saldo final «resulta numa fascinante experiência que mistura realidade com material inventado para examinar conceitos de celebridade, estabilidade mental e amizade». Um crítico aclamou-o, eloquentemente, como o primeiro exemplo de «suicídio artístico disfarçado de arte conceptual» para descrever o "desempenho" de Joaquin Phoenix.

Um renovado Joaquin Phoenix saúda o público em Veneza

Casey Affleck, realizador do documentário mais insólito de 2010

Imagens retiradas de: Site Oficial do Festival, AFP, EPA e Reuters.

domingo, setembro 05, 2010

Festival de Veneza 2010 — Dia 5



O indie norte-americano voltou a mostrar o seu poder em Veneza com a exibição de MEEK’S CUTOFF (Em Competição), realizado por Kelly Reichardt.



Baseado na história verídica de Stephen Meek, um guia que em 1845 liderou uma coluna de 200 carroças através do deserto do Oregon, perdendo-se num local sem água potável disponível. Assinado por uma mulher, estamos perante um western sem vestígio de xerifes nem duelos, que prefere abordar os dramas psicológicos daqueles que empreenderam longas viagens nos tempos do "Velho Oeste". Reichardt justificou esta opção ao afirmar que «adoro os filmes de Nicholas Ray ou Monte Hellman, mas nunca encontrei qualquer ressonância na maioria dos seus temas. Os pontos de vista são sempre muito masculinos e o drama é construído a partir de sequências de grande acção».

As interpretações de MEEK'S CUTOFF, sobretudo Michelle Williams que aqui exibe um absoluto e brilhante show-stealing", têm sido largamente destacadas na colecção de críticas do filme, numa produção que, no seio do cinema independente norte-americano, revela-se "aventureiro, ambíguo e genuíno".

A conferência de imprensa de Kelly Reichardt

Michelle Williams na passadeira vermelha

O cinema asiático também marcou presença, através do mais recente filme do realizador chinês Tsui Hark, DETECTIVE DEE AND THE MYSTERY OF PHANTOM FLAME (Em Competição).



Kung-fu, intriga e atmosferas da Dinastia Tang encheram o grande ecrã da Sala Grande de Veneza, no retrato das investigações do detective Dee para descobrir quem está a ameaçar o poder da Imperatriz Wu Zetian. Uma película emocionante, já que Tsui Hark confessou o seu desejo de «criar um argumento complexo que agarrasse a audiência, especialmente com aquela reviravolta no fim... Não se sabe quem é o assassino até ao último minuto».

A crítica especializada rendeu-se à "excelente coreografia, grandeza visual e atenção ao detalhe" de DETECTIVE DEE, embora não passe "de uma diversão sem grandes consequências".

Tsui Hark acompanhado com as actrizes do seu último filme

Deng Chau, tão dinâmico em Veneza como no filme

A proposta (até agora) mais radical submetida ao júri presidido por Quentin Tarantino chegou do Chile. Trata-se de POST MORTEM (Em Competição), assinado por Pablo Larraín.



Recriando a autópsia do Presidente Salvador Allende após o golpe militar encabeçado por Augusto Pinochet em 1973, contrasta factos históricos com a narrativa de dois estrangeiros que se vêm envolvidos naqueles acontecimentos políticos e sociais. A exposição cientificamente detalhada da autópsia — até o cérebro despedaçado do falecido Presidente é-nos mostrado — constituiu o tema mais sensível do dia. Larraín, com imensa serenidade, salientou que «se lermos o relatório da autópsia, a qual é pública e facilmente encontrada na Internet, encontraremos um documento muito poderoso. É a autópsia do Chile».

Na imprensa, todos são unânimes em afirmar que a mensagem política de POST MORTEM é claramente apreendida, mesmo para os que desconhecem a História do Chile. E, em termos artísticos, trata-se de uma obra que "na sua dimensão trágica, é cinema arrebatador e provocativo no seu melhor".

Antonia Zegers e Alfredo Castro, os protagonistas

Realizador e actriz de POST MORTEM — o pai da criança é o próprio Pablo Larraín

Destaque final para o novo filme de Gabriele Salvatores, um documentário intitulado 1960 (fora de Competição) sobre o fenómeno da emigração italiana naquela década do século XX.

