quarta-feira, dezembro 07, 2011

Anime Alternativo

Quando nos referimos a animação japonesa, os primeiros nomes que, habitualmente, invocamos para a descrever passam por Osamu Tezuka, o Studio Ghibli, o cyberpunk de AKIRA (1988, Katsuhiro Otomo) ou GHOST IN THE SHELL (1995, Mamoru Oshii), Hayao Miyazaki e produções televisivas como DRAGON BALL.

Contudo, e sem menosprezo para os exemplos supracitados, há alguns anos que se assiste à ascensão de um movimento independente de animadores nipónicos, desassociados dos principais estúdios e que revelam uma faceta (para muitos) desconhecida da anime.

Destacam-se, agora, os principais trabalhos de um fenómeno que poderá dar cartas num futuro bem próximo.

Título: Anima
Realizador: Kazuhiro Hotchi



Uma demonstração das emoções humanas através do movimento físico:



Título: Ryoma Sakamoto
Realizador: Kazuhiro Hotchi



Os episódios mais importantes na vida de Ryoma Sakamoto, nome fundamental para o impulso tecnológico do Japão:



Título: Day of Nose
Realizador: Kei Oyama



Absurdo e metafórico, é uma interessante visão sobre o salaryman — anónimo e descartável por natureza:



Título: JAM
Realizador: Mirai Mizue



Uma colorida e hipnótica miscelânea de imagem e som:



Título: Pika Pika
Realizador: Tochka Collective



Usando uma técnica conhecida como light painting, animação e imagem real fundem-se de modo indelével e fascinante:



Título: The Evening Traveling
Realizador: Akino Kondoh



Poética ilustração visual de uma canção tradicional japonesa:



Título: Mount Head
Realizador: Koji Yamamura



Peculiar e divertida observação sobre os costumes japoneses e como os mesmos se enraízam, literalmente, na cabeça/mente das pessoas:



[Fonte: Wildgrounds]

terça-feira, dezembro 06, 2011

Add To Cart #25



«The Lady Vanishes (1938) is the film that best exemplifies Alfred Hitchcock’s often-asserted desire to offer audiences not a slice of life but a slice of cake. Even Claude Chabrol and Eric Rohmer, in their pioneering study of Hitchcock, for once abandoned the search for hidden meanings and—though rating it "an excellent English film, an excellent Hitchcock film" — decided it was one that "requires little commentary," while François Truffaut declared that every time he tried to study the film’s trick shots and camera movements, he became too absorbed in the plot to notice them.»



segunda-feira, dezembro 05, 2011

#32



... segundo as palavras da Inês Moreira Santos, colaboradora do Espalha-Factos:

Aqui ficam os 10 filmes da minha vida, sem qualquer ordem de preferência. A estes poderiam juntar-se tantos outros, mas tendo eu que (hoje) escolher apenas 10, são estas as minhas escolhas.

. ANNIE HALL
(1977, Annie Hall, Woody Allen)



Woody Allen no seu melhor. ANNIE HALL não podia deixar de entrar na minha lista por tudo o que é. Um dos meus filmes favoritos.

. O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE
(2001, Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, Jean-Pierre Jeunet)



Há tanto para dizer sobre este filme, mas "mágico" assenta-lhe bem e já diz muito. A vida da Amélie faz-nos sonhar.

. CINEMA PARAÍSO
(1988, Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore)



O retrato do amor pelo cinema (e não só). É daquelas escolhas onde não tive qualquer dúvida.

. O GABINETE DO DR. CALIGARI
(1920, Das Cabinet des Dr. Caligari, Robert Wiene)



O início do cinema de horror, o Expressionismo Alemão, um marco na história do cinema. Até de inspiração para Tim Burton criar EDWARD SCISSORHANDS ele serviu. Tudo boas razões para gostar tanto deste excelente filme mudo.

. PULP FICTION
(1994, Pulp Fiction, Quentin Tarantino)



Tudo neste filme é genial, as histórias, toda a linha que as liga, o elenco, o humor negro que caracteriza o realizador... Provavelmente o melhor filme de Tarantino.

