terça-feira, julho 20, 2004

LINHA MORTAL



Hoje estou numa onda de nostalgia. Decidi rever um dos filmes de terror predilectos da minha adolescência: FLATLINERS (Joel Schumacher, 1990), em português, LINHA MORTAL.
Considerado nos dias que correm como um filme de culto, FLATLINERS foi, na sua época, uma obra de opiniões paradoxais e debates acessos, dos quais se destacam:

- Houve quem lhe atribuísse o epíteto de filme para adolescentes. "Para adolescentes?!". Sim, até que pode ser verdade, sobretudo se tivermos em conta o jovem elenco, estrelas pueris em ascenção do cinema norte-americano: Julia Roberts (ERIN BROCKOVICH), Kiefer Sutherland (24), Kevin Bacon (HOLLOW MAN), William Baldwin (SLIVER), Oliver Platt (BULWORTH). Mas o busílis reside no facto de o filme ser tudo menos uma história para adolescentes, já que lida com temas como a morte e a ética profissional (neste caso, a ausência dela), nomeadamente, da medicina;
- Relativamente à mise-en-scène, foi apelidada de "pedestre", com requisitos técnicos plagiados de outros filmes, tais como 2001 ou PESADELO EM ELM STREET. É um ponto de vista interessante, mas foi graças à realização e, acima de tudo, à direcção de fotografia de Jan de Bont (que 4 anos mais tarde se tornaria famoso ao realizar SPEED) que FLATLINERS açambarcou uma atenção me-diática tão significativa;
- Por fim, surgiram as (más) críticas relativamente ao argumento, passo a citar: "minimalista e com mais buracos que um queijo suíço". Contudo, está pejado de originalidade - nunca, até àquela altura, um filme se tinha debruçado sobre a ética dos praticantes de Medicina (ou melhor, dos seus estudantes) num tom predominantemente ameaçador e sufocante.

Servem estes parágrafos o propósito de se chegar a uma só conclusão: é um filme de qualidade que não deixa ninguém indiferente, seja pelo género, seja pelos temas em discussão. Para além disso, é notável a sinapse que é efectuada entre os perigos da experimentação clínica e a questão freudiana dos pecados não resolvidos na nossa vida. Ou seja, e segundo o filme, os que se sujeitam à experiência de, deliberadamente, fazer o seu coração parar até ao ponto de iminente morte cerebral e depois regressar, são perseguidos por feridas e erros do passado que nunca foram sarados ou resolvidos. E este é, sem dúvida, o mote fulcral de toda a história, a moral se preferirem.
Uma nota final para a interpretação que "rouba" o filme do primeiro ao último frame: Kiefer Sutherland, demonstrando toda a pujância que evidenciaria mais tarde em obras como A FEW GOOD MEN (Rob Reiner, 1992) e a série televisiva 24.    


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