Salvatores saúda os fotógrafos em Veneza

Imagens retiradas de: Site Oficial do Festival, AFP, Just Jared e Associated Press.

segunda-feira, junho 21, 2010

Festival de Xangai 2010 — Os Vencedores



Foram anunciados, ontem, os galardoados do 13º Festival Internacional de Xangai.



BACIAMI ANCORA, de Gabriele Muccino, foi considerado pelo júri (presidido por John Woo) como Melhor Filme, somando, ainda, prémios para Melhor Actriz e Melhor Argumento.

A lista dos vencedores foi:

Melhor Filme
BACIAMI ANCORA (Itália)

Gabriele Muccino

Grande Prémio do Júri
DEEP IN THE CLOUDS (China)

Liu Jie celebra os dois troféus que arrecadou

Melhor Realizador
Liu Jie, por DEEP IN THE CLOUDS (China)

Melhor Actor
Christian Ulmen, por WEDDING FEVER IN CAMPOBELLO (Alemanha/Itália)

Christian Ulmen

Melhor Actriz
Vittoria Puccini, por BACIAMI ANCORA

Vittoria Puccini

Melhor Argumento
Gabriele Muccino, por BACIAMI ANCORA

A lista completa dos vencedores pode ser consultada aqui.

terça-feira, junho 08, 2010

Festival de Xangai 2010



Prestes a cumprir 13 edições, o Festival Internacional de Xangai é considerado como um dos maiores certames cinematográficos do continente asiático. Palco perfeito para a descoberta e revelação de talentos ocultos, os filmes em competição primam sempre pela diversidade temática e geográfica.

Este ano, entre 12 e 20 de Junho, o júri (presidido por John Woo e composto por nomes como Amos Gitaï, Leos Carax e Zhao Wei) avaliará 16 títulos candidatos ao Golden Goblet.

O Keyzer Soze destaca, de seguida, os principais filmes a concurso:

  • Em Competição


  • . DÉTOUR (Canadá), de Sylvain Guy



    Há mais de vinte e dois anos que Leo Huff trabalha no mesmo escritório, reside com a mesma mulher no mesmo apartamento suburbano decorada com a mesma mobília velha e nutre a mesma rotina diária. Resumindo, a sua vida é um manifesto de monotonia. Este panorama altera-se quando Leo faz-se passar por engenheiro junto de uma comunidade rural, onde conhece Lou, uma rapariga jovem e angustiada, e embarca numa viagem emocional recheada de inesperados contornos.
    Sylvain Guy é um dos realizadores canadianos mais emergentes da actualidade, tendo sido galardoado, em 2005, com o Genie Award (o equivalente no Canadá aos Óscares) de Melhor Argumento por MONICA LA MITRAILLE.

    . BACIAMI ANCORA (Itália), de Gabriele Muccino



    Dez anos depois, Muccino reúne o elenco de O ÚLTIMO BEIJO. Carlo e os seus amigos — tanto os casados como os divorciados, todos procuram conciliar as obrigações familiares com as profissionais — reúnem-se para fortalecer laços, descobrir novas relações e reacender antigas paixões numa busca pelo amor duradouro. Uma homenagem à amizade e amor vitalícios.

    . LA PRIMA COSA BELLA (Itália), de Paolo Virzì



    Bruno Michelucci retorna à estância balnear de Livorno onde, trinta anos antes, uma série de acontecimentos levou-o a romper com todos os seus laços familiares. Sobretudo com a mãe, um espírito inquieto e vibrante, que conseguirá fazer Bruno reconciliar-se com o passado, apesar das novas e surpreendentes descobertas que o momento actual lhe apresenta.
    Paolo Virzì é ainda um nome a descobrir do Cinema Italiano contemporâneo, apesar de já somar presenças de peso nos festivas de Veneza (OVOSODO, 1997) e Locarno (BACI E ABBRACCI, 1999).

    . OCEAN HEAVEN (China), de Xue Xiao-Lu



    Sam Wong cuida do seu filho David, um autista apreciador de natação e que nunca se apercebeu da morte da sua própria mãe. Com enorme carinho e perseverança, Sam faz tudo para cuidar de David, embora saiba que, um dia, não poderá continuar a viver com ele — e esse dia chegará mais cedo do que se espera...
    Um dos argumentistas mais regulares de Chen Kaige, Xue Xiao-Lu estreia-se na realização com um conto moral interpretado por Jet Li, aqui totalmente afastado da imagem internacional que possui como estrela de filmes de acção.

