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quarta-feira, janeiro 30, 2013

Fevereiro na Cinemateca Portuguesa



RETRATOS DE INFÂNCIA segundo John Ford, Vittorio de Sica, Sam Wood, Jean Renoir, Volker Schlöndorff, Francis Ford Coppola, Steven Spielberg, Tim Burton, Albert Lamorisse, Jacques Demy, Frederick Wiseman e Nagisa Oshima. Entre muitos outros.

Programação completa.

sexta-feira, junho 29, 2012

TWIXT (2011), de Francis Ford Coppola



Hall Baltimore (Val Kilmer), escritor de histórias de fantasmas em crise financeira e criativa, viaja até a uma pequena cidade para uma sessão de autógrafos. Durante a sua estadia, trava conhecimento com a investigação do homicídio de uma jovem rapariga e, num sonho, é abordado por uma jovial fantasma chamada V (Elle Fanning), a qual pode ter alguma ligação ao crime.



Antes de Coppola ser sinónimo de O PADRINHO (1972), O VIGILANTE (1974) ou APOCALYPSE NOW (1979), o realizador assinara, em 1963, uma curiosa peça de terror chamada DEMENTIA 13, produzida por Roger Corman (o "rei do B movie") e cujo argumento, confuso e imperfeito, estava pejado de melodrama gótico e imaginativas sequências de horror.

Tal facto é mais do que um simples pormenor. Nesta sua nova etapa artística, onde o cineasta procura executar apenas projectos intrinsecamente pessoais e com total liberdade criativa, TWIXT pode ser quase compreendido como um requintado e íntimo regresso às origens e, pessoalmente, já é dos principais guilty pleasures a que pude assistir este ano.

O argumento é desequilibrado, os efeitos visuais capitalizam mais o 3D do que a atmosfera e as personagens vão do inconstante ao cabotino. Contudo, TWIXT possui uma quantidade de texturas sub-repticiamente escondidas na aparente "manta de retalhos" que tece ao espectador. Para além de apresentar um realizador sem medos de acirrar o seu estatuto perante crítica e audiência, envereda pelo terror que deve mais à série THE TWILIGHT ZONE do que a Stephen King — a quem o filme parece homenagear e parodiar —, brinca com todo o romance "delicodoce" que domina a ficção vampiresca moderna, permite a onírica aparição de Edgar Allan Poe (Ben Chaplin, exemplar no seu scene-stealing) e o "fantasma" principal do argumento (em óbvia referência à morte trágica do seu filho Gian-Carlo) representa um dos toques mais pessoais da carreira de Coppola.

TWIXT está longe de alcançar o "desfecho infalível" que o protagonista procura para o seu novo romance, mas demonstra um Francis Ford Coppola juvenil, quiçá a exorcizar alguns demónios, e pronto para qualquer futuro desafio cinematográfico.

quinta-feira, agosto 18, 2011

#20



... segundo a Sofia, do blog Cine 31:

Estes desafios são sempre bem-vindos... mas... complicados. Resumir listas de filmes que ADORAMOS a um número limitado é sempre uma tarefa árdua.

Depois de muito reflectir, eis a minha lista (a ordem é totalmente aleatória):


1. A LISTA DE SCHINDLER
(1993, Schindler's List, Steven Spielberg)



Por ser a história do triunfo de um homem brilhante no meio de um dos episódios mais tristes da História contemporânea. Porque Steven Spielberg conseguiu misturar de forma sublime: violência, horror e generosidade. Pela fotografia a preto e branco de Janusz Kaminski.

2. TRAINSPOTTING
(1996, Trainspotting, Danny Boyle)



Porque é o retrato de um grupo de jovens deprimidos, desiludidos e angustiados, envoltos numa sociedade preconceituosa, hipócrita e sem rumo. Aborda a amizade e a degradação dessas mesmas relações. Satírico e intemporal. Uma menção honrosa à FABULOSA banda sonora.

