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sexta-feira, maio 24, 2013

O Cinema dos Anos 2000: American Splendor, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini




Antes de os blogs e as redes sociais divagarem acerca das mágoas da Humanidade, já Harvey Pekar resmungava sozinho, em forma de crónica desenhada, sobre os incómodos proporcionados por colegas de trabalho, velhinhas nas filas para as caixas dos supermercados e as mulheres que nunca se apaixonaram por ele numa série de graphic novels intituladas 'American Splendor'. Com a colaboração de artistas firmados como Robert Crumb, Greg Budgett e Gerry Shamray, Pekar transformou amigos, namoradas e esposas em personagens maçadoras e indesejáveis. E quando as suas histórias, infundidas de tragédia e fatalismo, começaram a captar as atenções, ele decidiu colocar a sua fama modesta — e o pouco dinheiro que auferiu da mesma — no centro das suas narrativas.

Da mesma forma, AMERICAN SPLENDOR adapta convincentemente, do papel para o grande ecrã, toda a metaficção patente neste universo, onde a realidade e a imaginação entrecruzam-se no ataque cerrado ao american way of life que não se revela tão transcendental e sofisticado — e as graphic novels de Harvey Pekar eram tudo menos visualmente primorosas — como muito do cinema ou da publicidade quiseram revelar.

Esse pessimismo está profundamente encerrado na visão do mundo promovida pelo protagonista do filme, numa estrutura original que agrupa o biopic documental (os realizadores, Shari Springer Berman e Robert Pulcini, recorrem a imagens de arquivo para a exposição de algum do percurso profissional de Pekar) com banda desenhada e monólogo teatral, adornado pelo fulgurante protagonismo de Paul Giamatti — o actor desaparece na colecção de maneirismos da figura aqui invocada, capaz de heroicizar, paradoxalmente, este genuíno anti-herói com uma das personalidades mais irritáveis e desconcertantes do panorama artístico norte-americano dos anos 70 e 80.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Paul Giamatti (Harvey Pekar), Hope Davis (Joyce Brabner), Judah Friedlander (Toby Radloff), James Urbaniak (Robert Crumb), Harvey Pekar (o próprio), Joyce Brabner (a própria), Toby Radloff (o próprio), Josh Hutcherson (Robin)


Palmarés
. Festival de Cannes: Prémio FIPRESCI — Un Certain Regard (Shari Springer Berman, Robert Pulcini)
. Festival de Sundance: Grande Prémio do Júri — Drama (Shari Springer Berman, Robert Pulcini)
. Festival Internacional de Toronto: Melhor Primeiro Filme (Shari Springer Berman, Robert Pulcini)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actor Estrangeiro (Paul Giamatti)
. National Board of Review: Melhor Revelação — Actor (Paul Giamatti), Menção Honrosa
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Filme, Melhor Argumento (Shari Springer Berman, Robert Pulcini)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Filme, Melhor Actriz (Hope Davis)
. Writers Guild of America: Melhor Argumento Adaptado (Shari Springer Berman, Robert Pulcini)



quinta-feira, maio 23, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Mystic River, de Clint Eastwood




A cidade como que vive e sobrevive na sua quietude e paciência eternas. As pessoas caminham e se cruzam entre si, preenchendo as ruas, o espaço e os vazios da temporalidade. Na sombra está o rio, o Mystic, que corre sem pressas e sem problemas, sistematicamente, qual cenário belo e fixo. Contempla calmamente o panorama citadino e a vida dos intervenientes da sociedade em que se envolve. Circulando e assistindo ao dia-a-dia, o rio é, porventura, a única testemunha de algumas situações e acontecimentos graves ou preponderantes na charneira que por vezes se desenha à sua frente, incauta e despropositadamente. O rio sabe os segredos mais obscuros, mais esquecidos, e portanto, sabe quase sempre mais que nós, transeuntes e meros peões numa malha que por si só se perde e se emaranha na complexidade da vida.

É neste cenário e sobre este prisma que a história deste filme se desenrola. Divide-se, desde logo, em duas — a primeira, na infância e na inocência própria desta fase. As brincadeiras são muitas, as traquinices ainda mais, e, logo, não será de estranhar que um mero encontro despoletará a mais vil recordação e, infelizmente, a fractura decisiva. Acaso ou não, a situação mudará para sempre a vida dos três amigos, os três protagonistas do filme, à data parceiros inseparáveis. Na segunda parte da história, e transportados anos mais tarde, constatamos que a amizade antes inquebrável se situa agora no limiar entre a memória e o simples reconhecimento. A vida concede voltas, e o seu curso toma direcções díspares, pelo que os três amigos, ainda que vivendo sob o mesmo tecto urbano, assumem posturas e profissões sociais distintas. Os cruzamentos pelo bairro e pela vizinhança revelam apenas e só lembranças e (des)apreço mútuo. A reter, por isso, estará nesta fase, e inequivocamente, a família e o quotidiano que se adensa, pelo que a infância reflecte única e exclusivamente uma nostalgia do passado, vivido sob a alçada do bairro e do rio transversalmente atento.

Entretanto, outro acontecimento se dá, e, uma vez mais, o Mystic é testemunha. Evocando certas memórias, é a partir deste ponto que começará então o mistério e o drama profundamente enraizados e escondidos de há muito. A suspeita, o medo e a incerteza modelam o espaço e, sobretudo, o subconsciente. Como se aquele fatídico dia e o acontecimento consequente nunca pudesse cair no total e absoluto esquecimento. De facto, é evidente, certos traumas permanecem e se demarcam, definindo e construindo identidades e amizades socialmente precipitadas, ao ponto de a confiança dar lugar à acusação e ao desrespeito quando é conveniente. É triste, mas no fim de contas verdadeiro e humano, por mais atroz e cruel que isso possa parecer.

No fundo, três amigos, três adultos e três casais formam a estrutura e a evolução do próprio filme (e da própria vida), sem retorno e sem emenda. Particularmente, determinam a história e o drama presente, que entrelaçado na vivência e na actividade de cada um se desenhará segundo os contornos da personalidade e da crença individuais. Nada resiste à mudança e ao tempo, pelo que o crescimento é inevitável, no bom e no mau sentido, e o que antes era duvidoso e desconfortável, agora pode-se revelar certo e determinante. Ou não, quem sabe?! Aqui, apenas o rio, o Mystic, que é o elo entre as recordações e os acontecimentos presentes, é como que a metáfora das alegrias e das mágoas, as quais aparente e temporariamente ficam submersas, mas que face a actuais tragédias regressam à margem e à superfície com uma brutalidade e crueldade inesperadas. Resta o discernimento, a ponderação e a calma, tão difíceis nestes momentos.

Clint Eastwood, apoiado por uma excelente fotografia e por uma grande banda-sonora, filma o drama numa cadência sombria e policial, e com uma contenção e uma intensidade notáveis. Retrata e explora tanto as nuances psicológicas dos seus personagens, quanto a normalidade e a frieza do quotidiano de um bairro, onde todos se conhecem e onde todos estão, intimamente, prontos a apontar o dedo. Travellings sobre o rio acentuam a sua tal presença assídua, os planos fixos, sinceros e solidários com o argumento demonstram uma opção certa, tal como ainda os ligeiros movimentos de câmera denunciam particulares sequências e momentos fracturantes. A título de exemplo, a cena da revelação da morte de uma personagem e da consequente tomada de conhecimento paternal é tremendamente reveladora deste aspecto. Arrepiante. Grande cena, e a propósito, grande Sean Penn.

MYSTIC RIVER se assume assim, qual rio profundo, como um dos mais ocultos e intensos dramas da década transacta. De emoções fortes e com uma densidade e profundidade destacáveis, é nas personagens, as tais seis pessoas (em sublimes interpretações), que verdadeiramente se define, ainda que, e sempre, a contenção e a respiração que Eastwood é capaz de sustentar o abrilhante ainda mais. Por tudo isto, resta-nos somente mergulhar na realidade, por mais cinzenta e violenta que ela seja.

por Jorge Teixeira (Caminho Largo).