    . ONDINE (Irlanda), de Neil Jordan



    A história de um pescador irlandês (Colin Farrell) que descobre, arrastada pela sua rede de pesca, uma mulher que ele acredita tratar-se de uma sereia.
    Provavelmente o filme mais comercial em competição, assinala o regresso de Neil Jordan aos dramas fantásticos (lembram-se do onirismo de A COMPANHIA DOS LOBOS?) e a sua estreia no festival asiático de cinema com maior reputação.

    . PAY BACK (Irão), de Tahmineh Milani



    Quatro mulheres, vítimas de diversos problemas sociais, conhecem-se numa prisão. Decididas em obter vingança do jugo masculino que as rodeia, formam um gang criminoso. Após uma série de incidentes, irão perceber que a origem dos seus problemas não está relacionada com a luta entre géneros, mas sim com a ausência de entendimento social...
    Tahmineh Milani é, a par de Samira Makhmalbaf e Mona Zandi, uma das principais cineastas da Nova Vaga Iraniana, cujos filmes — e PAY BACK não é excepção — lidam principalmente com os direitos das mulheres e a Revolução Iraniana de 1979.

    . LA DERNIÈRE FUGUE (Canadá), de Léa Pool



    Os Lévesque reúnem-se para celebrar o Natal. Contudo, a ocasião é assombrada pelo patriarca da família: uma figura habituada a controlar a vida de todos, padece rapidamente ao efeitos debilitantes do síndroma de Parkinson. Prisioneiro no seu próprio corpo, os filhos "estremecem" sempre que leva um pedaço de comida à boca. Como lidar com alguém a quem foram negados todos os prazeres da vida?
    Segunda presença canadiana em competição, Léa Pool possui uma carreira com mais de vinte anos, tendo sido premiada em Berlim (com EMPORTE-MOI, 1999) e motivo de inúmeros tributos e retrospectivas por todo o mundo. O seu estilo cinematográfico emocional ainda está para ser descoberto pelo público português.

    . SALVE GERAL (Brasil), de Sérgio Rezende



    Inspirado em factos verídicos, recorda os ataques terroristas de 2006, em São Paulo, levados a cabo pela organização criminosa Primeiro Comando da Capital contra as autoridades civis da cidade — no que ficou conhecido como o «11 de Setembro Brasileiro» — pelos olhos de Lúcia, uma professora de piano viúva, que atravessa dificuldades financeiras enquanto tenta, desesperadamente, tirar o filho adolescente da prisão.
    Um dos realizadores mais activos na história recente do Cinema Brasileiro, Sérgio Rezende é presença constante em diversos festivais internacionais (o seu filme MAUÁ — O IMPERADOR E O REI esteve em competição na edição de 2000 do Festróia).

    . DESAUTORIZADOS (Colômbia/Peru/Uruguai/Venezuela), de Elia Schneider



    No meio de uma surrealista cidade de Caracas, Elia Schneider embarca numa fantástica viagem rumo à sua própria imaginação, onde um dramaturgo chamado Elias vê-se confrontado com o dilema de escrever uma peça que não o entusiasma ou enfrentar as consequências da sua liberdade artística.
    Com background teatral, Elia Schneider revelou-se ao mundo, em 2004, com PUNTO Y RAIA, uma sátira sobre o absurdo dos cenários de guerra, vencedor de vários prémios internacionais.

    . ZONAD (Irlanda), de John Carney e Kieran Carney



    A chegada de Liam, um toxicodependente que fugiu da clínica de desintoxicação onde estava internado, a uma pequena cidade irlandesa coincide com o avistamento de um raro cometa. O espanto causado pelo fenómeno faz com que a comunidade local veja Liam como um extraterrestre de outra galáxia.
    Oriundos da televisão irlandesa, os irmãos John e Kieran Carney assinalam, com esta comédia politicamente incorrecta, a sua estreia no grande ecrã. Escusado será dizer que ZONAD, pela sua sinopse, revela-se como uma das propostas mais sui generis da presente edição.

