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quinta-feira, maio 31, 2012

Agenda Cinematográfica

:: ESPAÇO NIMAS ::

CICLO: Lisboa - A Cidade no Cinema



O Espaço Nimas, incontornável na cultura cinéfila da cidade de Lisboa, tem primado pela abertura das suas portas a novas iniciativas e programações, fomentando uma relação criativa e permanente com o quotidiano da cidade. Desta vez, o Espaço Nimas associa-se às FESTAS DE LISBOA 2012 para uma programação especial que destaca o apelo cinematográfico que a capital portuguesa exerceu ao longo dos anos junto dos realizadores nacionais e internacionais.

Percorrendo filmes de autores como José Fonseca e Costa, João César Monteiro, Fernando Lopes, Alain Tanner, Raúl Ruiz ou Wim Wenders, este ciclo imperdível inicia-se a 1 de Junho e prolonga-se durante três fins-de-semana até 17 de Junho.

Detalhes da programação aqui.

sexta-feira, maio 11, 2012

Dia Internacional do Público e do Cineclubismo



[Texto da intervenção proferida ontem à noite, no 9500 Cineclube de Ponta Delgada, a propósito da homenagem (com exibição de EM CÂMARA LENTA, o seu último filme) prestada ao cineasta Fernando Lopes no Dia Internacional do Público e do Cineclubismo.]

O 9500 Cineclube assinala o Dia Internacional do Público e do Cineclubismo com a exibição do filme EM CÂMARA LENTA, a última obra do cineasta Fernando Lopes, recentemente falecido, e cuja marca permanente na História moderna do cinema português é assim homenageada.

O percurso e o nome de Fernando Lopes estão indelevelmente ligados ao movimento que ficou conhecido como Novo Cinema Português. Todavia, e se me é permitida a ousadia histórica, diria mesmo que Lopes foi o seu principal e mais influente representante. Passo a explicar.

As suas obras anteriores ao 25 de Abril de 1974 demonstram uma absoluta e radical rejeição formal e temática ao cinema patrocinado pelo Estado Novo como nenhum filme havia feito até àquela altura.

DOM ROBERTO (1962, Ernesto de Sousa) ou OS VERDES ANOS (1963, Paulo Rocha) são comummente considerados os percursores do Novo Cinema. No entanto, sou tentado a apontar BELARMINO (1964) como o filme que realmente alterou o paradigma — nos seus propósitos estéticos, nas suas motivações morais, na experiência total que conjuga, assistiu-se a uma reinvenção e desconstrução cinematográficas sem paralelo na história da cinematografia portuguesa.

Desconstrução... Eis uma palavra que resumiria, quase na perfeição, o trabalho de Fernando Lopes. Mas a súmula dos assuntos abordados pelo cineasta são tão ou mais interessantes quanto a análise formal da sua carreira.

Atentando aos três filmes que, de forma mais cativante, reuniram essas duas perspectivas — BELARMINO, UMA ABELHA NA CHUVA (1971) e MATAR SAUDADES (1988) — é possível deferir que Fernando Lopes foi um "cineasta de memórias".

BELARMINO alia o olhar documental a uma estética de cinema directo para salientar episódios de vida de um boxeur e engraxador de sapatos lisboeta. A glória passada de Belarmino Fragoso é constantemente invocada — memórias estilhaçadas e exploradas pelo vil dinheiro — e o protagonista deste documentário (é preciso não esquecer que o filme é uma exposição de realidade) apresenta-se aos nossos olhos quase como o anti-herói de uma ficção trágica.

A exploração da memória humana converte-se em experiência sensorial para o espectador em UMA ABELHA NA CHUVA, certamente um dos grandes filmes produzidos no nosso país.

A temporalidade de UMA ABELHA NA CHUVA é definida pela ausência de linearidade narrativa, por assincronias, nas sobreposições paralelas de imagens, sons e acções. E o tempo indefinido em que se situa o filme é quase análogo ao nosso próprio processo de memorização — aqui, torna-se significativa a relação entre momentos, imagens, sinais, visões, locais, sons, palavras, consequências. Ou, como escreveu Leonor Areal, «tudo aquilo que é a matéria do cinema e que a memória trabalha livremente»1.

O confronto entre traumas de um passado colonial bélico e a mudança de valores de um país em construção democrática dominam o argumento de MATAR SAUDADES. Por outras palavras, estamos novamente perante a contenda entre a opaca substância da memória e a áspera feição da realidade.

Não será por acaso que a sequência-chave de MATAR SAUDADES é aquela em que o protagonista, intepretado por Rogério Samora, invoca junto do irmão mais novo os acontecimentos em torno da morte trágica do pai de ambos. Nenhum espectador conseguirá fugir ao seu rigor formal, às palavras debitadas com amargura, a todas as emoções ali reunidas...

Do filme que vamos ver esta noite, apenas conheço o trailer. Mas nos seus singelos dois minutos de duração, é possível entender que Fernando Lopes assumiu o estatuto de "cineasta de memórias" bem até ao fim. Naquela peça promocional, a personagem de João Reis traceja de memória, e num bloco de notas, uma série de relações interpessoais.

É o tal exercício de invocação do passado, sempre presente...