Elenco
. Sean Penn (Jimmy Markum), Tim Robbins (Dave Boyle), Kevin Bacon (Detective Sean Devine), Marcia Gay Harden (Celeste Boyle), Laura Linney (Annabeth Markum), Laurence Fishburne (Detective Sergeant Whitey Powers), Tom Guiry (Brendan Harris), Spencer Treat Clark (Ray Jr. "Silent Ray" Harris), Emmy Rossum (Katie Markum)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Actor (Sean Penn), Melhor Actor Secundário (Tim Robbins)
. Globos de Ouro: Melhor Actor — Drama (Sean Penn), Melhor Actor Secundário (Tim Robbins)
. Césares: Melhor Filme Estrangeiro (Clint Eastwood)
. Festival de Cannes: Prémio Golden Coach (Clint Eastwood)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Filme Estrangeiro (Clint Eastwood)
. Fotogramas de Plata: Melhor Filme Estrangeiro (Clint Eastwood)
. Satellite Awards: Melhor Actor — Drama (Sean Penn), Melhor Argumento Adaptado (Brian Helgeland)
. National Board of Review: Melhor Filme, Melhor Actor (Sean Penn)
. Screen Actors Guild: Melhor Actor Secundário (Tim Robbins)


Sobre Sean Penn

Bad boy, activista social, realizador (O LADO SELVAGEM, 2007) e um dos actores mais proeminentes da sua geração, despontou para as atenções do mundo com o protagonismo em A ÚLTIMA CAMINHADA (1995, Tim Robbins), numa carreira que soma interpretações determinantes para o seu actual estatuto de grande aclamação crítica: PERSEGUIDO PELO PASSADO (1993, de Brian De Palma), A BARREIRA INVISÍVEL (1998, de Terrence Malick), 21 GRAMAS (2003, de Alejandro González Iñárritu) e MILK (2008, de Gus Van Sant, pelo qual recebeu o segundo Oscar da Academia) são alguns dos títulos que o demarcou dos seus pares.



terça-feira, maio 21, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Belleville Rendez-Vous, de Sylvain Chomet




Os primeiros dez minutos de BELLEVILLE RENDEZ-VOUS representam uma das mais belas e originais sequências animadas dos anos 2000: inspirado no estilo de uma curta-metragem de Max Fleischer, três excêntricas idosas cantoras animam um clube nocturno, freneticamente embrenhadas a dançar e a cantar, debruçadas sobre o microfone, um jazz animado pela guitarra de (também representado no desenho) Django Reinhardt. Quando o número musical termina, apercebemo-nos de que assistíamos à animação dentro da animação, através do recuo da "câmara" de Sylvain Chomet, revelando a protagonista, Madame Souza, a observar esta estranha e deliciosa relíquia na televisão.

É com este género de charme que BELLEVILLE RENDEZ-VOUS encontra os seus maiores encantos e, consequentemente, estatuto de visualização obrigatória. Embora o desenvolvimento das personagens e da narrativa não sejam pontos fortes devidamente estabelecidos, o traço de Chomet é contagiante na concepção desta quase onírica atmosfera, de um tempo — e respectivo progresso — balizado mas nunca estático, do ritmo e da peculiar alegria de uma história sobre a Volta à França, velhinhas mal-humoradas e um enorme cão.

Provando tratar-se de um dos realizadores de cinema de animação mais completos da actualidade — capaz, até, de adaptar a estes meandros um argumento de Jacques Tati nunca filmado, lançado em 2010 com o título O MÁGICO —, Sylvain Chomet reverencia e testa os limites da animação convencional, convertendo BELLEVILLE RENDEZ-VOUS num ousado feito cinematográfico, simultaneamente moderno e tradicional.

por Samuel Andrade.

Elenco (vozes)
. Lina Boudreau (Rose Triplette), Mari-Lou Gauthier (Violette Triplette), Michèle Caucheteux (Blanche Triplette), Béatrice Bonifassi ( as Triplettes), Jean-Claude Donda (Comentador desportivo), Michel Robin (Champion)


Palmarés
. Césares: Melhor Banda Sonora (Benoît Charest)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Filme Animado
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Filme Animado, Melhor Banda Sonora (Benoît Charest)



segunda-feira, maio 20, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Lost in Translation — O Amor É um Lugar Estranho, de Sofia Coppola




Realizado por Sofia Coppola, LOST IN TRANSLATION — O AMOR É UM LUGAR ESTRANHO é um filme sobre o encontro de dois estranhos em Tokyo. Bob e Charlotte encontram-se no outro canto do mundo por diferentes motivos, mas partilham inúmeros sentimentos que fazem nascer uma grande amizade daqueles encontros. São os sorrisos, os gestos, toda uma linguagem existente entre os dois, uma cumplicidade existente que nos faz adorar e acompanhar aquela relação. Apesar da grande diferença de idades entre eles, ambos se encontram com as suas vidas completamente paradas. Bob está perdido na cidade, embora já estivesse perdido no seu casamento. Conhece Charlotte, a pequena jovem que também se encontra desiludida com o seu relacionamento.

E Sofia Coppola não se fica pelo relacionamento do par de atores, e mostra-nos a moderna cidade de Tokyo. Juntos vão descobrir uma cultura diferente e viver uma pequena jornada que a pouco e pouco, se vai tornado bem mais do que uma mera amizade. Um filme divertido, cheio de emoção. Um filme que volto sempre várias vezes ao ano, só para rever a descoberta daquele amor. LOST IN TRANSLATION é mais um dos grandes filmes da primeira década.

por João Gonçalves (Modern Times).

Elenco
. Bill Murray (Bob Harris), Scarlett Johansson (Charlotte), Giovanni Ribisi (John), Anna Faris (Kelly), Fumihiro Hayashi (Charlie Brown), Akiko Takeshita (Ms. Kawasaki)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Argumento Original (Sofia Coppola)
. Globos de Ouro: Melhor Filme — Comédia ou Musical, Melhor Actor — Comédia ou Musical (Bill Murray), Melhor Argumento (Sofia Coppola)
. BAFTA: Melhor Actor (Bill Murray), Melhor Actriz (Scarlett Johansson), Melhor Montagem (Sarah Flack)
. Césares: Melhor Filme Estrangeiro (Sofia Coppola)
. Independent Spirit Awards: Melhor Filme, Melhor Realizador (Sofia Coppola), Melhor Actor (Bill Murray), Melhor Argumento (Sofia Coppola)
. Satellite Awards: Melhor Filme — Comédia ou Musical, Melhor Actor — Comédia ou Musical (Bill Murray), Melhor Argumento Original (Sofia Coppola)
. Festival de Veneza: Prémio Lina Mangiacapre (Sofia Coppola), Prémio Upstream — Melhor Actriz (Scarlett Johansson)
. Festival Internacional de Valladolid: Melhor Novo Talento — Realização (Sofia Coppola), Prémio FIPRESCI (Sofia Coppola)
. Festival Internacional de São Paulo: Prémio da Crítica (Sofia Coppola)
. Fotogramas de Plata: Melhor Filme Estrangeiro (Sofia Coppola)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actor Estrangeiro (Bill Murray), Melhor Actriz Estrangeira (Scarlett Johansson)
. National Board of Review: Prémio Especial (Sofia Coppola)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Realizador (Sofia Coppola), Melhor Actor (Bill Murray)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Actor (Bill Murray), Prémio Nova Geração (Sofia Coppola)
. Writers Guild of America: Melhor Argumento Original (Sofia Coppola)


Sobre Sofia Coppola

Herdeira de um dos apelidos mais icónicos da História do Cinema norte-americano, começou como actriz mas o seu talento apenas se tem afirmado na realização. Autora de inegável espírito indie, centrados em protagonistas femininas e com diálogos cativantes, angariou sucesso crítico e público com AS VIRGENS SUICIDAS (1999), MARIE ANTOINETTE (2006) e SOMEWHERE — ALGURES (2010).



sábado, maio 18, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Regresso, de Andrei Zvyagintsev




Depois de uma longa e inexplicável ausência, o pai dos jovens Andrey e Ivan regressa a casa (uma moradia envelhecida e soturna, a qual indica, só por si, os tempos difíceis vividos por esta família), parecendo não querer perder muito tempo em reatar os laços afectivos com a sua prole. O primeiro passo configura-se na viagem que os três empreendem com o propósito de irem pescar. Aos poucos, a alegre perspectiva, para os dois irmãos, de uma experiência emocionante esvanece-se perante o gradual comportamento estranho e agressivo do pai e, tal como a natureza da ilha escolhida para a pescaria, o ambiente entre eles torna-se primal, hostil e violento.

O REGRESSO, impressionante primeira obra de Andrei Zvyagintsev, permite-se à multiplicação de leituras da história, mensagem e sentimentos encerrados no filme. Mas não obstante a interpretação que se lhe quiser conferir, e a importância da figura paterna nesta narrativa, as atenções de O REGRESSO estão focadas em Ivan e Andrey. Mais precisamente, no modo como os jovens reagem, lidam e maturam com uma crise "filial" gerada pela aparição e comportamento do pai, e do desespero advindo de um irrefutável colmatar, com tormenta, desilusão e impetuosidade, ao défice de influência paternal nas suas vidas.

Para os jovens protagonistas (Vladimir Garin e Ivan Dobronravov, em duas magníficas interpretações que vão muito para além de instinto juvenil), a única manifestação evidente do carácter do pai surge perto do fim, num momento de genuíno altruísmo que poderia ser descrito como amor incondicional. Se essa atitude empresta-lhe, ou não, méritos de redenção, eis uma das muitas ambiguidades do filme, favorecendo o convite que nos é endereçado, por Zvyagintsev, para o debate e reflexão, convertendo O REGRESSO num dos filmes europeus mais provocantes dos anos 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Vladimir Garin (Andrei), Ivan Dobronravov (Ivan), Konstantin Lavronenko (Pai), Natalia Vdovina (Mãe)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Revelação do Ano (Andrei Zvyagintsev)
. Festival de Veneza: Leão de Ouro (Andrei Zvyagintsev), Prémio SIGNIS (Andrei Zvyagintsev), Prémio 'CinemAvvenire' (Andrei Zvyagintsev), Prémio Luigi De Laurentiis ((Andrei Zvyagintsev, Dmitri Lesnevsky), Prémio Sergio Trasatti (Andrei Zvyagintsev)
. Festival Internacional de Gijón: Prémio Especial do Júri (Andrei Zvyagintsev), Melhor Actor (ex-aequo Vladimir Garin, Konstantin Lavronenko, Ivan Dobronravov), Melhor Argumento (Vladimir Moiseenko, Aleksandr Novototskiy-Vlasov)



O Cinema dos Anos 2000: Twentynine Palms, de Bruno Dumont




Twentynine Palms é uma cidade no interior da Califórnia, perto do parque nacional Joshua Tree, onde os cactos e as dunas se estendem para além do horizonte — um cenário perfeito para o fotógrafo David planear uma sessão futura e viajar com a sua namorada russa. A comunicação entre o casal é, acima de tudo, física, e as cenas de sexo sucedem-se. Não menos explícitos e crus são os atos violentos que abrem caminho pelo filme, de forma repentina e incompreensível.