. BLUE VALENTINE — SÓ TU E EU
(2010, Blue Valentine, Derek Cianfrance)



Pode ser uma das escolhas mais controversas desta lista, mas este é, definitivamente, um dos filmes da minha vida. Tão real e, por vezes, duro. Gosto mais dele a cada visualização, por muito blue que possa ser.

. JANELA INDISCRETA
(1954, Rear Window, Alfred Hitchcock)



Aqui poderia estar qualquer outro filme de Hitchcock. Escolhi este em especial por ter sido o primeiro que vi do mestre.

. LARANJA MECÂNICA
(1971, A Clockwork Orange, Stanley Kubrick)



Como estou sempre a dizer que gosto de loucos, nunca poderia de deixar de adorar este filme. E como também gosto de génios, Kubrick não poderia deixar de figurar aqui. Um dos meus favoritos de sempre.

. OS DIAS DA RÁDIO
(1987, Radio Days, Woody Allen)



E Woody Allen, mais uma vez. Recorrendo a MIDNIGHT IN PARIS, gostava de passar uns dias na era da rádio que sempre me fascinou. E RADIO DAYS transporta-nos tão bem para essa realidade.

. O GRANDE PEIXE
(2003, Big Fish, Tim Burton)



Mais uma vez a fantasia marca presença na minha lista. BIG FISH está cheio de beleza e magia, e é inevitável que nos deixemos encantar pelas histórias do protagonista.

--//--

Obrigado, Inês, pela tua participação!

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

O CARRO FANTASMA (1921), de Victor Sjöström



É dia de ano novo. Três bêbados evocam uma lenda que diz que a última pessoa a morrer num ano, se foi um grande pecador, tornar-se-á durante o todo o ano seguinte o condutor do Carro da Morte, aquele que apanha as almas dos mortos... David Holm, um dos três bêbados, morre à última badalada da meia-noite...

Adaptação do romance de Selma Lagerlof, O CARRO FANTASMA é um dos filmes mais famosos (principalmente pelos efeitos especiais) de Victor Sjöström, incursão no fantástico sobre a lenda da "Carroça da Morte" e do seu condutor, o ser que morre na noite de São Silvestre.



Hoje, pelas 21h30, no Cine Solmar.

domingo, dezembro 04, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana:

. BEATS, RHYMES & LIFE: THE TRAVELS OF A TRIBE CALLED QUEST
. O QUADRO NEGRO
. RAMPART
. OS IDOS DE MARÇO
. UMA SEPARAÇÃO

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. BEATS, RHYMES & LIFE: THE TRAVELS OF A TRIBE CALLED QUEST (2011), de Michael Rapaport



Documentário íntimo sobre a carreira artística e dramas pessoais dos membros de uma das bandas hip-hop mais inovadoras e influentes da última década.



O contraste entre os dois "protagonistas" não poderia ser mais saliente: Q-Tip, que se adorna impecavelmente com lenço e chapéu, ostenta aquela imagem que todos imaginam de uma estrela musical em topo de carreira; quanto a Phife Dawg, com a barba por fazer e de saúde débil, é o retrato de um ser amargurado pela rivalidade e ausência de oportunidades profissionais no mundo do hip-hop.

Tal como é habitual nos filmes dedicados a artistas e/ou músicos, a obra criativa é sempre mais interessante que os seus percursos biográficos, e o realizador Michael Rapaport (actor nova-iorquino que aqui se estreia na realização) teria sido mais incisivo caso tivesse investido maior energia na análise e especificidades da música dos já lendários A Tribe Called Quest. Contudo, quando o filme concentra as suas atenções nos problemas de saúde de Dawg — a braços com um transplante de rim derivado de uma diabetes mal controlada —, o espectador é confrontado com as segundas intenções deste documentário: uma pesarosa reflexão acerca das vicissitudes do destino, que não poupa ninguém, nem mesmo aqueles que estiveram na eminência do sucesso mundial.

. O QUADRO NEGRO (2000), de Samira Makhmalbaf



Um grupo de professores, todos homens, atravessam os caminhos montanhosos de uma região remota do Curdistão Iraniano. Carregando grandes quadro negros às costas, viajam de aldeia em aldeia à procura de alunos.



Obra reveladora da inusitada maturidade de Samira Makhmalbaf (na época da sua produção, contava apenas vinte anos), equilibra um profundo teor humanista com o absurdo, quase surreal, extraído de situações verídicas para conceber um dos filmes mais cáusticos e simbólicos sobre a importância da educação para a formação do indivíduo.