    A lista completa dos filmes Em Selecção pode ser consultada aqui.

    sábado, maio 15, 2010

    Festival de Cannes 2010 — Dia 3



    O grande destaque deste terceiro dia de Festival vai para a ante-estreia mundial de WALL STREET: MONEY NEVER SLEEPS, ou o regresso do apologista da ganância Gordon Gekko (Michael Douglas) ao mundo da alta finança e do puro insider trading:



    Na conferência de imprensa, Oliver Stone confessou ter-se apercebido da coincidência entre a estreia do filme e o incremento da convulsão económica europeia das últimas horas, ao mesmo tempo que partilhou a sua visão acerca do capitalismo. «Não sei se funciona. Em 1987, quando fiz o primeiro WALL STREET, pensei que as coisas iriam melhorar, mas vinte anos depois provou-se o contrário. Hoje, os únicos que realmente enriquecem são os directores das grandes empresas».

    Michael Douglas/Gordon Gekko saúda os fotógrafos

    Oliver Stone durante a conferência de imprensa

    Mas a jornada ficou, indelevelmente, marcada pelo cinema asiático: em competição pela Palma de Ouro, Im Sangsoo apresentou THE HOUSEMAID, conto moral sobre o eterno choque de gerações e uma obra dedicada à análise da sociedade sul-coreana dos últimos cinquenta anos.



    Hideo Nakata, nome proeminente da nova geração de cineastas nipónicos, prossegue a sua experimentação do terror enquanto género com CHATROOM (presente na secção «Un Certain Regard»); uma história sobre cinco adolescentes que conhecem o lado negro da Internet do modo mais impressionante. Por causa desta tecnologia, sentimos «ansiedade, medo, desejo, ódio e raiva. Algumas pessoas até são compelidas a cometer suicídio ou a assassinar inocentes», conforme partilhou o realizador durante a conferência de imprensa.

    O jovem (e ocidental) elenco de CHATROOM acenam aos fotógrafos

    O realce final de hoje vai para a nova obra do romeno Cristi Puiu. AURORA (secção «Un Certain Regard»), a semi-sequela de A MORTE DO SR. LAZARESCU (premiado no Festival de Cannes de 2005) num conjunto de filmes que o cineasta denomina como «uma ambiciosa saga dedicada a Bucareste».



    sexta-feira, março 26, 2010

    THIRST — ESTE É O MEU SANGUE... (2009), de Chan-wook Park



    Admito que é árduo observar e analisar cinema asiático. Trata-se de uma opinião partilhada por outros, sobretudo aqueles que se sentiram devastados com as filmografias de Takashi Miike (AUDITION) e Tsai Ming-liang (O SABOR DA MELANCIA), duas obras que "massacraram" audiências de festivais internacionais e espectadores incautos. As sensibilidades orientais encontram, portanto, um eco favorável reduzido na Europa e América do Norte, dificultando a comercialização de filmes oriundos da Ásia Oriental nesses contextos geográficos.

    A excepção encontra-se na carreira do sul-coreano Chan-wook Park, provavelmente o cineasta asiático mais internacional da actualidade. Quentin Tarantino venera-o — ao ponto de (segundo abundantes rumores) ter feito um imenso lobbying, enquanto Presidente do Júri no Festival de Cannes em 2004, para que OLDBOY — VELHO AMIGO fosse galardoado com a Palma de Ouro —, os seus filmes têm conhecido diversas projecções nas salas e cineclubes europeus e a crítica é unânime em elogios.



    A contribuir para a adesão pública ao estilo de Chan-wook Park, pesa sobremaneira os temas que explana, sobretudo na apelidada «Trilogia da Vingança», composta do referido OLDBOY e pelos narrativa e visualmente tocantes SYMPATHY FOR MR. VENGEANCE e SYMPATHY FOR LADY VENGEANCE.

    Agora, e depois da "Vingança", parece que Chan-wook Park concentra esforços na investigação dos desafios da "Fé", extrapolando essa temática com a história vampírica de THIRST — ESTE É O MEU SANGUE..., parcialmente adaptado do romance 'Thérèse Raquin' de Emile Zola, vencedor do Prémio do Júri no último Festival de Cannes e recentemente galardoado na secção «Orient Express» do FantasPorto 2010.