Bruno Dumont nunca foi um realizador acessível, mas é inegável que tudo o que faz tem uma qualidade visceral e uma quietude que exigem atenção e dão espaço para pensar ao mesmo tempo, o que por si só é louvável. Ainda assim, quando decide deixar o enredo e o diálogo totalmente de lado como em TWENTYNINE PALMS, não é difícil de perceber porque é que divide audiências. O que um filme tão vago e aberto realmente significa é uma incógnita, mas o que se torna fascinante é como Dumont prolonga o silêncio ao ponto de o deserto parecer insidioso, deixando a dúvida sobre se essa ameaça se vai materializar ou não e o quão pessoal a resposta de quem o vir pode ser, na face dessa vastidão de vacuidade.

Como Bresson, sem artifícios, como Antonioni, com planos que continuam para além do que estamos habituados, de tal forma que quase esquecemos que o filme não está a acontecer em tempo real.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Yekaterina Golubeva (Katia), David Wissak (David)


Palmarés
. Festival Internacional de Cinema de Sitges: Menção Honrosa (Bruno Dumont)


Sobre Bruno Dumont

Autor de obras unanimemente classificadas como art films, a carreira de Bruno Dumont tem variado entre o drama realista e o horror psicológico, sem pejo de evidenciar violência extrema ou comportamentos sexuais explícitos, tornando-o num dos principais representantes do denominado Novo Extremismo Francês. Da sua filmografia, destacam-se LA VIE DE JÉSUS (1997), L'HUMANITÉ (1999), FLANDRES (2006) e FORA, SATANÁS (2011).



sexta-feira, maio 17, 2013

O Cinema dos Anos 2000: As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand




Se pudessem, como gostariam de morrer? Talvez como Remy, o protagonista de AS INVASÕES BÁRBARAS que, durante a sua batalha contra um cancro terminal, percebe que tem algo melhor na sua vida do que a medicina — amigos. Sobretudo, aqueles que o seu filho distante contacta (assim como algumas ex-amantes do pai) para transformar os últimos dias de um velho enfermo numa experiência suave e agradável, com a ajuda de bom vinho, boa comida, memórias e heroína pelo meio.

AS INVASÕES BÁRBARAS, peculiar sequela do filme O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO (de 1986, também realizado por Arcand) é uma das obras mais humanistas da última década, mesclando temáticas tão díspares e individualmente complexas como ambição, poder, dinheiro, religião, amizade, amor, felicidade, perdão, remorso e morte com tremenda eficácia. Pois subjacente à história de um moribundo, somos brindados com a irreverente e cínica reflexão sobre o povo Americano, o indiscutível "governante" económico, cultural e científico do mundo, mas cuja tecnologia de ponta não se revela, neste contexto, origem de serenidade pessoal ou alegria comunitária.

O humor e discernimento invulgares de AS INVASÕES BÁRBARAS não servem apenas estes assuntos pertinentes; o plot point do filme será, sempre, a observação de um homem prestes a morrer. Contudo, Denys Arcand evita o cliché do "nobre sofrimento do moribundo" (ou pathos) para concentrar energias na composição de uma obra melancólica, espirituosa, contemplativa e humilde, onde a ternura humana — sobretudo, através das brilhantes interpretações de Rémy Girard e Stéphane Rousseau — encontra lugar privilegiado.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Rémy Girard (Rémy), Stéphane Rousseau (Sébastien), Dorothée Berryman (Louise), Louise Portal (Diane), Marie-Josée Croze (Nathalie), Marina Hands (Gaëlle), Dominique Michel (Dominique)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Filme Estrangeiro (Denys Arcand)
. Prémios da Academia Europeia: Prémio Screen International (Denys Arcand)
. Césares: Melhor Filme, Melhor Realizador (Denys Arcand), Melhor Argumento Original (Denys Arcand)
. Prémios Genie: Melhor Filme, Melhor Realizador (Denys Arcand), Melhor Actor (Rémy Girard), Melhor Actor Secundário (Stéphane Rousseau), Melhor Actriz Secundária (Marie-Josée Croze), Melhor Argumento Original (Denys Arcand)
. Festival de Cannes: Melhor Actriz (Marie-Josée Croze), Melhor Argumento (Denys Arcand)
. Festival Internacional de Toronto: Melhor Filme Canadiano (Denys Arcand)
. Festival Internacional de Valladolid: Prémio do Público (Denys Arcand)
. National Board of Review: Melhor Filme Estrangeiro



sexta-feira, maio 10, 2013

O Cinema dos Anos 2000: História de Duas Irmãs, de Jee-woon Kim




Desde o início é evidente que estamos a assistir a algo que de básico e de fácil não tem nada, antes pelo contrário, estamos na presença de um processo que envolve mistério e suspense em doses extremamente apelativas. Espécie de enigma, que flui e se enleia, passo a passo, sob um claro manto de desconfiança e desconhecimento sobre aquilo que se vê e se vive temerosamente. Nesse sentido, o filme revela-se bastante desafiante não só pela tentativa de resolução do problema presente, mas também pela realização virtuosa e cativante que se movimenta e se conjuga diante de nós, qual jogo do gato e do rato (às escondidas).

Restringindo-nos à narrativa, estamos, antes de mais, perante uma história ou tragédia familiar, em que cada membro deste escasso núcleo detém uma importância vital. Duas irmãs, o pai e a madrasta são as únicas peças em movimento e em relacionamento constante, de tal forma que as cenas parecem repetir-se, aparentemente, pois na verdade essa insistência vai acrescentando e solidificando as empatias e, sobretudo, as divergências. À medida que se avança na rotina, os confrontos vão-se adensando, em particular entre a madrasta e as (inseparáveis) irmãs, que não alcançam tudo o que testemunham, ora de dia em constantes dúvidas e suspeitas, ora de noite sobre terríveis calafrios e adversidades. Facto preponderante e premonitório daquilo que, cada vez mais, se antevê ansiosamente como (in)evitável.

E é por aí que o argumento é explorado, na surpresa e na alternância entre o visível e o oculto, ou entre realidade e imaginação, em que a ameaça não é física e materializável, antes desconhecida e inquietante. No fundo, o que prevalecerá mais? Aquilo que vemos e receamos antever nos sistemáticos episódios? Ou aquilo que não percebemos e não encaixamos no quebra-cabeças que, crescentemente, se formaliza de frente às protagonistas e ao espectador? Questões dúbias e desconfortáveis, não fosse existir uma certa ambiguidade e surrealismo no próprio filme. Sendo o terror o género mais visado, talvez aqui o efeito fantasmagórico até defina melhor as sensações psicológicas, e não explícitas, que gradualmente são transmitidas. O drama é, contudo, também atingido, pelo que se pode dizer que a película tem mais essa exemplar capacidade, a de atravessar diversos géneros e ambientes sempre de um modo contínuo e diluído o quanto baste.

Cada cena é, então, demasiado importante para o domínio e para a compreensão dos acontecimentos passados, ou daquilo que aconteceu e marcou terrivelmente esta família. Numa total desarmonia entre os membros presentes na casa, todos os passos dados são essenciais, daí que Jee-woon Kim assuma cada sequência como se fosse a última, tal a força e a dinâmica imprimidas nos ângulos e movimentos de câmera. Tal como o simbolismo que é assumido, frequentemente, em cada plano, na cor e na luz, quase como se fossem quadros ou pinturas (a fotografia é destacável) que detêm mais códigos que imagem ou visão propriamente dita. A decifração não se dá, portanto, apenas e só no papel ou naquilo que se interpreta narrativamente, mas também tendo em conta o visual ou aquilo que vemos e reinterpretamos dada a posição e a subjectividade da câmera. Resumindo, há como que diversas camadas de representação e dedução que o próprio argumento possui, e sobretudo, sustenta.

HISTÓRIA DE DUAS IRMÃS é, no fim de contas, um parente próximo dos filmes de David Lynch, em que a acção está mais fraccionada que definida ou até estruturada, e em que o factor medo ou o terror, sob uma atmosfera completamente gélida e arrepiante, está bem presente e suportado pela exemplar componente técnica. Se por um lado, é de segredos que o filme vive e subsiste, é, acima de tudo, através do encadeamento deles e da forma como se vão somando (e subtraindo) que o mesmo se torna altamente recomendável. Um exímio exercício formal e narrativo, que acaba por ter na união das duas irmãs a sua verdadeira alma e inteligência.

por Jorge Teixeira (Caminho Largo).