O quadro negro do título surge como a representação de uma vocação docente literalmente transportada às costas que durante o filme, e nas suas especificidades social e geográfica, assume diversas encarnações: esperança de um futuro melhor, protecção física, dote matrimonial, estabilidade financeira, vida e morte. Filmado num estilo que se poderia apelidar de "cinema guerrilha" — uma expressão que ganha duplo sentido tendo em conta o quão difícil é fazer cinema no Irão —, o argumento ensaia também, e com sucesso, a observação do estado sócio-político pré-11 de Setembro do Médio Oriente, potenciando a reflexão e debate sobre estes e outros temas.

. RAMPART (2011), de Oren Moverman



Em 1999, no auge de uma gigantesca investigação a suspeitas de corrupção na LAPD, Dave Brown (Woody Harrelson), um veterano e irascível agente da polícia, procura assegurar, simultaneamente, o bom nome da sua profissão, o bem-estar da sua família e
a sua própria sobrevivência.



O talento de Woody Harrelson, capaz de exteriorizar impulsos internos de uma personagem em arrepiantes composições físicas como poucos, só é novidade para quem tem andado distraído nos últimos trinta anos. Paradoxalmente, e no caso agora em análise, esse potencial demonstra-se como o maior obstáculo à concretização de uma obra satisfatória: "vergando" o argumento em linhas narrativas paralelas, num interminável rol de personagens secundárias e dependendo do protagonista para o seu desenvolvimento, as suas intenções morais — mal definidas desde o início — não encontram espaço de manobra nem eco substancial no espectador.

Basicamente, é uma tentativa de refazer a velha história do polícia que trilha um percurso ambíguo entre a lei e o crime. Nesse âmbito, títulos como LIGAÇÕES SUJAS (1990, Mike Figgis), POLÍCIA SEM LEI (1992, Abel Ferrara) ou DIA DE TREINO (2001, Antoine Fuqua) são mais bem sucedidos. Todavia e em última instância, RAMPART, para além de óbvio paradigma das capacidades de Harrelson, augura Moverman (que assinou, em 2009, o interessante O MENSAGEIRO) como cineasta adequado para complexas histórias sobre as delicadas interacções da humanidade no seio de um quotidiano urbano e proporciona-nos um par de boas interpretações por parte de Ben Foster (inesquecível em apenas seis ou sete minutos de ecrã) e de Brie Larson, no papel da rebelde filha mais velha do protagonista.

. OS IDOS DE MARÇO (2011), de George Clooney



Um ambicioso assessor de imprensa (Ryan Gosling) vê-se envolvido num escândalo político que ameaça a possibilidade de ascensão à presidência do candidato (George Clooney) que representa.



Tímido exercício sobre a fealdade presente na moldagem de carreiras políticas e desumanização daqueles que vivem para e dos mecanismos inerentes a campanhas eleitorais, falha na pertinência de ambos os propósitos por não conseguir criar, em todo o seu esforço de sobriedade, uma genuína atmosfera intimidatória e que, em toda a linha underacting dos actores como suposta demonstração de realidade, transforma as personagens em meras figuras de retórica.

Sem a ironia de um BULWORTH — CANDIDATO EM PERIGO (1998, Warren Beatty), nem um modelo verídico de referência que suscite reflexão sobre os tempos modernos, tal como ESCÂNDALOS DO CANDIDATO (1998, Mike Nichols) fazia, e com a ausência da visceralidade propagandista de um Oliver Stone em topo de forma, Clooney dá-se por contente em escalonar uma série de vinhetas previsíveis — ainda vivemos numa época em que a figura da "estagiária" serve de metáfora a transgressão política? — que procura ser mais solene do que na realidade é. Restam aos seguros "bonecos" de Ryan Gosling e Philip Seymour Hoffman, e um conjunto de elementos técnicos estupendos no seu minimalismo, ornamentar um título indicado para o espectador neófito em cinema político.