O cinema de Fernando Lopes não era alegre. Os "fracassos" estéticos de NÓS POR CÁ TODOS BEM (1978) e CRÓNICA DOS BONS MALANDROS (1984), provam-no de certo modo2. Contudo, todos os que, a propósito do seu falecimento, recordaram o cineasta, falam de um indivíduo sincero, emocional, de charme contagioso.

Tanto por isso, e pelo conjunto da sua obra, não existe cineasta mais influente para o cinema português contemporâneo como Fernando Lopes. Se, agora, se premeiam abundantemente "sangues do nosso sangue", "tabus" e "rafas", tal deve-se em grande medida ao legado de Fernando Lopes.

Termino esta intervenção com as palavras do realizador Fernando Matos Silva: «Aquilo que um espectador espera dos nossos filmes é que aconteça uma verdade contagiante que os leve a pensar e a viver. E isso acontece no cinema de Fernando Lopes. Podemos jogar na vida como no cinema, com a condição de sermos sinceros. Sem ideias, o cinema não existe. É essa a mensagem de Fernando Lopes, para todos nós. Compreendermos que o cinema existe por todo o lado, à nossa volta, e que fazer filmes é também vivê-los. E a vida continua, e os filmes também.»3

Samuel Andrade.

Notas:
. 1 in CINEMA PORTUGUÊS: UM PAÍS IMAGINADO VOL. 1 — ANTES DE 1974, 2011, Edições 70.
. 2 in FERNANDO LOPES POR CÁ, capítulo FERDINAND por Seixas Santos, p. 16, 1996, Edição Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema.
. 3 in FERNANDO LOPES POR CÁ, capítulo A CIDADE-REFÚGIO por Fernando Matos Silva, p. 19, 1996, Edição Cinemateca Portuguesa — Museu do Cinema.

quinta-feira, maio 10, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

Hoje, dia 10 de Maio, celebra-se o Dia Internacional do Público e do Cineclubismo.

O 9500 Cineclube não podia alhear-se da data que celebra os dois aspectos mais importantes do cinema: um público e um filme. Sem um, o outro não faria sentido.

É uma verdade que se aplica tanto a uma sala comercial como a uma projecção particular ou a um cineclube. A importância da celebração baseia-se no que há de particular neste meio de estar e mostrar cinema, o cineclube, e o seu particular dinamismo através da interacção com o seu público.

O movimento cineclubista nasceu em França nos anos 20 do passado século e aos poucos foi-se espalhando por todo o lado em que existisse um público disposto a olhar para mais longe que a distribuição comercial permitia. O caso português é paradigmático. Hipólito de Carvalho funda o Cine-clube do Porto, em 1945, que servirá de modelo para os posteriores cineclubes. Contudo, o grande nome do cineclubismo português foi o de Ernesto de Sousa, homem de múltiplos talentos, a cuja acção tanto deve o chamado novo cinema português que nos anos 60 começa a tomar forma.

O cineclube mostra cinema, promove, discute, debate, publica, ensina e aprende, serve de resistência a uma ditadura avessa a tudo o que fosse novo e lhe fugisse da alçada estranguladora. Hoje, felizmente, os cineclubes já não são objecto da polícia política mas continuam a ter um papel relevante na dinamização cultural. Bem-hajam.

O filme escolhido para a comemoração é um filme-homenagem a um dos grandes criadores portugueses, Fernando Lopes, que morreu no passado dia 2, facto que não queríamos deixar de assinalar. Também a sua experiência no cinema começa no encontro com o cineclubismo e sua marca notável para o cinema português está em filmes como BELARMINO e UMA ABELHA NA CHUVA, entre outros. Mas não se deve reduzir a sua notável presença apenas ao cinema. Na RTP 2 criou um verdadeiro canal alternativo que o poder tratou de destruir. É de realçar ainda o seu papel como professor na Escola Superior de Cinema.

O Keyzer Soze terá o prazer de fazer uma breve apresentação ao filme, recordando os títulos e os temas que preencheram a rica carreira deste cineasta português.

Fernando Lopes para sempre!

EM CÂMARA LENTA (2012), de Fernando Lopes



Um longo mergulho no mar transforma-se numa intensa travessia pela vida de Santiago e pelas suas relações. A paixão por Constança. O casamento com Laurence. A cumplicidade do amigo Salvador. O filme do realizador Fernando Lopes abre-nos a porta para uma intrincada teia de relacionamentos. Ao inevitável "quem eu sou?", as personagens de EM CÂMARA LENTA respondem com "não sei quem tu és."



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

quarta-feira, maio 02, 2012

Fernando Lopes (1935 — 2012)



"Sou um cineasta improvável."

Nome cimeiro do Cinema Novo Português, Fernando Lopes assinou um dos percursos mais notáveis na cinematografia nacional como realizador de BELARMINO (1964), o (ainda hoje!) impressionante e sufocante UMA ABELHA NA CHUVA (1971), NÓS POR CÁ TODOS BEM (1978), CRÓNICA DOS BONS MALANDROS (1984) e O DELFIM (2002).

Faleceu hoje, em Lisboa, vítima de doença prolongada.

[Foto: Ângela Camila Castelo-Branco.]