Elenco
Kap-su Kim (Bae Moo-hyeon), Jung-ah Yum (Eun-joo), Su-jeong Lim (Bae Soo-mi), Geun-Young Moon (Bae Soo-yeon)


Palmarés
. FantasPorto: Melhor Filme, Melhor Realizador (Jee-woon Kim), Melhor Actriz (Su-jeong Lim), Prémio Especial do Júri — Secção Oriental Express (Jee-woon Kim)
. Festival de Cinema de Gérardmer: Grande Prémio (Jee-woon Kim), Prémio 13ème Rue (Jee-woon Kim), Prémio da Juventude (Jee-woon Kim)
. Screamfest: Melhor Filme
. Festival Internacional de Cinema Fantástico de Bruxelas: Melhor Actriz (Jung-ah Yum)



quarta-feira, maio 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Vai e Vem, de João César Monteiro




O último filme de João César Monteiro antes da sua morte, e o único por ele realizado nos anos 2000, é um perfeito compêndio de toda a sua carreira. A exibição de um feroz anti-clericalismo, a sensualidade rítmica e sonora da língua portuguesa, a atitude peculiar expressa em exercícios de jocosa pantomima, a veneração romântica e física pela figura da jovem mulher e a observação do estado do mundo através de diálogos repletos de "sabedoria e escárnio popular" são as marcas de um autor, no contexto cinematográfico europeu, sem paralelo, e estão fulgurosamente presentes em VAI E VEM.

Assumindo o corpo e alma de João Vuvu — "descendente directo" do seu alter-ego João de Deus (RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA, A COMÉDIA DE DEUS e AS BODAS DE DEUS são onde se presenciou às suas manifestações anteriores) —, VAI E VEM é uma aparente obra fílmica sem acção nem história lineares. Entre a busca do protagonista pela mulher-a-dias ideal e a sua vivência que parece decorrer, maioritariamente, no interior dos autocarros da Carris, o filme detalha, retirando assim a sua essência, uma série de encontros (alguns deliciosamente surreais) entre João Vuvu e os sucessivos diálogos que empreende com fugazes personagens secundárias. O poder da palavra sobressai ao ritmo do argumento com princípio, meio e fim, na total confluência com o estilo que sempre distinguiu João César Monteiro.

VAI E VEM é, igualmente, um dos "filmes-requiem" mais notáveis da História do Cinema. Sem esconder a percepção, no momento das rodagens, da sua iminente finitude, Monteiro aborda aqui a mortalidade de modo totalmente inusitado — excepto no humor que obtém desse processo. Inesperada será, ainda, a compaixão e ternura desarmantes que demonstra, perto da conclusão do filme, na conversa que troca com um jovem acordeonista:

«Que idade tens?»
«Vou fazer 11 anos.»
«Talvez faças, talvez não; por mim, fazias.»

Reconciliado ou não com a Humanidade, certo é que João César Monteiro não deixou de, até ao fim, fruir todos os prazeres da vida, de arrasar por inteiro o politicamente correcto, de sucumbir às fraquezas do corpo, de alinhar em qualquer gládio verbal. E despede-se do mundo (tal como o longo e estático plano final de VAI E VEM comprova) enfrentando directamente, e olhos nos olhos, o seu próprio espectador.

por Samuel Andrade.

Elenco
. João César Monteiro (João Vuvu), Rita Pereira Marques (Adriana / Urraca), Joaquina Chicau (Custódia), Manuela de Freitas (Fausta), Ligia Soares (Narcisa), José Mora Ramos (Senhor Zé Aniceto), Rita Durão (Jacinta)


Palmarés
. Festival Internacional de São Paulo: Prémio Perspectivas (João César Monteiro)


Sobre João César Monteiro

Uma das figuras mais indeléveis e controversas do Cinema Português, a sua obra, guiada por uma estética arcaica de profundo ateísmo e imaginação simultaneamente cosmopolita e provinciana, tem sido alvo de diversas reflexões com a constante afirmação do estatuto artístico único de João César Monteiro. Da sua filmografia, destacam-se QUEM ESPERA POR SAPATOS DE DEFUNTO MORRE DESCALÇO (1971), SILVESTRE (1982), RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA (1989), A COMÉDIA DE DEUS (1995), AS BODAS DE DEUS (1999) e BRANCA DE NEVE (2000).



segunda-feira, maio 06, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Adeus, Lenine!, de Wolfgang Becker




A análise de contextos e ambiências sócio-culturais da Europa do pós-Segunda Guerra Mundial produziu uma série de propostas cinematográficas que conseguiram detalhar, sobretudo durante os anos 2000 e, por vezes, com enorme grau de sucesso — DOMINGO SANGRENTO (2002, Paul Greengrass), AS VIDAS DOS OUTROS (2006, Florian Henckel von Donnersmarck), O COMPLEXO BAADER MEINHOF (2008, Uli Edel) e IL DIVO — A VIDA ESPECTACULAR DE GIULIO ANDREOTTI (2008, Paolo Sorrentino) surgem como principais exemplos —, a autoridade das mudanças políticas do Velho Continente nos destinos, alegrias e tristezas de milhões de cidadãos. Nesse sentido, ADEUS, LENINE! distingue-se por, num aparente elogio do Comunismo, recordar-nos como amenos ventos de mudança e a reconciliação com o passado são passos necessários perante as turbulências de qualquer período de "transição administrativa".

Essa mudança e reconciliação são encarnadas em Alex, filho de Christiane, uma orgulhosa militante do Partido Socialista Unificado da República Democrática Alemã, que entra em coma pelo desgosto de vê-lo a ser detido como resultado da sua participação num protesto anti-governamental. Entretanto, o Muro de Berlim — e tudo o que aquele "monumento" acarretava — é derrubado. Quando Christiane recupera a consciência, Alex, receoso de que a mãe possa sucumbir com o que, para ela, seria um profundo golpe emocional, decide fingir que nada aconteceu e encena, na sua própria casa, o prosseguimento dos modos de vida anteriores à reunificação da Alemanha. A alegoria, assim como os inúmeros momentos humorísticos causados por esta situação, é tudo menos subtil, sobretudo na contraposição dos benefícios da abertura da RDA a hábitos Ocidentais, do triunfo do Capitalismo e no dilema moral da "realidade simulada" que Alex engendra perante a mãe.

Aos poucos, e enquanto a farsa vai sendo desmascarada — seja pelo enorme outdoor da Coca-Cola afixado mesmo em frente da janela do quarto de Christiane ou no fabuloso plano em que uma estátua deposta de Lenine se atravessa (literalmente) no seu caminho —, o tema de ADEUS, LENINE!, longe de se declarar como filme "nostálgico", eleva as acções do protagonista a exemplo de que as condições adequadas, independentemente do regime político ou clima económico em que se viva, devem ser, sempre e em primeiro lugar, fabricadas com as nossas próprias mãos. «A RDA que criei para ela tornou-se naquela que eu desejava que tivesse sido», afirma Alex a certa altura. E é impossível não encontrar, nesta atitude, uma qualidade intemporal e universal que, nos dias de hoje, ressoa de forma particularmente sentimental, inspiradora e eficaz.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Daniel Brühl (Alexander 'Alex' Kerner), Katrin Saß (Christiane Kerner), Chulpan Khamatova (Lara), Maria Simon (Ariane Kerner), Florian Lukas (Denis Domaschke), Alexander Beyer (Rainer), Burghart Klaußner (Robert Kerner)


Palmarés
. Festival Internacional de Berlim: Prémio Blue Angel (Wolfgang Becker)
. Festival Internacional de Valladolid: Prémio Especial do Júri (Wolfgang Becker)
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Wolfgang Becker), Melhor Actor (Daniel Brühl), Melhor Actriz (Katrin Saß)
. Césares: Melhor Filme da União Europeia (Wolfgang Becker)
. Prémios Goya: Melhor Filme Europeu (Wolfgang Becker)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Filme Estrangeiro (Wolfgang Becker)



domingo, maio 05, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Chicago, de Rob Marshall




O grande musical cinematográfico dos anos 2000 conheceu importante impulso com MOULIN ROUGE! (2001, Baz Luhrmann), mas foi CHICAGO, pela sua atmosfera clássica e na orquestração de sequências larger-than-life como há muito não se assistia que, sem dúvida, mais homenageou a tipologia da produção típica norte-americana dos anos 30, representando um ponto alto — atrevo-me a dizer "renascimento" — para um género que aparentava sinais de extinção.

Baseado na peça de teatro de Maurine Dallas Watkins, assim como no respectivo musical da Broadway, a sua concretização — sofisticada, insolente, cínica e absolutamente jovial — demonstra a experiência de palco do (então estreante) realizador Rob Marshall, o qual empresta ao filme uma enorme compreensão instintiva sobre textura, movimento e junção da música com a narrativa bem sucedida. Ou seja, CHICAGO é uma obra de tremenda sedução sensorial para o espectador, através da magnífica fotografia de Dion Beebe, das suas inúmeras sequências musicais e no elenco, distinto e surpreendente, que se revela como o seu elemento mais funcional e inspirado.

