sexta-feira, fevereiro 03, 2006

BLOW-UP — HISTÓRIA DE UM FOTÓGRAFO (1966), de Michelangelo Antonioni



Quantos segredos pode uma singela imagem conter e esconder?
Este pode ser o tema predominante da primeira incursão de Antonioni pelo cinema de grande orçamento, contudo, BLOW-UP é uma obra aberta a ampla e variada interpretação.

A história de Thomas (David Hemmings), fotógrafo londrino que, para além da colaboração na elaboração de um livro sobre Londres e dedicação às inevitáveis (mas entediantes, na opinião dele) sessões fotográficas de moda, vê-se a braços com um intrigante caso de homicídio, após a revelação de fotos tiradas a um casl aos beijos, durante a fortuita visita a um jardim municipal. A insistência da rapariga retratada (uma jovem Vanessa Redgrave) em obter o rolo capta a atenção do jovem artista, decidido em averiguar os porquês de semelhante "desespero". Revelando e compondo todos os contornos da cena que presenciou, Thomas detecta, ampliação sobre ampliação — justificando o blow-up do título —, a possibilidade de ter presenciado mais do que um mero encontro amoroso. Realçando os vários pormenores do ambiente circundante, ele consegue distinguir um vulto escondido entre arbustos, de arma na mão, e numa fotografia posterior, a irrefutável prova do crime... confirmada pela visão, no local, do cadáver do homem que estava com a rapariga.

O maior sucesso de crítica (Palma de Ouro em Cannes, nomeações para os Óscares de Melhor Realizador e Argumento Adaptado) e de bilheteira da carreira do realizador transalpino — facto espantoso para um filme que ostenta contornos filosóficos tão obscuros —, BLOW-UP distingue-se, maioritariamente, pelo exímio trabalho de câmara, imprevisível nos movimentos que efectua e inigualável no constante jogo de esconder/revelar pormenores que ecoam o tema da história narrada perante os nossos olhos. Um exemplo principal desta técnica é a sequência da sessão fotográfica conduzida por Thomas com as cinco modelos; dos planos de filmagem, da disposição dos adereços no estúdio e do guarda-roupa (da autoria de ) envergado pelas raparigas depende a nossa compreensão da cena e seu respectivo significado: o poder da ilusão artística contido na captação de imagens, sejam elas fixas ou em movimento.



A própria escolha estilística de realização aponta, constantemente, para uma série de simbolismos que quase obrigam o espectador à sua permanente codificação — um esforço inútil, já que nunca surge qualquer género de resolução no final do filme. Tal é evidente nas sequências das viagens de automóvel de Thomas; na forma como Antonioni filma a Londres em constante urbanização e cedência aos ritmos e vivências dos finais da década de 60; na preocupação geométrica dos planos em profundidade; nas cenas do bar onde tocam os The Yardbirds, etc. Todos estes aparentes pormenores forçam a concentração do espectador, alcançando o feito de nunca o aborrecer apesar da narrativa ser caracterizada por uma lenta fluidez.

Outro aspecto técnico de realce, indispensável para a total assimilação de BLOW-UP, é o som do filme. Desde a monótona sonoridade do vento a roçar nas folhas das árvores do jardim (no momento em que o casal é fotografado à socapa), e a sua inquietante presença no estúdio de Thomas durante a revelação das fotografias referentes àquela cena, culminando na explosão de ruído em duas sequências onde a música é protagonista (Hemmings e Redgrave a "partilharem" o ritmo de Herbie Hancock e nas cenas no clube nocturno), o baque de bolas de ténis numa cena em que não as vemos, tudo aponta para uma simbologia inerente ao filme, a qual até pode ser falsa no seu contéudo.



A derradeira sequência reforça o sentimento de estarmos perante um objecto cinematográfico que pretende, apenas, dissertar sobre a capacidade artística de iludir o próximo: após uma nova deslocação ao jardim, Thomas descobre que o cadáver já lá não se encontra e entrega-se à fantasia de um jogo de ténis disputado por mimos, para depois "desaparecer". Esta conclusão serve para constatar a intenção de Antonioni provar, acima de tudo, o mundo falacioso que rodeia o chamado "profissional liberal" — um tema abordado pelo realizador em títulos como DESERTO VERMELHO (1964) e PROFISSÃO: REPÓRTER (1975). No entanto, permanece a inexpugnável hipótese de outras interpretações, igualmente válidas e enriquecedoras para um filme imperdível.

1 comentário:

Hugo Alves disse...

Antes do mais, cumpre dar os parabéns por tão bom post.

Permito-me dar algumas achegas: a tagline de Blowup levanta a ponta do véu sobre o filme: sometimes reality is the strangest fantasy of them all.

Eis o leit motiv corporizado pelas inesquecíveis cena do parque. Se num primeiro momento temos apenas o acto de fotografar de um improvável casal, vimos a saber que há úm mistério por resolver. Ante a impossibilidade de resolver o homícidio (sonho? realidade?) a personagem de David Hemmings acaba por aderir ao ténis mental dos mimos. Mas, mais do que o próprio David Hemmings, é Antonioni que adere, pois a dada altura, para além do som da bola, a câmara também segue os movimentos desta.
Um filme sobre a vida moderna e a consequente forma de estar do Homem em sociedade, que pode ser ser sumariada na letra da canção dos Yardbirds: "Strollin'on cos it's all gone".
Trata-se de uma forma metafórica de descrever a vida moderna: o perfeito vazio, onde as personagens de Antonioni se movem sem rumo (os constantes passeios de carro do fotógrafo). Dito de outro modo: estamos perante o mais perfeito retrato da crise do modernismo e o advento da pós-modernidade (em sentido não lyotardiano). É o corolário do conjunto de 4 filmes protagonizados por Monica Vitti: L'Avventura, La Notte, L'Eclisse e Il Deserto Rosso.

Filosófico (o conceito de arte de Kant está no filme), polémico, mas, acima de tudo, um exemplo maior do Cinema.

Cumprimentos cinéfilos,

PS - apesar da lenta fluidez da narrativa, David Hemmings, com os seus tiques nervosos e súbitas movimentações, é magnífico a conferir vivacidade ao enredo. Uma interpretação inexcedível e inesquecível.