. UMA SEPARAÇÃO (2011), de Asghar Farhadi



Quando Simin (Leila Hatami) decide pedir-lhe o divórcio, Nader (Peyman Moaadi) contrata uma jovem mulher (Sareh Bayat) para tomar conta do seu pai doente. Desconhecendo a gravidez da nova empregada, assim como o facto de ela trabalhar sem a permissão do marido, um confronto aparentemente inócuo entre os dois desencadeará uma teia de mentiras, manipulação e acusações.



Multipremiado no último Festival de Berlim (incluindo a atribuição inédita de um Leão de Prata para o elenco), UMA SEPARAÇÃO é um retrato sofisticado e emocional do Irão moderno de contornos e apelo evidentemente universais: a burocracia dos sistemas judiciais, o papel de cada género nos seios familiar e cultural, a luta social e o legado que cada indivíduo pretende transmitir aos seus descendentes são aqui esmiuçados, da primeira à última sequência, de forma complexa mas sem nunca resvalar para o dramatismo gratuito.

O principal "golpe de génio" do filme reside na opção de Asghar Farhadi em não criar empatia entre o espectador e as personagens: UMA SEPARAÇÃO é, em parte, um courtroom drama clássico, onde as alegações e motivações de todos os envolvidos são pertinentes, e a incerteza entre facto e suposição assombra cada movimento. Pelo meio, destaca-se a visão dos acontecimentos por parte da filha de onze anos do casal protagonista, a qual revelar-se-à, no devastador e irresoluto plano final do filme, como a principal figura desta história e símbolo da vontade humana (seja ela iraniana ou mundial) das gerações futuras. Obrigatório.

sábado, dezembro 03, 2011

Jukebox #25

(«Jukebox»: boa música e os videoclips mais criativos do ponto de vista cinematográfico).

. Lou Reed & Metallica, «The View»



Se dúvidas houvessem de que Lou Reed e Metallica poderiam ser sinónimo de harmonia musical, a objectiva de Darren Aronofsky atesta a pujança criada pela união de dois "monstros" do rock'n'roll mundial.

«The first time I heard 'The View' I was stunned. I had never heard anything like it. Half was all Lou. The other half all Metallica. It was a marriage that on the surface made no sense, but the fusion changed the way I thought about both artists and morphed into something completely fresh and new. I couldn't stop listening to it. Lou's crushing lyrics, and the band's incredible licks», ou os argumentos que inspiraram Aronofsky na concepção deste vídeo acabadinho de sair do "forno":



sexta-feira, dezembro 02, 2011

Hollywood Buzz #148

O que se diz lá fora sobre SHAME, de Steve McQueen:



«This is a great act of filmmaking and acting. I don't believe I would be able to see it twice.»
Roger Ebert, Chicago Sun-Times.

«How can visual pleasure communicate existential misery? It is a real and interesting challenge, and if SHAME falls short of meeting it, the seriousness of its effort is hard to deny.»
A.O. Scott, The New York Times.

«A mesmerizing companion piece to his 2008 debut, HUNGER, this more approachable but equally uncompromising drama likewise fixes its gaze on the uses and abuses of the human body, as Michael Fassbender again strips himself down, in every way an actor can, for McQueen's rigorous but humane interrogation.»
Justin Chang, Variety.

«Driven by a brilliant, ferocious performance by Michael Fassbender, SHAME is a real walk on the wild side, a scorching look at a case of sexual addiction that's as all-encompassing as a craving for drugs.»
Todd McCarthy, The Hollywood Reporter.

«The biggest surprise in SHAME is how distanced, passionless, and merely skin-deep the director's attention is — how little he cares about the subject of his own movie.»
Lisa Schwarzbaum, Entertainment Weekly.

quinta-feira, dezembro 01, 2011

#31



... segundo as palavras do Pedro Afonso, do blog Laxante Cultural:

Uma pequena introdução para explicar o critério de selecção destes filmes. Para mim, a criação de uma lista deste tipo serve apenas para definir o autor da escolha. Não são necessariamente os melhores filmes que eu já vi, mas são aqueles que mais me marcaram, por uma razão ou outra, no meu crescimento enquanto amante de cinema e posteriormente cinéfilo. Provavelmente estão aqui estes apenas porque os vi na altura certa, mas isso não invalida o facto de ser uma lista que acaba por definir a minha identidade enquanto cinéfilo, e, porque não, enquanto ser humano. Todos (excepto o último, já vão perceber porquê) são filmes a que volto de vez em quando, quanto mais não seja para reviver os momentos de descoberta de aspectos do cinema que todos eles me proporcionaram. Eis a lista...