Cada intérprete surge com propósito e arquétipo específicos, e o filme extrai de Renée Zellweger, da oscarizada Catherine Zeta-Jones, Queen Latifah e John C. Reilly (irrepreensíveis) desempenhos à medida do que lhes era expectável, estando-lhes reservados memoráveis momentos de canto e dança. A verdadeira surpresa, nesse âmbito, surge na figura de Richard Gere e do seu Billy Flynn: subtil, astuto e encantador em proporções equilibradas, a sua performance de sapateado, a dado momento, é a derradeira representação do pendor crítico encerrado no argumento de CHICAGO relativamente à sociedade de espectáculo e aos "circos mediáticos", de ontem e hoje (afinal, menos díspares do que se poderia supor), em redor dos piores escândalos que a fraqueza humana pode gerar. A filosofia do «Give 'em the old razzle dazzle. Razzle razzle 'em. Give 'em an act with lots of flash in it and the reaction will be passionate», entoada por Flynn, é exactamente o que o filme mais tem para nos oferecer e satirizar. Raramente deixamos, num musical dos anos 2000, que nos enganem assim tanto e para nosso total agrado.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Renée Zellweger (Roxanne "Roxie" Hart), Catherine Zeta-Jones (Velma Kelly), Richard Gere (Billy Flynn), Queen Latifah ("Mama" Morton), John C. Reilly (Amos Hart), Christine Baranski (Mary Sunshine), Taye Diggs (Maestro), Lucy Liu (Kitty Baxter)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Filme, Melhor Actriz Secundária (Catherine Zeta-Jones), Melhor Montagem (Martin Walsh), Melhor Direcção Artística (John Myhre, Gordon Sim), Melhor Guarda-Roupa (Colleen Atwood), Melhor Som (Michael Minkler, Dominick Tavella, David Lee)
. Globos de Ouro: Melhor Filme — Comédia ou Musical, Melhor Actor — Comédia ou Musical (Richard Gere), Melhor Actriz — Comédia ou Musical (Renée Zellweger)
. BAFTA: Melhor Actriz Secundária (Catherine Zeta-Jones), Melhor Som (Michael Minkler, Dominick Tavella, David Lee, Maurice Schell)
. Producers Guild Awards: Melhor Produção de Cinema (Martin Richards)
. Screen Actors Guild: Melhor Elenco (Christine Baranski, Ekaterina Chtchelkanova, Taye Diggs, Denise Faye, Colm Feore, Richard Gere, Deidre Goodwin, Mya, Lucy Liu, Queen Latifah, Susan Misner, John C. Reilly, Dominic West, Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones), Melhor Actriz (Renée Zellweger), Melhor Actriz Secundária (Catherine Zeta-Jones)



sábado, maio 04, 2013

O Cinema dos Anos 2000: As Horas, de Stephen Daldry




As vicissitudes e defeitos nas adaptações ao Cinema de romances considerados "infilmáveis", é uma das questões que divide, amiúde, crítica, público, leitores compulsivos e cinéfilos aguerridos. No entanto, AS HORAS é digno do "estatuto" de excepção à regra. Stephen Daldry, juntamente com o argumentista David Hare, convertem a premiada obra literária de Michael Cunningham, um exercício meditativo onde pouco acontece, num filme complexo e meticulosamente construído, capaz de dissolver fronteiras temporais e narrativas através da reflexão sobre a influência que um determinado livro — mais concretamente, o Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf — tem na vida de três mulheres (Nicole Kidman, Julianne Moore e Meryl Streep) em três épocas distintas.

Desde a repetida referência à frase que abre o livro supracitado ("Mrs. Dalloway said she would buy the flowers herself") até ao espectro do suicídio (a primeira sequência do filme é, precisamente, o momento em que Virginia Woolf decide terminar a sua própria vida) que paira sobre a maioria das personagens, AS HORAS é uma profunda e desconfortável observação de sofrimento humano. Quase como se tratasse de um filme de terror psicológico, Daldry aborda uma série de temáticas (para além do suicídio, disfunção familiar, ambiguidade sexual, distúrbios mentais e doença terminal são pratos fortes neste contexto dramático) para ilustrar traumas quotidianos, íntimos mas universais, e de inegável poder emocional.

Paralelamente, AS HORAS é, também, uma obra que pertence ao seu extenso e perfeito elenco, numa diversidade de registos que lhe garante uma imediata e duradoira identificação pelo espectador. Torna-se, em jeito de conclusão, impossível não falar sobre os dois "destaques no feminino" do filme: Nicole Kidman "desaparece" sob a camada de make-up da sua personagem, mas traz à luz do dia uma irrepreensível encarnação no corpo e alma de Virginia Woolf, combinando a sensualidade andrógena e semblante depressivo da escritora inglesa, e Meryl Streep, aqui transfigurada no centro emocional do argumento pela sua contida mas fascinante versão da mulher de meia-idade, que não teme assumir responsabilidades, em plena década de 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Nicole Kidman (Virginia Woolf), Julianne Moore (Laura Brown), Meryl Streep (Clarissa Vaughan), Stephen Dillane (Leonard Woolf), Ed Harris (Richard "Richie" Brown), Miranda Richardson (Vanessa Bell), John C. Reilly (Dan Brown), Toni Collette (Kitty), Allison Janney (Sally Lester), Claire Danes (Julia Vaughan), Jeff Daniels (Louis Waters)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Actriz (Nicole Kidman)
. BAFTA: Melhor Actriz (Nicole Kidman), Melhor Banda Sonora (Philip Glass)
. Globos de Ouro: Melhor Filme — Drama, Melhor Actriz — Drama (Nicole Kidman)
. Festival de Berlim: Urso de Prata — Melhor Actriz (Meryl Streep, Nicole Kidman, Julianne Moore), Prémio do Júri "Berliner Morgenpost" (Stephen Daldry)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actriz Estrangeira (Julianne Moore)
. National Board of Review: Melhor Filme
. Writers Guild of America: Melhor Argumento Adaptado (David Hare)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Actriz (Julianne Moore)


Sobre Stephen Daldry

Um dos principais realizadores, na última década, a abordar dramas históricos com dimensão trágico-romântica, Daldry faz uso extensivo da sua experiência teatral para obter desempenhos únicos dos seus actores e experiências cinematográficas de respeitável apelo comercial. BILLY ELLIOT (2000), O LEITOR (2008) e EXTREMAMENTE ALTO, INCRIVELMENTE PERTO (2011) são os restantes títulos da sua filmografia.



quinta-feira, maio 02, 2013

O Cinema dos Anos 2000: A Arca Russa, de Alexander Sokurov




O Instituto de Cinematografia Gerasimov tem de ser considerado uma das maiores escolas do cinema mundial. De Sergei Eisenstein a Elem Klimov, poucos foram os grandes realizadores do leste que não passaram por lá, enquanto professores ou alunos. Alexander Sokurov aprendeu tudo aí e a influência do seu mentor, Andrei Tarkovsky, ainda hoje é sentida nos seus trabalhos. Se no início da carreira isso significava uma ausência de identidade própria e condenava tudo o que Sokurov fazia a serem cópias pouco cativantes e de baixa qualidade de ZERKALO, nos últimos anos já não se pode dizer o mesmo.

O díptico MÃE E FILHO (1997) / PAI E FILHO (2003) e a tetralogia sobre poder e corrupção confirmam que é um realizador virtuoso mas mostram também que é capaz de dar aos seus atores mais que monólogos pseudo-filosóficos e explorar, com distância suficiente para deixar no ar alguma ambiguidade, conflitos universais em família ou política.

Pelo meio, levou a cabo um dos maiores feitos do cinema moderno com A ARCA RUSSA, que consiste num plano-sequência único de 90 minutos pelo museu Hermitage. Recriando vários episódios da história russa e o ambiente das diferentes épocas em que se inserem, Sokurov consegue atingir aqui com mais convicção e segurança que nunca, um equilíbrio entre estilo e ideia, num dos mais hipnóticos e oníricos filmes que já tive oportunidade de ver e que culmina num longo baile, em que é dado uso à grande parte dos 2000 figurantes que participaram no filme.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Alexander Sokurov (Narrador), Sergei Dreiden (Marquês de Custine), Mariya Kuznetsova (Catarina, a Grande), Marksim Sergeyev (Pedro, o Grande), Anna Aleksakhina (Alexandra Feodorovna), Vladimir Baranov (Nicolau II)


Palmarés
. Festival Internacional de Toronto: Prémio Especial — Visions Award (Alexander Sokurov)


Sobre Alexander Sokurov

Considerado por muitos como o herdeiro espiritual de Andrei Tarkovsky, a sua carreira é marcada por uma preocupação em redor das questões essenciais da existência humana, em filmes onde longos planos sequência, estilo naturalista de interpretação e o recurso quase surreal do som são presença constante. Da sua filmografia, destacam-se MÃE E FILHO (1997), MOLOCH (1999), PAI E FILHO (2003) e FAUSTO (2011, Leão de Ouro no Festival de Veneza).



terça-feira, abril 30, 2013

O Cinema dos Anos 2000: A Última Hora, de Spike Lee




O meu primeiro encontro com o filme de Spike Lee foi na verdade, um encontro às cegas. Dele, nada conhecia. Entrada numa sala de cinema sem saber bem o que iria ver. Pouco me impressionou na altura, mas há filmes que necessitam de uma certa maturidade para os podermos receber. E foi mesmo isso com este A ÚLTIMA HORA, mais tarde revelando-se para mim um dos mais importantes desta década dos ‘00.

