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segunda-feira, novembro 01, 2010

THE RUNAWAYS (2010), de Floria Sigismondi



Nos princípios dos anos 70, o glam rock, marcado pela ambiguidade sexual dos seus principais músicos e inspirador de movimentos como o hard rock ou o punk, foi um período efémero mas culturalmente fértil. O mesmo se poderá dizer das The Runaways, conjunto formado em 1975 por adolescentes de 16 anos, pioneiras na tendência de bandas totalmente femininas, e em cuja breve existência Floria Sigismondi — realizadora que despertou a atenção do mundo ao assinar os videoclips de "The Beautiful People" dos Marilyn Manson, ou "Supermassive Black Hole" dos Muse — foi buscar inspiração para a sua primeira longa-metragem.

THE RUNAWAYS descreve, em síntese factual e temporal, o nascimento, ascensão e queda desta all-girl band, centrando-se, obrigatoriamente, nas duas controversas e proeminentes figuras da banda. E é aqui que o filme reúne a atenção dos espectadores, filtra a narrativa «baseada em factos verídicos" e transcende todas as expectativas.



Mais conhecidas pelas suas participações nos filmes da saga CREPÚSCULO, as "meninas" Dakota Fanning e Kristen Stewart (encarnando, respectivamente, Cherie Currie e Joan Jett) extravasam a imagem de teen movie stars que detêm, demonstrando coragem e maturidade invulgares em actrizes desta faixa etária, como para o risco de assumirem o carácter errático e quase amoral das suas personagens. Deste duo, Fanning ganha maior destaque, numa Cherie Currie que é tudo menos unidimensional. Desde a ingenuidade dos dias em que idolatrava David Bowie (ao ponto de imitar a maquilhagem ostentada pelo cantor na capa de «Aladdin Sane» para um concurso liceal de talentos) até ser fantasia erótico-musical proibida, a transformação nunca parece forçada. Kristen Stewart mostra-se uma escolha adequada, sobretudo fisicamente, para a recriação de Joan Jett — até as vozes de ambas são muito semelhantes...

Mas, curiosamente, o filme é dominado por (não me canso de utilizar esta expressão) essa força da natureza masculina que dá pelo nome de Michael Shannon (REVOLUTIONARY ROAD, HISTÓRIAS DE CAÇADEIRAS), enquanto Kim Fowley, o excêntrico produtor discográfico que engendrou a imagem que a História regista das The Runaways. A sua presença, vociferando todo o género de impropério e aplicando todas as tácticas de guerrilha possíveis e imagináveis para que as adolescentes abraçassem e liderassem uma revolução daquele particular zeitgeist, tem mais ritmo do que todas as sequências dos concertos ao vivo da banda e o filme, aparentemente, sofre quando o seu regresso ao ecrã demora a ser restabelecido.



Aplicando todo o seu "MTV background", Floria Sigismondi ensaia cada sequência como se estivesse a realizar vários videoclips e consegue, apesar disso, manter a coerência visual de THE RUNAWAYS. O trabalho de câmara representa, assim, um dos principais apelativos do filme, embora não disfarça o teor excessivamente melodramático do seu quarto de hora final. Sim, a queda de um "deus" (neste contexto, "deusa") do rock n' roll nunca é amparada por colchões macios, e nem o óbvio talento de Dakota Fanning consegue afastar THE RUNAWAYS do terreno desse chavão narrativo, anteriormente observado em inúmeros biopics musicais.

Enquanto vislumbre de uma época, a nível artístico e social, ainda desconhecida para muitos, o filme cumpre função pedagógica sem lacunas. Sem dúvida, um excelente acompanhante de VELVET GOLDMINE (1998, Todd Haynes), outra obra seminal acerca do glam rock.

[Destaque cinéfilo-musical da edição de Novembro da Yuzin São Miguel.]

quinta-feira, outubro 07, 2010

MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! (2009), de Werner Herzog



A certa altura — aliás, em várias alturas — da visualização deste MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! qualquer um pode sucumbir à perplexidade e murmurar «Meu Werner, Olha o Que Fizeste!». A pergunta é muito razoável, tendo em conta o que nos é apresentado: avestruzes galopantes, espadas samurais, mariachis, um par de flamingos baptizados de MacDougal e Macnamara e a súbita presença de um anão que até parece pertencer a uma produção de David Lynch.

Na verdade, pertence mesmo: Lynch ocupa aqui lugar de produtor executivo, e em MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! figuram colaboradores associados à sua carreira, como o produtor Eric Bassett ou os actores Willem Dafoe, Grace Zabriskie e Brad Dourif — este último também presente no projecto anterior de Herzog, POLÍCIA SEM LEI (2009), onde figura um alucinado Nicolas Cage. Michael Shannon, de olhos ocasionalmente esbugalhados, assume aqui as "honras" do louco de serviço, interpretando Brad, um retrato ficcional de Mark Yavorsky, estudante universitário de San Diego que, em 1979, esfaqueou a mãe até à morte com um sabre.

Trata-se uma história desoladora, de sangrenta insensatez, mas que não deixa de possuir interessantes ou significativas potencialidades cinematográficas. Infelizmente, a visão de Werner Herzog (e, em certa medida, a de David Lynch) não as encontrou.



Os detectives Havenhurst (Dafoe) e Vargas (Michael Peña) iniciam mais uma ronda matinal discutindo banalidades sobre café — uma evocação a TWIN PEAKS é quase inevitável... — quando são interrompidos por uma comunicação rádio que os conduz até ao bairro sossegado onde a mãe (Zabriskie) de Brad jaz morta, numa poça de sangue, na casa de uma vizinha. Quanto ao filho da falecida, rapidamente enclausura-se na sua própria casa com uma arma e dois reféns.

A história de Brad desenvolve-se através de intermitentes flashbacks, narrados pela noiva dele, Ingrid (Chloë Sevigny), e o director teatral responsável por uma nova versão de «Orestes» em que Brad participou, Lee (Udo Kier). Em vez do confronto entre o protagonista e a polícia, que se desenrola nos confins de uma rua banal, são as memórias fragmentadas de Ingrid e Lee que oferecem a Herzog o espaço criativo para imaginar o que aconteceu e porquê: são os momentos mais sugestivos e cativantes de MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! Exemplo disso é a sequência em que Brad, a sua mãe e Ingrid, durante um jantar pouco animado, ficam surrealmente imobilizados, num momento de inesperada mise-en-scène que transporta o espectador para o exercício da curiosa decifração do seu sentido.



MEU FILHO, OLHA O QUE FIZESTE! é um estranho puzzle de sequências como esta, mas nenhuma é apresentada o tempo ou em circunstância suficientes para suscitar qualquer emoção que não seja a curiosidade. Ao contrabalançá-las com personagens como a de Dourif, o tio de Brad que rezinga acerca de galinhas e cria avestruzes, Herzog parece almejar alguma insondável noção importante, ou um retrato psicológico de desequilíbrio, ou talvez esteja apenas a "matar" tempo, o que nem pode ser considerado como algo de totalmente negativo.

Avestruzes, note-se, constituem um objecto fílmico interessante, especialmente quando o filme as regista a abocanharem um par de óculos do bolso de um incauto visitante no rancho de Brad Dourif ou a correrem por uma estepe no meio de uma nuvem de pó. O que tudo isto tem a ver com um homem que assassinou a própria mãe permanece em mistério. Num produto talhado para a ausência de consensos, talvez seja essa a sua (única?) intenção...

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