    Sang-hyun (Song Kang-ho) é um padre católico dedicado ao voluntariado em hospitais e imensamente admirado pela extrema devoção a este misericordioso trabalho. Contudo, a dúvida e a tristeza dominam a sua existência e, numa derradeira prova de fé, oferece-se como cobaia para um revolucionário e embrionário tratamento contra o denominado vírus «Emmanuel». A experiência fracassa, causando o aparente falecimento de Sang-hyun. Após a administração de uma transfusão sanguínea durante a sua reanimação, o padre demonstra uma fulgurante convalescença, mas com peculiares efeitos secundários: Sang-hyun vê-se transformado num vampiro.

    Na posse das faculdades desta "estranha forma de vida", o protagonista trava conhecimento com a jovem Tae-ju (Kim Ok-bin), um manifesto de frustração e desespero pela realidade em que está inserida: presa a um casamento de circunstância e constantemente agredida, física e verbalmente, pela sogra. Os dois iniciam um caso amoroso que culminará na transformação, embora Sang-hyun demonstre reticência, de Tae-ju em vampira. O conflito entre o casal residirá, a partir daquele momento, na réstia de humanidade que Sang-hyun ainda exibe e no desprendimento de remorsos demonstrado por Tae-ju, quando esta se apercebe das potencialidades que a sua nova condição permite.



    Poder-se-ia afirmar que o cinema oriental também não resistiu em alinhar à recente moda do vampiro na Sétima Arte. Todavia, THIRST não confere proeminência à natureza predatória desta criatura mitológica, mas sim às emoções genuinamente humanas quando confrontadas com situações extremas — mesmo que demonstradas por "mortos-vivos". É certo que testemunhamos sangue, pescoços mordidos e uma eficiente atmosfera de terror — afinal de contas, o filme de vampiros tem de respeitar certos "dogmas".

    THIRST possui, também, uma interessante composição técnica: os efeitos especiais estão infundidos de um subtil e delicioso realismo (permitam-me este aparte quase cliché mas, nesta categoria, bate aos pontos o que a saga CREPÚSCULO tem apresentado) e a direcção de fotografia (em algumas sequências, um verdadeiro showcase na "arte" de dominar o branco fluorescente) é arrebatadora e cativante.



    Por fim, THIRST encerra um interessante díptico no que a audiências diz respeito. Para os fãs de Chan-wook Park, é capaz de revelar-se desapontante pela ausência da violência surrealista que caracterizava os seus anteriores filmes mas, simultaneamente, é um título indicado para os "iniciados" deste cineasta. E embora o argumento não seja plenamente coeso (algumas quebras de ritmo, sub-plots pouco relevantes), para além de que nunca marcará a história do Cinema, estamos perante um singular conto moral sobre dramas mundanos que se afigura como a melhor revitalização do género nos últimos anos e merecedor da nossa (e da vossa) atenção.

    sexta-feira, junho 05, 2009

    OKURIBITO [Departures] (2008), de Yôjirô Takita



    Existe toda uma miríade de razões para considerar este DEPARTURES como um dos filmes asiáticos mais interessantes dos últimos anos — é japonês, mas não bebe qualquer inspiração aos "clássicos" Akira Kurosawa ou Yasujiro Ozu nem à recente vaga do 'J-Horror' que tanto sucesso conhece internacionalmente; também não está demasiado "ocidentalizado", já que a sua história e cenários retratam quotidianos que tocarão mais profundamente aos nipónicos do que a qualquer outra cultura; e, por fim, foi galardoado como Melhor Filme Estrangeiro na mais recente edição dos Óscares, destronando os favoritos A VALSA COM BASHIR, de Ari Folman, e A TURMA, de Laurent Cantet.

    DEPARTURES será, hipoteticamente, o precursor daquilo que apelido de "Cinema Mundial", ou seja, um filme que respeita tradições e/ou crenças do seu país de origem mas cuja mensagem é compreendida pelo mais variado tipo de espectador com um acolhimento crítico e comercial a condizer. O excelente equilíbrio entre o drama emocional e a comédia de costumes aqui patenteado não significa inovação narrativa, porque até são visíveis traços da filosofia humorística de Woody Allen ou da frontalidade humana de Pedro Almodóvar. É o seu contexto de produção, numa época em que o Japão aposta na exportação de Cinema com os seus mais lucrativos anime e filmes de terror, que realmente surpreende.



    Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um violoncelista desempregado após a dissolução da orquestra onde actuava, decide abandonar Tóquio e regressar, juntamente com a sua esposa Mika (Ryoko Hirosue), à sua terra natal, uma pequena localidade chamada Sakata. Aí, candidata-se a um emprego, anunciado no jornal local, no qual a empresa NK Agency solicita um "Assistente de Partidas". Pensando tratar-se de uma agência de viagens, Daigo só percebe, durante a entrevista, que a NK Agency é, na realidade, uma empresa dedicada ao metódico ritual do nokan, que consiste em lavar, vestir, maquilhar e acondicionar recém-falecidos antes do seu funeral.

    Sem qualquer perspectiva de emprego à vista e perante a digna oferta salarial que lhe é apresentada, Daigo aceita o emprego, aprendendo com Shōei Sasaki (uma fabulosa interpretação de Tsutomu Yamazaki), gerente da NK Agency, as características da actividade. Apesar de proporcionar conforto e alegria aos familiares dos falecidos, Daigo demora em assumir a nobreza da sua nova profissão, escondendo o facto à própria esposa e lidando com a animosidade de alguns habitantes de Sakata. A sua paz interior, e com aqueles que o rodeiam, apenas surge quando recebe notícias da morte de um parente próximo...



    O seu título, DEPARTURES (numa tradução livre, significará algo como "partidas" ou "despedidas"), remete-nos logo para o tema da separação, tanto material como espiritual. A perda está presente em cada frame, é um facto, mas tal não o transforma num filme mórbido, lacrimal ou depressivo. Bem pelo contrário, a sua (chamemos-lhe assim) moral procura uma reflexão humanista e predominantemente positiva, que chega mesmo a ser veiculada numa linha de diálogo: «A vida, embora melancólica, é digna de ser saboreada».

    A vida e, permitam-me o acréscimo, este filme também. Porque constitui a melhor experiência cinematográfica que "saboreei" nos últimos meses.

    domingo, maio 24, 2009

    Festival de Cannes 2009 — Dia 11



    MAP OF THE SOUNDS OF TOKYO, presente na selecção oficial do Festival, assinala a estreia da realizadora espanhola Isabel Coixet em Cannes. O filme, protagonizado por Sergi López e Rinko Kikuchi, narra a vida dupla de Ryu, uma rapariga solitária que trabalha num mercado de peixe de Tóquio e que aceita, esporadicamente, uns biscates como assassina profissional. Esta existência é-nos apresentada pelos olhos de um técnico de som, fascinado por Ryu e pelas sonâncias da metrópole japonesa.



    Coixet confessou aos jornalistas o seu amor por Tóquio e pela Sétima Arte, mas o público e a crítica na Côte D'Azur não demonstrou sentimentos recíprocos. A recepção a MAP OF THE SOUNDS OF TOKYO foi extremamente morna, e são poucos os que acreditam no seu sucesso aquando das decisões finais. Questionada acerca desse seu fascínio pela cultura nipónica, a realizadora afirmou que «na primeira vez que visitei o Japão, há cerca de 15 anos atrás, senti-me muito em casa.» E o seu significado também ficou expresso na conferência de imprensa: «Estou mais interessada em explorar as semelhanças culturais do que as diferenças».

    Rinko Kikuchi cumprimenta Sergi López de forma original

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    Tsai Ming-Liang, cineasta nativo da Malásia, concorre pela terceira vez à Palma de Ouro com VISAGE, a história de um realizador chinês que se desloca a Paris para filmar, no Louvre, a mitologia da figura bíblica Salomé.



    De facto, não se pode afirmar que o último dia de projecções será memorável. VISAGE não foi recebido calorosamente (mais uma vez, verificou-se o 'fenómeno' das saídas extemporâneas a meio do filme) e a crítica refere, com insistência, a preferência de Ming-Liang pelo visual atraente em detrimento de um bom argumento ou desenvolvimento das personagens. «[No Louvre] descobri o quadro de São João Baptista, por Leonardo Da Vinci, e fiquei emocionado, assombrado mesmo», afirmou o realizador na conferência de imprensa, explicando a origem do projecto. «Esta descoberta levou-me à exploração da personagem de Salomé».

    Laetitia Casta, a musa de Tsai Ming-Liang em VISAGE

    NB: amanhã, último dia do Festival e das grandes decisões...