3. A PAIXÃO DE CRISTO
(2004, The Passion of the Christ, Mel Gibson)



Não e fácil justificar a escolha deste filme... São motivos demasiadamente pessoais e íntimos. Fui vê-lo à sala de cinema 5 vezes, e de todas as vezes, emocionei-me. Histórico, revolucionário, violento, provocador. O filme está repleto de cenários sombrios — harmonizados por uma incrível banda sonora. A fotografia de Caleb Deschanel faz-me pensar que o filme é a representação cinematográfica de um quadro de Caravaggio. Um destaque para o olhar inimitável que Maia Morgenstern dá a Maria. E um obrigado a Mel Gibson pela mestria em criar a personagem/metáfora andrógina do(a) Diabo.

4. TRILOGIA O SENHOR DOS ANÉIS
(2001, 2002, 2003, The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, The Lord of the Rings: The Two Towers, The Lord of the Rings: The Return of the King, Peter Jackson)



Digo muitas vezes que não tenho religião, tenho mitologia. Mitologia esta que é habitada por super heróis da Marvel, da DC Comics e sobretudo pelo mundo criado e imaginado pelo incrível John Ronald Reuel Tolkien. Como fã dos livros, temia o dia em que o filme ganhasse vida. A adaptação ao cinema era demasiadamente arriscada, e das duas uma, ou seria um fracasso ou transformava-se em algo épico. Graças aos Deuses, para mim Peter Jackson foi um génio — talvez por também ele, ser um fã de Tolkien consegue transmitir paixão e magia. Os cenários são de cortar a respiração, as batalhas são inesquecíveis, a caracterização e guarda-roupa invencíveis. Jackson teve na tecnologia um aliado e na fotografia de Andrew Lesnie uma arma secreta. Sim... a trilogia para mim é "homérica". Resta esperar pela peça chave — o Hobbit.

5. FORREST GUMP
(1994, Forrest Gump, Robert Zemeckis)



Sim... para muitos, Forrest Gump não é mais do que um filme patriótico e um elogio do cinema aos EUA. Eu sinceramente adoro-o. Acho-o precioso. Tom Hanks é imbatível e Gary Sinise um toque sublime ao enredo. Na sua simplicidade, ternura e até inocência, Robert Zemeckis criou um filme que é uma ode ao amor pela vida. O argumento de Eric Roth é esplêndido. É para mim um "mimo" do cinema.

6. WATCHMEN — OS GUARDIÕES
(2009, Watchmen, Zack Snyder)



Hesitei entre o 300 e THE DARK KNIGHT para o número 6 (Samuel: que forma subtil foi esta de colocar mais dois filmes na lista). Optei por WATCHMEN. Ora se existe uma graphic novel — sagrada e quase intocável — WATCHMEN, escrita por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons, é uma delas. O risco de uma adaptação ao cinema não era grande, era enorme, mas Zack Snyder conseguiu. No filme temos o mesmo cenário alternativo, maduro e pouco superficial que os "livros" nos mostraram. A narrativa é sombria, violenta, realista e actual. Os heróis, são também "anti-heróis", têm problemas comuns, amam, odeiam, traem... A fasquia das adaptações ficou elevada a um valor máximo. Snyder é surpreendente e numa palavra: visionário.

7. TRILOGIA O PADRINHO
(1972, 1974, 1990, The Godfather, The Godfather: Part II, The Godfather: Part III, Francis Ford Coppola)



Se existe coisa que gosto de observar num filme é a luz. E que brilhante trabalho teve Gordon Willis. Planos detalhadamente pensados, longos e cheios de significado — repletos de violência, mas que não é de todo, usada de forma gratuita.

Marlon Brando é brutal. A sua forma de falar, a forma como mostra os sentimentos é de uma maestria incontornável.

Coppola criou dezenas de cenas memoráveis, por vezes assustadoramente reais e violentas. Sempre que os vejo/revejo fico com um sentimento dúbio de achar que a máfia pode ser boa e cruel ao mesmo tempo... mas... como gosto deste "sentimento duplo".


8. BEN-HUR
(1959, Ben-Hur, William Wyler)



Nunca perco uma oportunidade para ver este épico do cinema. Na época da Páscoa ou Natal espero sempre ansiosamente que o repitam mais uma vez na televisão. É um espectáculo cinematográfico — uma das primeiras produções em grande escala.

Acho genial o facto de Ben-Hur ter como pano de fundo da sua narrativa a história de Jesus Cristo. Jesus aparece várias vezes no filme — sempre de costas — e com quem a personagem principal do filme, Judah Ben-Hur, se cruza em momentos emocionantes do filme.