Uma história sobre um condenado e as suas últimas 24 horas de liberdade no mundo exterior, poderá não trazer, à partida, nada de novo. Mas se há coisa que admiro no cinema de Lee é o seu poder de conceber personagens fortíssimas envoltas num turbilhão de emoções. Neste caso, como é óbvio Norton desempenha um papel fulcral e é ele a cara de um homem que chega ao limite, que vê toda a sua vida desperdiçada. A cidade é Nova Iorque, como não poderia deixar de ser. Uma cidade ferida, pós 11 de Setembro.

História de perda mas também de descoberta e reflexão. A culpa é só de Monty por estar na situação em que está. Monty é o espelho do Ser Humano, sempre à procura de um culpado. A namorada, o pai, os amigos, a própria América. O "fuck you Monty" em frente ao espelho é um dos grandes momentos do cinema do norte-americano. Aquele último dia de liberdade iria mudar Monty, talvez mais ainda do que a própria vida na prisão, mas isso não sabemos, e talvez nem importe. Fico-me com o momento final, mesmo a última cena do filme, em que o personagem principal viaja para anos mais tarde. A ÚLTIMA HORA é sem sombra de dúvida a obra-prima de Spike Lee.

por João Gonçalves (Modern Times).

Elenco
. Edward Norton (Monty Brogan), Philip Seymour Hoffman (Jacob Elinsky), Barry Pepper (Frank Slaugherty), Rosario Dawson (Naturelle Riviera), Anna Paquin (Mary D'Annunzio), Brian Cox (James Brogan)


Palmarés
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actor Estrangeiro (Edward Norton)


Sobre Spike Lee

Embora tenha abordado diversas temáticas (contrastes raciais, o quotidiano de comunidades negras nova-iorquinhas, o papel dos media nas sociedades contemporâneas, crime e pobreza urbanos e questões políticas), a carreira de Spike Lee revela-se como uma das mais heterogéneas no panorama do cinema norte-americano durante as últimas três décadas. Da sua filmografia, destacam-se NÃO DÊS BRONCA (1989), A FEBRE DA SELVA (1991), MALCOLM X (1992), VERÃO ESCALDANTE (1999) e INFILTRADO (2006).



segunda-feira, abril 29, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Herói, de Zhang Yimou




Num filme em que o estilo e a forma dizem muito, é a poesia que mais se destaca. É na mesma que se limam as arestas e se articulam os contornos formais de todo o processo criativo que é este HERÓI. A começar pelo encaixe visual do diálogo com o guarda-roupa, passando pela junção entre música e cor, para acabar na simbiose entre a acção e o som ambiente. Uma obra exemplar nesta sua capacidade de harmonizar diversos departamentos.

Com clara influência em RASHÔMON — ÀS PORTAS DO INFERNO (e YOJIMBO, O INVENCÍVEL, se atendermos à personagem de Jet Li) de Akira Kurosawa, Yimou Zhang preocupou-se neste filme, sobretudo, em nos contar uma história, uma visão sobre diversos pontos de vista, que se vai construindo a ela própria, ou se vai aperfeiçoando detalhadamente à medida que avança e recua na transcrição dos acontecimentos. Cada personagem, nesta conjugação de pequenas histórias, assume uma importância tal que o seu protagonismo é extrapolado para fora do ecrã em inesgotáveis interpretações e inestimáveis transfigurações, ao ponto de nos gravar sentimentos ou pessoas e não situações. Honra, lealdade, amor, traição e sacrifício são alguns dos valores e motivações pessoais abordados e explorados na trama ou no novelo que, teimosamente, se afigura diante de nós, uma e outra vez.

A narrativa é, então, interpretada em diversas ocasiões e em constantes retrocessos ao passado, na intersecção de vários capítulos endereçados a cada um dos personagens principais, aqueles que fazem parte do núcleo e, no fim de contas, do propósito do enredo. A cada nova investida pela memória e por cenas já visitadas, novo ponto de vista, que é como quem diz, nova oportunidade de explorar as cores, os contrastes, as texturas, os movimentos e as emoções presentes ao longo das cenas e da própria mise-en-scène, talhada como nunca. Tremenda esta capacidade de reciclar ambientes e atmosferas com o mesmo vigor e sempre de forma refrescante e recompensatória.

Temos ainda, para além deste formalismo na fotografia, cenografia e guarda-roupa, confrontos de rara beleza, ou por outras palavras, acção e bailados exuberantemente coreografados segundo o cenário e o contexto presentes, e segundo o som da natureza e a alma dos intervenientes. A música, por outro lado, também interfere e se enquadra no conjunto, pelo que estes êxtases, por assim dizer e por aquilo que representam, acabam por culminar poeticamente um brilhante trabalho de realização e de argumento, sendo eles próprios um verdadeiro triunfo na arte de oferecer visual e narrativamente Cinema.

Pode-se dizer que o filme tem um potencial e uma capacidade em nos surpreender enormes, talvez exageradas mesmo, na medida em que assistimos, por vezes, ao absurdo e ao inverosímil. Mas não será esse exagero legítimo, e, sobretudo, único e característico o suficiente para nos abstermos de uma suposta credibilidade (des)necessária? Para mais vindo de um autor que incute tamanha audácia e risco, tanto na harmonia como na fruição entre uma visão (ou visões) e uma estética (ou estéticas) indistinguíveis. E isto porque, de facto, existe uma constante variedade na filmagem e na posição que a câmera assume em determinados momentos, ora de modo subjectivo e terreno, ora de forma totalmente objectiva e aérea, quase que induzindo os movimentos e os pensamentos envolvidos. Há, digamos, como que uma corrente artística que recebe e une diversas estéticas ou formas de apelar às emoções, que catapulta o resultado final para outra dimensão, literalmente.

Confluindo elementos como a água, o vento, o sol e as árvores, Herói se assume como uma combinação de ambiências e de sensações, partilhando com isso diversos campos ou panoramas, desde a montanha ao lago, ou da floresta ao deserto. Uma autêntica sincronia e espectáculo visuais, que vive essencialmente da imagem e da profundidade dos seus personagens. Numa palavra, magnífico.

por Jorge Teixeira (Caminho Largo).

Elenco
. Jet Li (Nameless), Tony Leung (Broken Sword), Maggie Cheung (Flying Snow), Ziyi Zhang (Moon), Daoming Chen (Imperador Qin), Donnie Yen (Sky)


Palmarés
. Festival de Berlim: Prémio Alfred Bauer (Zhang Yimou)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Fotografia (Christopher Doyle)


Sobre Zhang Yimou

Numa carreira marcada por obras de imenso rigor formal, nomeadamente no trabalho de enquadramento e simbolismo das cores — ESPOSAS E CONCUBINAS (1991) é o principal exemplo disso —, Yimou tem-se centrado na História do seu país, elegendo como tema predilecto a resiliência do povo Chinês perante dificuldades e fatalidades. Da sua filmografia, destacam-se ainda MILHO VERMELHO (1987), A TRÍADE DE XANGAI (1995), O CAMINHO PARA CASA (1999), e O SEGREDO DOS PUNHAIS VOADORES (2004). Em 2008, foi o director das cerimónias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos de Pequim.



domingo, abril 28, 2013

O Cinema dos Anos 2000: As Confissões de Schmidt, de Alexander Payne




Quando ganhou em 2002 o Globo de Ouro na categoria de Melhor Actor num Drama pelo seu (grande) papel em AS CONFISSÕES DE SCHMIDT, Jack Nicholson disse no seu discurso que "bem, não sei se deva estar feliz ou com vergonha, já que pensei que tínhamos feito uma comédia...".

E AS CONFISSÕES DE SCHMIDT, belíssimo filme de Alexander Payne, é, efectivamente, um filme que caminha frequentemente entre esses dois géneros, apoiando-se sempre na base da trama que explora aquela que é, afinal de contas, aquela tragédia a que havemos de chegar todos a certa altura: o momento em que percebemos que já não temos assim tantos anos de existência, quando estamos já na reforma e nos achamos incapazes de fazer muito mais além de ver o Querida Júlia e jogar bingo, sendo forçados a perguntar-nos "Então, mas afinal de contas o que é que eu fiz exactamente desta coisa a que chamam de vida?".

Este medo, esta crise de velha-idade a que provavelmente havemos de chegar, é daquelas coisas mais banais e universais da humanidade, representada aqui pela personagem normal e universal que é Schmidt, o velhote reformado que, após a morte da mulher (que, após décadas de casamento, achava até bastante chata), embarca numa viagem de auto-descoberta na esperança de descobrir o que foi a sua vida, o que dela fez, e até que ponto pode ainda marcar o futuro daquela que deveria ser, supostamente, a pessoa mais próxima que tem: a sua filha, com quem tem uma relação menos que terna, que o olha como aquele pai velhote e rezingão que já não tem muito a dizer sobre seja o que for, e que vai casar com um bronco de rabo-de-cavalo que o pai não aprova.