1. REBECCA
(1940, Rebecca, Alfred Hitchcock)



Este filme (a par com CASSANDRA CROSSING de George P. Cosmatos, 1976) é a memória mais antiga que eu tenho de um momento em que um filme foi para mim a coisa mais importante do mundo. Saber como acabava, era tão urgente para mim como o ar que respirava, devorando cada cena do filme como uma pista, sentado na ponta da cadeira e deixando-me aprisionar pelo suspense. Deveria ter entre os 7 e os 9 anos quando os vi, nas sessões de cinema da RTP Açores, e nunca mais me esqueci das sensações que me despertaram. Está aqui este, porque dos dois é aquele que revi muitas vezes ao longo dos anos, descobrindo sempre novos pormenores que fundamentavam aquelas sensações. Quanto ao outro, hei-de voltar a ele um dia.

2. VEIO DO OUTRO MUNDO
(1982, The Thing, John Carpenter)



Foi o filme que (a par com AN AMERICAN WEREWOLF IN LONDON de John Landis, 1981) complementou aquelas sensações com outra ainda mais profunda: o medo. Foram ambos vistos poucos anos mais tarde nas mesmas circunstâncias, mas recordo como se fosse hoje o desafio de não querer perder nenhum segundo, lutando contra mim próprio para não desviar os olhos da televisão. Esse desafio, de me testar a ver cinema, é uma das bases da minha paixão por esta arte. Com o passar dos anos, o filme do Carpenter foi ganhando mais importância (principalmente com o aparecimento da versão de coleccionador em DVD, cujo making of é um dos melhores de sempre) por me aprofundar o interesse pelos aspectos técnicos por trás de um filme.

3. CASABLANCA
(1942, Casablanca, Michael Curtiz)



Não me lembro exactamente de quando o vi, mas este é um filme a que volto inúmeras vezes e que não perdeu a frescura da primeira. É um dos filmes que me definiu como um romântico, e cujo desfecho me despertou para o sacrifício que o amor implica. Além disso, é um filme perfeito em todos os aspectos, o que me dá um prazer enorme quando a ele volto.

4. A MOSCA
(1986, The Fly, David Cronenberg)



Foi o filme que me abriu os olhos para o conceito de autor. Vi-o no cinema com 13 ou 14 anos (nesta altura os filmes demoravam algum tempo a chegar a Angra do Heroísmo), e fez-me muita confusão ver um filme de terror que, mais do que me assustar, me inquietou. Querer perceber porque é que este era um filme de terror diferente de todos os que já tinha visto, foi o ponto de partida para uma viagem de descoberta que só acabará quando morrer. Além disso é uma estória de amor bizarra, em que o amor dá lugar à loucura. É sem dúvida o mais importante dos filmes desta lista para mim, e constará certamente de todas as listas que eu possa vir a fazer.

5. ASSALTO AO ARRANHA-CÉUS
(1988, Die Hard, John McTierman)



Só quem viu este filme no cinema, na altura da sua estreia, pode perceber a sua importância. Sendo um profundo conhecedor do cinema de acção da altura (de todos os Rambos e Comandos e afins), não estava preparado para a pedrada no charco que foi o ASSALTO AO ARRANHA-CÉUS. A cena da morte do Takagi abalou todos aqueles que procuravam divertimento num filme de acção e fez com que, no género, deixasse de haver personagens a salvo. Mais do que isso, este filme é perfeito em todos os aspectos, do argumento à realização, passando pelas interpretações ou pelos efeitos especiais. É um prazer absoluto e é um dos poucos filmes que comprei em todos os formatos (Vhs, DVD e Blu-ray) de cinema em casa por que já passou a minha vida de cinéfilo.

6. PSICO
(1960, Psycho, Alfred Hitchcock)



Outro filme que tenho em todos os formatos (em Vhs cheguei a comprar três edições diferentes). É, para mim, o mais perfeito dos filmes. Desde a concepção e as histórias de bastidores, às opções tomadas por Hitchcock no sentido de provocar reacções no espectador e que, passados mais 50 anos, continuam a resultar em cheio. É o poder da manipulação através da arte no seu estado mais puro, sem facilitismos e com enorme personalidade. Tudo no filme resulta e é brilhantemente executado, desde os facilmente reconhecíveis acordes musicais às imagens icónicas inesquecíveis.