Sejamos religiosos ou não, fãs de História ou não, uma coisa é incontornável — BEN-HUR é GIGANTE.


9. DE OLHOS BEM FECHADOS
(1999, Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick)



Considero-o uma obra de arte de Kubrick. Repleto de momentos lentos e introspectivos, mostra uma sociedade que de perfeição tem muito pouco. Não é mais do que um mundo de aparências.

A cena da festa/orgia é — para mim — uma das mais brilhantes da história do cinema, mas os diálogos entre Cruise e Kidman não lhe ficam atrás. Em EYES WIDE SHUT mergulhamos num mundo em que se discute sonhos e realidades – brilhantemente envolto numa máscara narrativa pouco convencional, hipnótica e deslumbrante. É um filme com a "medida certa".


10. AMÉRICA PROIBIDA
(1998, American History X, Tony Kaye)



Em primeiro lugar duas palavras — Edward Norton — como ele é fantástico neste filme... para mim, a melhor interpretação da sua carreira (até hoje).

Mais do que um excelente filme, é uma lição de vida. Mostra como o ódio por aqueles
que são diferentes de nós é desnecessário e fútil. Os
flashbacks entre presente e passado (brilhantemente relembrados a preto e branco) são brilhantes. De uma violência extrema, é uma história sobre a humildade, sobre o racismo, e sobre a amizade. Sobre um mundo real e actual. Defendo que o seu visionamento devia ser obrigatório nos planos curriculares de algumas disciplinas. É imperdível e marcante pela mensagem que transmite.

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Obrigado, Sofia, pela tua participação!

sábado, junho 25, 2011

#14



... segundo o Francisco Rocha, do blog My One Thousand Movies:

1. BLADE RUNNER — PERIGO IMINENTE
(1982, Blade Runner, Ridley Scott)



2. JOHNNY GUITAR
(1954, Johnny Guitar, Nicholas Ray)



3. A DESAPARECIDA
(1956, The Searchers, John Ford)



4. ESTRADA PERDIDA
(1997, Lost Highway, David Lynch)



5. A SEDE DO MAL
(1958, Touch of Evil, Orson Welles)



6. HENRY: A SOMBRA DE UM ASSASSINO
(1986, Henry — Portrait of a Serial Killer, John McNaughton)



7. DO FUNDO DO CORAÇÃO
(1982, One From the Heart, Francis Ford Coppola)



8. STALKER
(1979, Stalker, Andrei Tarkovsky)



9. A HORA DO LOBO
(1968, Vargtimmen, Ingmar Bergman)



10. ACONTECEU NO OESTE
(1968, C'era Una Volta il West, Sergio Leone)



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Obrigado, Francisco, pela tua participação!

terça-feira, abril 26, 2011

#6



... segundo a opinião e palavras do Miguel Lourenço Pereira, do blog Cinema — A Arte em Movimento:

1. DO CÉU CAIU UMA ESTRELA
(1946, It's a Wonderful Life, Frank Capra)



Já devo ter visto este filme umas 20 vezes e a cada visionamento descubro algum delicioso detalhe novo que sempre me espanta. George Bailey é, para mim, a personagem perfeita e o filme que culminou a maravilhosa colaboração entre Capra e Stewart consegue ser uma verdadeira fábula cinematográfica repleta de sequências de uma força emocional que Hollywood nunca mais repetiu.

2. A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES
(1958, Vertigo, Alfred Hitchcock)



Há algo em Vertigo que me faz perder a cabeça. É o único filme que tem direito a um quadro no meu escritório porque olhar para aquele poster cor de laranja evoca o que de melhor se fez na história da 7ª Arte. A loucura de Dali, o voyeurismo de Hitchock, o espirito perturbado de Stewart, o corpo de Novak, as ruas de S. Francisco... nada falha aqui.

3. QUANTO MAIS QUENTE MELHOR
(1959, Some Like It Hot, Billy Wilder)



Wilder é o cineasta mais humano que conheço porque é o único que no mesmo filme é capaz de mesclar o lado mais obscuro com o lado mais divertido do Ser Humano. Talvez The Apartment esteja uns furos acima, mas o ritmo frenético de Some Like it Hot e a explosão interpretativa de Jack Lemmon fazem-no algo verdadeiramente especial.