Jack Nicholson tem aqui aquele que é, realmente, um dos maiores papéis da sua carreira. Um dos maiores ícones de Hollywood, o charmoso irresistível que assim continua mesmo nos seus 60 e tal anos, é aqui visto sem charme, sem estilo e sem poder. Aqui, Nicholson está careca, desajeitado, ignorado, e desesperado por saber o que deixará para trás quando a sua vida chegar ao fim. E está muito, mas mesmo muito bem.

Alexander Payne, autor respeitado e pequeno mestre nestas explorações dramo-cómicas do quotidiano universal, atingiu aqui o seu pico: AS CONFISSÕES DE SCHMIDT faz-nos passar do "haha" ao "aww" em poucos segundos, e fá-lo sempre com uma facilidade enorme, sem qualquer tipo de manipulação, com um espírito de cinema honesto e simples que hoje em dia é raro (principalmente em qualquer obra que tenha, como protagonista, uma das maiores estrelas do Cinema). Payne, que tanto realiza como co-escreve o argumento, tem aqui uma realização tanto sóbria como inspirada, explorando bem tanto os momentos mais hilariantes (e nem são poucos: veja-se, por exemplo, literalmente qualquer uma das cenas com Kathy Bates) como os mais belos. O filme "respira", com um elenco todo em bom nível a ter tempo para mostrar o seu talento (tanto Hope Davis como Dermot Mulroney, este em modo de constante comic-relief, estão muito bem), e com a história sempre a ser contada ao ritmo certo, da forma certa.

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT assenta, claro, muito sobre os ombros de Nicholson. Mas há que reconhecer também o talento de Payne em aproveitar tão bem esta superestrela da velha-guarda, em despir Nicholson tão bem e o mostrar tão frágil e, diga-se, tão parecido a tantos outros velhotes reformados que vemos a passar na rua. Por vezes, o trabalho de um bom realizador não é tanto o de nos espetar com a sua realização na cara, mas mais o de deixar que a história se vá contando a si mesma, interpretada por actores que bem o sabem; e aqui temos exactamente isso.

E depois há, claro, aquele final; aquele pequeno murro no estômago que tanto comove quanto dá que pensar, que mostra um Nicholson em close-up com lágrimas pela face, rugas na testa, e um olhar tão genuíno que faz com que as lágrimas dele passem para nós. É aquele final que nos é dado quando achamos que não há final optimista num filme com momentos tão cómicos, aquele momento de Cinema com C capital que vem quando menos esperávamos, quando encaramos Schmidt com tristeza e simpatia em iguais-medidas. E é naqueles minutos finais que o filme revela aquela bela verdade tão universal quanto a personagem que lhe dá título: muito frequentemente a nossa própria vida mede-se não tanto pelo que nos deu a nós, mas mais pelo que deu aos outros.

AS CONFISSÕES DE SCHMIDT pode ter um nome muito específico no seu título de duas palavras, mas refere-se, afinal de contas, a todos nós que andamos ora aos encontrões no metro ora a olhar para o relógio que não pára... e que, a certa altura, vai começar a ficar sem corda, fazendo-nos questionar exactamente o que é que andamos a fazer aquele tempo todo.

por Gonçalo Trindade (Ante-Cinema).

Elenco
. Jack Nicholson (Warren Schmidt), Kathy Bates (Roberta Hertzel), Hope Davis (Jeannie Schmidt), Dermot Mulroney (Randall Hertzel), June Squibb (Helen Schmidt), Howard Hesseman (Larry Hertzel), Harry Groener (John Rusk)


Palmarés
. Globos de Ouro: Melhor Actor — Drama (Jack Nicholson), Melhor Argumento (Alexander Payne, Jim Taylor)
. National Board of Review: Melhor Actriz Secundária (Kathy Bates)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Filme, Melhor Actor (Jack Nicholson), Melhor Argumento (Alexander Payne, Jim Taylor)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Filme, Melhor Actor (Jack Nicholson), Melhor Argumento (Alexander Payne, Jim Taylor)


Sobre Alexander Payne

Figura proeminente do novo cinema norte-americano, os seus filmes são marcados pela apresentação satírica e pessimista da sociedade moderna e por protagonistas cujos defeitos não desviam a empatia por parte do espectador. Da sua filmografia, destacam-se CITIZEN RUTH (1996), ELECTION (1999), (2004) e OS DESCENDENTES (2011, Oscar de Melhor Argumento Adaptado).



sexta-feira, abril 26, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Longe do Paraíso, de Todd Haynes




Outono de 1957 no Connecticut. Eisenhower governa os Estados Unidos e encontramo-nos na época do idílico "sonho à Americana", do qual Cathy Whitaker (Julianne Moore) e a sua família são um perfeito exemplar, de tão perfeita e glamorosa a sua vida aparenta ser. Cathy é a típica dona de casa da época, mãe dedicada, linda e amorosa e o seu marido Frank (Dennis Quaid) é o austero e trabalhador chefe de família, antigo combatente de guerra e respeitado pela vizinhança. A sua apresentação pinta-nos o retrato de uma família inocentemente feliz, inconsciente do drama, vergonha e humilhação que se virá a abater sobre a sua casa.

A história aborda o público como se de voyeurs se tratasse, mostrando-nos mais sobre esta família do que as impressionantes festas e soirées e a rotineira vida do dia-a-dia deixam antever. É-nos revelado que Frank é homossexual em segredo, encontrando-se frequentemente com outros homens. A cena em que Cathy o descobre é devastadoramente triste — e a sua solução para o problema, propondo a Frank que busque ajuda psiquiátrica para este problema, mais aflitiva e penosa ainda é. Com a relação a sofrer consideravelmente, Cathy encontra consolo junto do seu jardineiro de raça negra, Raymond (Dennis Haysbert), culto e educado, mas portador de uma raiva escondida que vem ao de cima em situações sociais desconfortáveis. O falatório que Cathy gera por ambas as situações começa a tornar-se impossível de superar e, em pouco tempo, vemos como a vida idílica desta pobre e doce dona de casa esvanece quanto mais a realidade a assoma e a vemos, ansiosa e desesperadamente, agarrar-se a um pequeno semblante dessa vida que agora mais lhe parece um sonho distante, um paraíso bem longe dali.

Através de uma magnífica atenção ao detalhe e à atmosfera desse período histórico, por todos desde a soberba produção artística, a rica e extravagante banda sonora, as luxuosas roupas fabricadas pela inigualável Sandy Powell, auxiliadas por um elenco forte e competente e um argumento imaculado, somos imersos a fundo na infeliz fábula dos Whitaker. Abordando de forma directa e honesta temas como o racismo e a homossexualidade, que nos últimos cinquenta anos progrediram consideravelmente desde a visão cor de rosa e superficial que se tentava passar enquanto a descriminação, o preconceito e a violência ocorriam debaixo dos narizes de toda a gente, Haynes mescla a ironia do presente com a inocência e ignorância de tempos idos e com isso fabrica um melodrama potentíssimo, uma obra-prima num género gasto, no qual poucos ousariam tentar algo novo. Depois do afirmativo SAFE — SEGURO (1995) e do revolucionário VELVET GOLDMINE (1998), o iconoclasta e autor de excelência Todd Haynes dedica-se a um reinventar o melodrama dos anos 50 com nova aventura junto da sua musa, Julianne Moore.

E não conseguiria arranjar melhor parceira que esta. Moore mostra-se invulgarmente à vontade com as palavras de Haynes e a sua habilidade especial de transformar um acto rotineiro numa peça de teatro, tal a multiplicidade de emoções que consegue transmitir com um simples olhar, fala ou movimento corporal, favorece as construções femininas do autor, normalmente pacatas e apagadas mulheres de família, habituadas a sofrer, com muito por dizer por entre os seus silêncios. O brilho particular desta personagem de Moore e Haynes está na forma reactiva e astuta como vai aprendendo com o decorrer da narrativa. Ela surge-nos como (mais) uma dona de casa ignorante e encantadoramente desfasada da realidade, mas a exposição a que é submetida leva a frágil Cathy a abandonar a natural passividade da mulher dos anos 50 e a começar a consciencializar-se de como é na realidade o mundo que a rodeia.

Ainda me surpreende como Julianne Moore é habitualmente esquecida quando nos referimos aos "melhores", sobretudo se comparada outros seus pares de igual importância (Winslet, Bening, Streep, Kidman, Foster, Blanchett). Uma explicação simples para tal é o quão simples a actriz o faz parecer. "Basta" pegar nas suas duas interpretações premiadas deste ano de 2002, aqui e em AS HORAS, duas donas de casa ideais aprisionadas num pesadelo de subúrbia do qual urgem escapar. Tão diferentes as suas personalidades, motivações, ambições e destinos. Que enorme intérprete. Pena que o Óscar, para uma das maiores de sempre, talvez já nunca virá.

por Jorge Rodrigues (Dial P For Popcorn).