7. MORRER EM LAS VEGAS
(1995, Leaving Las Vegas, Mike Figgis)



A par com LES NUITS FAUVRES (Cyril Collard, 1992), são histórias de amor reais e trágicas que têm como pano de fundo o desejo de auto destruição de uma das personagens principais. Mas se no filme de Collard esse desejo apenas precipitava uma inevitabilidade, no de Figgis nunca nos é dada uma razão válida que nos permita aceitá-lo. É a outra face da moeda para o sacrifício final de CASABLANCA, e um segundo despertar para a fatalidade que o amor encerra. Além disso, estes dois filmes são muito carnais e, talvez por isso, vertiginosos nas emoções.

8. SETE PECADOS MORTAIS
(1995, Se7en, David Fincher)



Um dos filmes mais maquiavélicos alguma vez escritos. O argumento de Andrew Kevin Walker, apesar de ser um dos mais inteligentes thrillers já filmados, não poupa ninguém. Todo o desenrolar da narrativa não nos prepara para um desfecho que, de tão horrendo, dificilmente esquecemos. O ritmo imposto por Fincher é milimetricamente perfeito (como sempre) e não há uma única falha a apontar na sua concepção e execução. É um daqueles filmes que me faz sentir muito pequenino enquanto artista em potência, e a que volto muitas vezes a ver se aprendo alguma coisa.

9. SACANAS SEM LEI
(2009, Inglorious Basterds, Quentin Tarantino)



Além de ser outro filme que eu considero perfeito, há um factor que faz com que apareça nesta lista: a irreverência e atrevimento com que, mesmo que apenas através da arte, seja colocada alguma justiça na história. Tarantino é provavelmente o meu realizador vivo predilecto, mas aqui excedeu todas as expectativas. Além do mais, apesar de ser um filme mosaico (muito ao seu estilo), no sentido de reunião de referências e de conciliação de diferentes estórias, nunca perde o seu objectivo e atrai-nos para um clímax que nunca suspeitámos ser possível. No fundo, naquele momento, numa sala de cinema, somos abruptamente atirados da realidade para a ficção enquanto Tarantino nos diz que quem manda aqui é ele. É preciso ter tomates.

10. CINEMA PARAÍSO
(1988, Nuovo Cinema Paradiso, Giuseppe Tornatore)



Este é um filme que entra na lista dos 10 filmes da minha vida de uma forma peculiar. Não é um dos filmes que mais gosto (pelo menos para estar nos 10 primeiros), nem um dos que me influenciou enquanto cinéfilo. NUOVO CINEMA PARADISO está aqui porque é esta a minha história, sem tirar nem pôr. Toda a minha infância, juventude e adolescência foi passada num cinema, o Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral em Angra do Heroísmo, que o meu pai geria. Foi ele o meu Alfredo e o grande responsável pela minha paixão pelo cinema. Conheci todos aqueles personagens, com outros nomes e rostos, mas com as mesmas atitudes e comportamentos. Também eu recolhia e guardava pedaços de película espalhados pelo chão da sala de montagem. Também eu fugia para a sala de projecção tentando perceber como toda aquela magia funcionava. A dada altura, até por lá passou um projeccionista chamado Salvador, como na fase adolescente do protagonista. E tal como no filme, tudo isto teve um final pouco feliz. Há pouco mais de um ano, também eu voltei a Angra para o funeral do meu Alfredo, e também fui espreitar a Fanfarra. Aquela sala, da qual guardo as mais gratas e inesquecíveis memórias, está hoje a céu aberto depois de um incêndio que a consumiu há alguns anos. Resta a parte da frente do edifício e a parte traseira, do palco. Aquela sala à moda antiga, com plateia e balcão e imenso ar para respirar, onde me formei como cinéfilo e ser humano, existe apenas nas minhas gratas memórias. A paixão, essa ficou. E já de cá não sai.

--//--

Obrigado, Pedro, pela tua participação!