4. A DESAPARECIDA
(1956, The Searchers, John Ford)



O filme que define o western da mesma forma que In the Mood define o Jazz. Não são as paisagens, é a cor. Não é John Wayne, é a dor de um olhar destroçado. Não é o ritmo épico, é o olhar profundamente marcado pelo futuro de um país. Ford fez muitos filmes perfeitos, mas nenhum tanto como este.

5. MILLION DOLLAR BABY — SONHOS VENCIDOS
(2004, Million Dollar Baby, Clint Eastwood)



Culmina a carreira do único cineasta pós-1960 que pode ombrear com os grandes. Eastwood tem essa suavidade que faz de qualquer filme seu uma experiência terapêutica. Como actor é melhor em Gran Torino ou Unforgiven, mas a aura que rodeia cada milimetro de frame de MDB é inatingivel na sua filmografia.

6. GATA EM TELHADO DE ZINCO QUENTE
(1958, Cat on a Hot Tin Roof, Richard Brooks)



Se o Cinema fosse sexo, seria Cat on a Hot Thin Roof. A sede de sexo que emana do olhar de Liz Taylor, a questionada sexualidade do amputado Newman, a impotência do brutal Ives conjugam-se naquela que é talvez a mais certeira adaptação teatral ao cinema. Um filme que não me canso de rever.

7. MATAR OU NÃO MATAR
(1950, In a Lonely Place, Nicholas Ray)



Sempre tive um imenso fascinio pelo cinema noir, talvez pelas horas perdidas entre as obras de Chandler e Hammet. Daquela vaga de brilhantes filmes de low budget nenhum me soube captivar tão bem pela sua intensidade como o explosivo In a Lonely Place, um filme que define verdadeiramente uma era.

8. LAWRENCE DA ARÁBIA
(1962, Lawrence of Arabia, David Lean)



O deserto sempre despertou um especial fascinio nos homens do verde ocidente e nunca nenhum o soube captar com tanta certeza como David Lean. Os olhos azuis de O´Toole, as vestes brancas de Lawrence e a imensidão perdida da Arábia transformam a longa experiência que é seguir Lawrence of Arabia num sacrificio que vale bem a pena.

9. O SENHOR DOS ANÉIS — O REGRESSO DO REI
(2003, The Lord of the Rings: The Return of the King, Peter Jackson)



Perdi as contas às vezes que me deixei render pela perfeita recriação da Terra Média que Jackson desenhou com régua e esquadro. The Return of the King é o culminar da mais impecável trilogia da história do cinema, uma saga que é precisamente cinema antes de ser literatura e que utiliza todos os truques cinematográficos para levar o espectador para outra dimensão. Sublime homenagem à obra literária do século passado.

10. O PADRINHO
(1972, The Godfather, Francis Ford Coppola)



Apesar de todos gostarem de Brando, para mim The Godfather é Pacino, o mais completo actor da Nova Hollywood. Não só na segunda toma mas essencialmente na sua sombria transformação de herói de guerra a capo mafioso. O olhar de Pacino dita o ritmo a que se vai movendo, lentamente, e com trilha sonora à altura, o mundo dos Corleone. Um clássico.

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Obrigado, Miguel, pela tua participação!

terça-feira, abril 19, 2011

#4



... segundo a opinião e palavras do João Bizarro, do blog CANTINHO DAS ARTES:

1. À BEIRA DO ABISMO
(1946, The Big Sleep, Howard Hawks)



Exemplo perfeito do film noir.

2. VELUDO AZUL
(1986, Blue Velvet, David Lynch)



Bizarro.

3. O PADRINHO
(1972, The Godfather, Francis Ford Coppola)



Porque foi o primeiro dos três e aquele que deu a conhecer ao mundo do cinema a família Corleone.

4. L.A. CONFIDENCIAL
(1997, L.A. Confidential, Curtis Hanson)



O melhor film noir dos tempos modernos.

5. INTRIGA INTERNACIONAL
(1959, North by Northwest, Alfred Hitchcock)



Numa lista dos filmes da Minha Vida tinha de surgir um do mestre. E este é dos melhores dele.

6. HÁ LODO NO CAIS
(1954, On the Waterfront, Elia Kazan)



A excelência ao serviço do cinema. Guião, direcção, representação.