Elenco
. Julianne Moore (Cathy Whitaker), Dennis Quaid (Frank Whitaker), Dennis Haysbert (Raymond Deagan), Patricia Clarkson (Eleanor Fine), Viola Davis (Sybil), James Rebhorn (Dr. Bowman), Michael Gaston (Stan Fine)


Palmarés
. Festival de Veneza: Taça Volpi — Melhor Actriz (Julianne Moore), Prémio SIGNIS — Menção Honrosa (Todd Haynes), Prémio Golden Osella — Contribuição Artística (Edward Lachman)
. Prémios Satellite: Melhor Filme — Drama, Melhor Realizador (Todd Haynes), Melhor Actor Secundário — Drama (Dennis Haysbert)
. Independent Spirit Awards: Melhor Filme, Melhor Realizador (Todd Haynes), Melhor Actriz (Julianne Moore), Melhor Actor Secundário (Dennis Quaid), Melhor Fotografia (Edward Lachman)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actriz Estrangeira (Julianne Moore)
. National Board of Review: Melhor Actriz (Julianne Moore)
. Círculo de Críticos de Los Angeles: Melhor Actriz (Julianne Moore), Melhor Fotografia (Edward Lachman), Melhor Banda Sonora (Elmer Bernstein)
. Círculo de Críticos de Nova Iorque: Melhor Filme, Melhor Realizador (Todd Haynes), Melhor Actriz (Julianne Moore), Melhor Actor Secundário (Dennis Quaid), Melhor Fotografia (Edward Lachman)


Sobre Todd Haynes

Conhecido por assinar filmes provocadores, que subvertem estruturas narrativas clássicas, denunciam hipocrisias modernas e centradas na ambiguidade sexual dos seus personagens, SUPERSTAR: THE KAREN CARPENTER STORY (1988), SAFE — SEGURO (1995), VELVET GOLDMINE (1998) e I'M NOT THERE — NÃO ESTOU AÍ (2007) são títulos fundamentais para a compreensão visual e temática da sua filmografia.



quinta-feira, abril 25, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Infernal Affairs — Infiltrados, de Andrew Lau e Alan Mak




Thrillers oriundos de Hong Kong não são uma novidade, mas poucos foram capazes de dinamizar o género na primeira década dos anos 2000 como INFERNAL AFFAIRS — INFILTRADOS, uma obra realizada a meias por Andrew Lau e Alan Mak, que mais tarde viria a ter direito a duas continuações e um remake. Filme intenso, marcante e magnificamente elaborado, INFERNAL AFFAIRS tem como especial condimento o facto de contar com uma dupla de protagonistas formada por um polícia que se encontra infiltrado num perigoso gangue de tráfico de droga e um gangster que se encontra infiltrado junto das forças das autoridades, duas figuras cheias de contrastes, complexas e interessantes de acompanhar, que não sabem a identidade um do outro.

A história facilmente poderia descambar numa mera onda de violência recheada de reviravoltas pueris e previsíveis, mas INFERNAL AFFAIRS destaca-se pela sua inteligência e capacidade de desenvolver os dilemas morais dos personagens, o desgaste que estes sofrem ao longo da sua missão, as mudanças comportamentais que conhecem ao longo do tempo e os seus problemas pessoais. Longe de se perder em redundâncias, o filme procura explorar as problemáticas relacionadas com as agendas de Chan (polícia infiltrado na máfia) e Lau (gangster infiltrado na polícia), ao mesmo tempo que desenvolve a procura da polícia em derrubar o gangue associado ao tráfico de heroína e a tentativa do grupo criminoso em estar à frente da polícia, bem como a criação gradual da tensão por aquele momento que todos esperam, ou seja, o confronto entre os protagonistas.

INFERNAL AFFAIRS surge mais intrincado do que um mero jogo entre "polícias e gangsters" ou do jogo "entre o gato e o rato", ou até da mera acção explosiva. Desde logo porque a linha entre os protagonistas e os antagonistas está bastante esbatida, embora estes sejam duas figuras dicotómicas a nível de comportamento e de valores, mas também pelo jogo estratégico que rodeia toda a narrativa. Chan e Lau não se conhecem, não sabem a identidade um do outro, mas sabem que o primeiro a falhar morre, enquanto as autoridades tardam em conseguir sufocar o crime em Hong Kong e este território se transforma no tabuleiro de xadrez dos dois protagonistas. Este "tabuleiro de xadrez" surge complexificado não só pelo argumento aprumado, mas também pelo excelente trabalho de fotografia, capaz de adensar a atmosfera de incerteza que rodeia a narrativa e criar um clima propício à insegurança dos gestos e dos comportamentos, ao mesmo tempo que somos apresentados um território de Hong Kong a "ferro e fogo" onde as autoridades e os criminosos estão em pleno pé de guerra.

Surpreendente, enérgico, violento e recheado de mind games, INFERNAL AFFAIRS não vem com falsos moralismos para cima do espectador, enquanto apresenta uma história complexa e violenta, que culmina na obtenção de um thriller a roçar a perfeição, que ganha um novo valor a cada visualização. Com um argumento coeso, que é capaz de sustentar a narrativa durante toda a sua duração e desenvolver os personagens e as subtramas, INFERNAL AFFAIRS é um thriller soberbo, onde a um excelente elenco junta-se uma magnífica história e realização de Alan Mak e Andrew Lau, que tornam esta obra cinematográfica simplesmente inesquecível.

por Aníbal Santiago (Rick's Cinema).

Elenco
. Andy Lau (Inspector Lau Kin-ming), Tony Leung (Chan Wing-yan, Edison Chen (Lau Kin-ming criança), Shawn Yue (Chan Wing-yan criança), Anthony Wong (Superintendente Wong Chi-shing), Eric Tsang (Hon Sam), Chapman To ("Crazy" Keung)


O remake americano de filmes asiáticos

Embora seja prática recorrente desde os anos 60 (basta recordar o precedente aberto pelos filmes de Akira Kurosawa adaptados a westerns norte-americanos), a década de 2000 assistiu ao aumento de obras refeitas a partir de títulos asiáticos. Com o género do J-Horror em lugar cimeiro — THE RING — O AVISO (2002, Gore Verbinski, na imagem), THE GRUDGE — A MALDIÇÃO (2004) —, os cinemas de Hong Kong (como é o caso deste INFERNAL AFFAIRS, no qual Scorsese se baseou para o premiado THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS), da Tailândia (O OLHO, 2008) e da Coreia do Sul (ESPELHOS, 2008) têm sido os principais "visados" numa tendência que, para alguns, assinala um domínio criativo asiático em prejuízo da inovação em Hollywood.



quarta-feira, abril 24, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Femme Fatale, de Brian De Palma




FEMME FATALE é o sonho húmido, fantasista até ao orgasmo, de um dos maiores hitchcockianos ou pós-hitchcockianos que o cinema teve, tem e alguma vez terá. De Palma reincide, como se movido por um trauma feliz, na reconstituição peça a peça — foto a foto, como faz a personagem de Banderas no filme — do grande puzzle impossível que reúne numa só imagem REBECCA, A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES, JANELA INDISCRETA e INTRIGA INTERNACIONAL. FEMME FATALE é o nec plus ultra da arte de De Palma do "copy paste" intrincado, da cópia tão elaborada que se vende — e nós compramo-la, claro — como o mais indesmentível dos originais.

Nesta história sexual de diamantes roubados, identidades estilhaçadas e voyeurismos (não, orgasmos) múltiplos, De Palma abençoa o cinéfilo com essa superior criação divina chamada Rebecca Romijn-Stamos, que nos é apresentada como um reflexo misterioso "postado" sobre o ecrã de televisão onde passa PAGOS A DOBRAR (1944). É esta "imagem sobre imagem" que nos dá a ver pela primeira vez a femme fatale deste filme. Tal solução não é só engenhosa, porque resume muito bem todo o gesto de um cinema: o de De Palma, como é evidente... Ora, que outro poderia ser? O de Wilder? Entenda-se: PAGOS A DOBRAR é homenageado para ser posto a rastejar no final deste tour de force eivado do mais elaborado sex appeal clássico. Para mim, é limpinho: Rebecca Romijn-Stamos 1 — Barbara Stanwyck 0.

por Luís Mendonça (CINEdrio e À Pala de Walsh, organizador do ciclo de cinema Década dos Zeros).

Elenco
. Rebecca Romijn-Stamos (Laure Ash / Lily Watts), Antonio Banderas (Nicolas Bardo), Peter Coyote (Embaixador Bruce Watts), Eriq Ebouaney (Black Tie), Rie Rasmussen (Veronica), Thierry Fremont (Inspector Serra), Gregg Henry (Shiff)


Sobre Brian De Palma

Variando entre o terror psicológico — SISTERS (1973) e CARRIE (1976) — e obras de assumido cariz comercial — SCARFACE — A FORÇA DO PODER (1983), OS INTOCÁVEIS (1987) e MISSÃO IMPOSSÍVEL (1996) —, De Palma encontrou distinção e alguma polémica nas suas constantes homenagens (para alguns, "cópias") a Alfred Hitchcok (OBSESSÃO, 1976) e Michelangelo Antonioni (BLOW OUT — EXPLOSÃO, 1981), criando, nesse processo, um inegável estilo autoral.