sábado, outubro 08, 2005

IRREVERSÍVEL (2002), de Gaspar Noé



Não é fácil dissertar sobre um filme como IRREVERSÍVEL. Na verdade, estive parado à frente do monitor durante uns bons cinco minutos, pensando numa introdução.

Finalmente, e passados três anos desde a estreia desta obra, tive a oportunidade de ver o filme-choque de 2002, realizado por Gaspar Noé, com Monica Bellucci, Vincent Cassel e Albert Dupontel. É um filme que ainda não me saiu da memória, sobretudo devido ao amontoado de sentimentos contraditórios que sinto acerca do mesmo.

IRREVERSÍVEL é a história da vingança de Marcus (Cassel) e de Pierre (Dupontel) pela violação de Alex (Bellucci) às mãos de um proxeneta homossexual numa passagem subterrânea de Paris. O principal pormenor reside na forma como a história é narrada, ou seja, do fim para o princípio. Poderia parecer já um cliché, sobretudo se tivermos em conta que, apenas dois anos antes, já tinha estreado um filme que explorava, de sobremaneira, este mecanismo, MEMENTO (2000, de Christopher Nolan).

Mas é exactamente nesta opção de Gaspar Noé que se esconde a moral — se assim o poderemos apelidar — do argumento. Tal como afirmou o crítico Miguel Somsen, Ninguém merece o céu sem ter visitado os infernos. Por outras palavras, e seguindo agora a minha linha de raciocínio, a "moral" de IRREVERSÍVEL é a de que nunca devemos julgar ninguém, por mais cruéis e desumanos que sejam os seus actos.



Tal conclusão advém do facto de, mesmo no princípio (ou no fim) do filme, assistirmos ao "julgamento" do violador, o qual é espancado até à morte, sem apelo nem agrado, com um extintor, para mais tarde presenciarmos, impotentes, ao irascível consumar da violação. Estas duas sequências (longas, penosas e quase enojadoras) são as mais importantes do filme: elas mostram, primeiro, o efeito, e só depois a causa. Por isso, são filmadas de forma a que nada fique escondido — se não aguentarmos, temos de ser nós a fechar os olhos, nada nem ninguém o fará por nós.

De entre as centenas de críticas dedicadas ao filme, simplesmente não consigo encontrar uma que se adeque à minha opinião. Adjectivos como "misoginia", "pretencioso", "reaccionário" ou "politicamente incorrecto" não podem servir de rótulo para uma obra como IRREVERSÍVEL. É muito mais do que isso. É um filme que nos mostra os horrores e os perigos reais da vida, revelando o que de pior pode existir na espécie humana.

Não é um filme fácil de visionar. É um filme extremamente intenso. É um filme que ainda não me saiu da memória.

11 comentários:

brain-mixer disse...

Desculpa, não li toda a crítica já que estou para o ver em breve... ;) Mais tarde respondo!

S0LO disse...

Estou como tu...vi-o ontem á noite e nem sei o que dizer :S LOL! Mas lá violento e intenso é.

Cumps.

David Santos disse...

tb estive a ver na rtp.

não é um filme fácil

André Batista disse...

Tenho que o ver. Depois digo alguma coisa. See ya :)

Miguel Baptista disse...

É um filme geracional, isso é. Duro que nem pedra. Não me senti muito bem ao ver o filme, mas o impacto que o filme causou em mim, e a mensagem que me deixou fazem com que seja uma das obras mais pertubadoras e cruas a que já tive oportunidade de assistir. Não posso dizer que adoro, ou que detesto, posso apenas dizer que não é para toda a gente...

André Carita disse...

Apesar de achar que faz todo o sentido a forma como se filma durante praticamente todo o filme, com especial intensidade dentro do "Rectum", foi um filme que me impressionou bastante pela sua violência explícita e crua.

Vi-o no cinema e achei-o demasiado forte. A forma "enjoativa" como se filmou, juntamente com a música angustiante e os cenários sujos e escuros conseguiram um impacto exageradamente brutal!
Valeu pela primeira vez, mas não o voltarei a ver tão cedo...
Os meus cumprimentos!

Chris disse...

Interesting take on the film. Thanks for checking out my review as well.

Francisco Mendes disse...

O início do filme é das melhores experiências que já tive num filme, manipulação soberba da câmara, som agonizante, iluminação revolta, atmosfera opressiva. O filme permuta entre o Inferno e o Céu...
Numa palavra: Genial!

Lisbon disse...

finalmente uma critica positiva ao filme e em português de Portugal ja´no outro dia tinha perguntado ao brain-mixer se o k tinha achado do filme mas o CAMELO (tou na brinca edgar)nem tinha visto...
o final e´glorioso se tivesse visto no cinema teria aplaudido. A cena da violação fui muito crua n contei o tempo mas n a consegui ver toda de tão longa e CRUA k foi

BOM TRABALHO

brain-mixer disse...

Eh eh, o CAMELO responde:
Está na lista obrigatória de visionamento ABSOLUTO! Mas sabem como é, tantos filmes para ver e tão pouco tempo para eles!!

Nuno Cargaleiro disse...

Concordo com os aspectos que falas sobre a descrição, mas não concordo com a interpretação do mesmo... por exemplo... SPOILER, SPOILER, SPOILER: o presumivel violador que é morto logo no inicio, se verificares bem, não é o violador na realidade, é outro que fica a ver fascinado com a cena do homicidio... acho que o tema principal no filme é o TEMPO...

o Tempo destroi tudo... afinal, o que surge escrito no ecran no final do filme?