7. ERA UMA VEZ NA AMÉRICA
(1984, Once Upon a Time in America, Sergio Leone)



Divinal.

8. OS SETE SAMURAIS
(1954, Shichinin no samurai, Akira Kurosawa)



Outro mestre da 7ª arte que deve figurar em qualquer lista dos melhores.

9. CREPÚSCULO DOS DEUSES
(1950, Sunset Blvd., Billy Wilder)



Um dos maiores clássicos de sempre. Visão aterradora da própria industria cinematográfica.

10. EL
(1953, El, Luis Buñuel)



Uma obra prima do mestre do expressionismo.

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Obrigado, João, pela tua participação!

sábado, janeiro 22, 2011

Iniciativas Conjuntas #3

Sem hesitação nem pretensiosismo, afirmo que a comunidade blogger cinéfila é uma das mais dinâmicas em Portugal. Segue um exemplo.

A convite do Roberto Simões, autor do CINEROAD — A Estrada do Cinema, fui desafiado a enunciar cinco filmes que considero serem obras-primas incontestáveis, tendo como critério principal o meu gosto pessoal. Assim, estas foram AS INCONTESTÁVEIS do Keyzer Soze's Place:

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obra-prima, s. f.
1. Obra primorosa, perfeita, das primeiras no seu género.
2. A melhor obra de um autor.



. RASHÔMON — ÀS PORTAS DO INFERNO (1950), de Akira Kurosawa

«Grande responsável por abrir o Cinema Japonês ao mundo ocidental e o meu filme favorito de Kurosawa. Narrativamente revolucionário, a opção de analisar um crime pela perspectiva dos quatros protagonistas, gerando quatro versões totalmente diferentes, é o toque seminal desta obra que hoje cativa espectadores da mesma forma que os atraía há 60 anos. A fotografia é uma das mais inovadoras da história da Sétima Arte e está para surgir o filme que não beba inspiração a RASHOMON. Por fim, as fabulosas interpretações de Toshiro Mifune e Machiko Kyo, de enorme profundidade psicológica, que transformam as suas personagens em objectos de imprevisibilidade e decepção ao longo de todo o filme.»

. 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968), de Stanley Kubrick

«Quem me conhece, sabe que esta escolha era obrigatória... :) Possuidor, simultaneamente, das imagens e ideais mais hipnóticos que o Cinema já testemunhou, o filme de Kubrick arrebata pela sua abordagem realista à ficção-científica, expõe tremenda tensão pautada apenas pelo som dos aparelhos de respiração usados pelos astronautas e o seu argumento metafórico, à mercê de diversas interpretações, é exímio na capacidade de nos transformar a todos em "espectadores emancipados".»

. TEMPOS MODERNOS (1936), de Charles Chaplin

«Enquanto principal figura da pantomima no Cinema, Chaplin exibe aqui um magnífico tour-de-force performativo (que, por si só, justificaria o estatuto de obra-prima), explorando temáticas que nunca pareceram tão actuais como hoje e tem um dos finais mais belos de sempre. A comédia, um dos primeiros géneros da Sétima Arte, é brilhantemente tratada com o drama e romance presentes no argumento e, enquanto cinéfilo, quem poderá resistir ao facto de se ouvir, pela primeira vez, a voz do Little Tramp? Inesquecível.»

. O ÚLTIMO ANO EM MARIENBAD (1961), de Alain Resnais

«Talvez o "filme cinematográfico" por excelência. Resnais investiga os mistérios da memória, contando uma história quase banal recorrendo à mais arrojada narrativa não-linear (realidade, fantasia e especulação romântica conseguem fundir-se numa única cena, monólogos interiores ecoam pelos corredores do palácio onde a acção acontece) e de uma fulgurante direcção de fotografia que reflecte os sentimentos e as emoções do casal protagonista. Tudo é possível em MARIENBAD... excepto não ficarmos presos ao ecrã.»

. APOCALYPSE NOW (1979), de Francis Ford Coppola

«Nenhum título, antes ou depois, conseguiu representar tão eficazmente aquele velho ditado «a guerra é um inferno». Mas Coppola vai mais longe, e aqui a guerra não é um, é O inferno. A angústia do ser humano num conflito incompreensível expressa-se pela audácia, assombro — a fotografia é exímia em suscitar estados de espírito — e apelo às nossas convicções pessoais que as imagens provocam. Para além disso, ninguém mais ouvirá do mesmo modo a Cavalgada das Valquírias depois de ver este filme.»

