segunda-feira, fevereiro 13, 2006

A VIDA NÃO É UM SONHO (2000), de Darren Aronofsky



Filme notabilizado, na sua data de estreia, pela crueza da abordagem aos temas e virtuosismo técnico, A VIDA NÃO É UM SONHO destaca-se pela imensidão de referências cinematográficas que ostenta, as quais, sem desdenharem a originalidade do projecto, permitem uma apreciação à parte do ponto fulcral deste título, nem que seja por um repetido mas sempre agradável visionamento.



Em A VIDA NÃO É UM SONHO, temos amostras do cerne da Escola de Montagem Soviética, nomeadamente o artificialismo de Dziga Vertov nas repetidas transições compostas pelo consumo dos vários vícios de cada personagem; temos referências a LARANJA MECÂNICA (1971, Stanley Kubrick) nas sequências de acções mundanas em imagem acelerada; temos aspectos temáticos reminiscentes de TRAINSPOTTING (1996, Danny Boyle) no que concerne ao tratamento dos efeitos da toxicodependência no ser humano; e, por fim, podemos deliciar-nos com os jogos de pormenores dignos de Lars Von Trier, ou seja, a presença simbólica da cor vermelha em algumas sequências e a sua total dissimulação/ocultação em todas as outras cenas.

Quanto ao filme propriamente dito, não deixa de possuir a sua elegância e mérito originais. E o que mais se destaca é o modo, inteiramente inusitado, de (tão bem) representar a mente humana sob o efeito do vício. E cabe a Ellen Burstyn (no papel de Sara Goldfarb, sem dúvida merecedor de todos os prémios que arrecadou ou para os quais esteve nomeado e perdeu para a Erin Brockovich de Julia Roberts) encarnar o processo de auto-destruição que a dependência irreflectida e inexplicável provoca. A sua transformação física e psicológica, ao longo dos 90 minutos de duração do filme, é da mais assombrosa e intimidativa de que há memória em cem anos de Cinema.



Quase que se poderia dizer que estamos perante uma obra em "estado de desgraça", mas tal seria afirmado com o melhor dos significados. Darren Aronofsky (agora ocupado a finalizar The Fountain, uma das obras mais interessantes dos tempos vindouros) é responsável por conseguir filmar "decadência" de forma tão vistosa e cativante, conseguindo incluir as já citadas referências a outros títulos incontornáveis. Mesmo as sequências mais repugnantes — o que equivale ao seu arrepiante clímax — merecem a nossa atenção relativamente aos métodos impecáveis de fotografia e montagem empregues. E quando tal sucede, tudo o resto traduz-se numa experiência cinematográfica de qualidade.

P.S.: E já agora, aproveitem para dar um salto ao originalíssimo site oficial do filme...

5 comentários:

S0LO disse...

Mas que GRANDE, GRANDE filme :)! É daqueles que faz o espectador pensar e muito!

Cumprimentos =)

brain-mixer disse...

Gostei muito do filme, mais na parte de argumento e construção de personagens. A montagem frenética e os efeitos à MTV estão interessantes, mas neste caso ajudam a contar melhor uma história de desgraça (e ainda bem!) Terá este Requiem o final mais infeliz da história do cinema?

Ah e se gostaram deste, vejam o SPUN, que tem o mesmo visual e o mesmo conteúdo, mas num olhar mais cómico e animador ;)

nuno disse...

e a OST com Clint Mansell e Kronos Quartet?!!!

Miguel Andrade disse...

Bem oportuno, e que delicia ver que o site oficial ainda está em pé! Fora o de Marte Ataca! e A.I., é o mais bacana sobre um filme...
abs fraternos

gonn1000 disse...

Um filmaço, é o que é!