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Nota: não deixem de visitar o CINEROAD, onde podem visualizar surpreendentes e diversificadas escolhas por parte da blogosfera cinéfila portuguesa.

Obrigado, Roberto, pelo convite!

terça-feira, dezembro 01, 2009

TETRO (2009), de Francis Ford Coppola



Coppola afirmou, no último Festival de Cannes, que este é o filme mais pessoal da sua carreira. Observando TETRO por esse prisma, é tentador depreender que grande parte da sua filmografia possui cunho autobiográfico. Ódios paternos e fraternos, passados traumáticos, segredos, mentiras e rivalidades familiares, todos estes motes já figuravam, sobremaneira, na trilogia O PADRINHO (1972, 1974, 1990) ou em JUVENTUDE INQUIETA (1983), apenas para citar títulos em que o realizador mais destacou as "relações de sangue".

A principal diferença reside na (desejada) ausência de imperativos comerciais dos grandes estúdios norte-americanos — um dilema que sempre pareceu assombrar o cineasta —, o que eleva TETRO a uma das obras mais emocionalmente intensas do ano e reveladora de que Coppola, firmando um percurso com mais de 30 anos, uma última "década errante" e o saldo menos positivo de UMA SEGUNDA JUVENTUDE (2007), está de volta à sua melhor forma e ainda vai a tempo de fazer o género de filmes que sempre desejou produzir.



A história não é inteiramente original, mas cativa pela sua índole mesclada de sobriedade e realismo mágico, quase invocadora do estilo literário predominante em autores sul-americanos. Talvez por isso, não será de admirar que TETRO decorra em Buenos Aires, onde Bennie (interpretado pelo estreante Alden Ehrenreich, que lembra, a espaços, um jovem Leonardo DiCaprio) acidentalmente retoma contacto com o irmão mais velho, Angelo (Vincent Gallo). Ambos são filhos de Carlo Tetrocini (Klaus Maria Brandauer), um famoso maestro, mas de mães diferentes.

Descobrimos que Angelo (auto-rebaptizado como Tetro) foi, em tempos, um prometedor romancista cujo sucesso estancou por um período de insanidade e pelas constantes recordações do relacionamento amargo que nutriu com o pai. Resistente ao establishment, aqui encarnado por uma promotora cultural chamada Alone (Carmen Maura, em semblante "tenebroso"), decidiu refugiar-se num bairro degradado de Buenos Aires, onde se apaixonou por Miranda (Maribel Verdú) e refugiou-se junto de um peculiar grupo de secundários. O reencontro entre os dois irmãos vai suscitar no Tetrocini mais jovem o desejo de clarificar não só o seu passado, como também o de Angelo, num confronto de resultados emocionais surpreendentes.



Quando termina, permanece a ideia de que o filme assume, como principal intenção, a dissecação do significado de «regresso às origens». Não só o retorno ao passado íntimo dos protagonistas, como também ao da própria Sétima Arte através do formalismo de Coppola, que filma TETRO a preto e branco — não foi nesta "paleta" que o Cinema se apresentou ao Mundo? —, reservando a cor para uma esporádica série de flashbacks, relativos ao argumento, aparentemente registados em película de 16mm. Um conceito de génio, permitam-me a afirmação, visto serem dois formatos em completo desuso mas marcantes na história da cinematografia.

Impossível, também, não destacar a escolha de Vincent Gallo para encarnar o protagonista homónimo do título. Tanto aqui como em trabalhos anteriores do actor italo-americano [veja-se O FUNERAL (1996), de Abel Ferrara, ou o seu próprio BUFFALO '66 (1998)], é raro encontrar um performer, nos dias que correm, que consiga demonstrar simpatia sincera e raiva latente em cada sequência — o último grande "perito" nesse talento foi, na minha opinião, Marlon Brando. A sua presença, em TETRO, é constantemente dominada por esta dualidade e vale, para além de tudo o acima descrito, o preço do ingresso.
No meu top 10 de 2009, sem reservas.

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