sábado, outubro 15, 2005

JFK (1991)
(ou AS 4 RAZÕES PORQUE NÃO ME INTERESSA SABER QUEM REALMENTE MATOU KENNEDY, PREFERINDO VER O FILME PELOS SEUS VALORES ARTÍSTICOS)



A 22 de Novembro de 1963, o Mundo nunca mais foi o mesmo. Esta é a data do assassinato do presidente John F. Kennedy e ainda hoje, apesar de todas as comissões e reaberturas de inquéritos que investigaram os factos, permanece a sensação de que não se descobriu toda a verdade sobre o que se passou em Dallas naquele dia. Em Dezembro de 1991, Oliver Stone mostrou ao nosso mundo a sua versão dos acontecimentos, num filme memorável e considerado por muitos como um dos melhores dos anos 90.

Quando o vi pela primeira vez, o tema da conspiração entusiasmou-me imenso, ao ponto de procurar toda a informação existente, no nosso país, sobre o assunto. Agora que a idade da ingenuidade passou e com o advento da Internet, é possível ler uma série de artigos e sites dedicados a expôr Stone como um "mentiroso" e "manipulador de imagens" (duas listas completas das incongruências históricas do filme podem ser encontradas aqui e aqui também). Com o requintar dos meus sentidos cinematográficos, hoje advogo a teoria de que este é um filme imprescendível para qualquer cinéfilo, sobretudo pela quantidade de lições na arte de filmar que se podem encontrar neste JFK. Passo a explicar.

Primeira razão
Desde o início, o que mais chama à atenção do espectador é a forma como Oliver Stone escrutina, de forma quase alucinante e alucinada, todos os aspectos do assassinato de Kennedy. Para tal, o realizador fez uso duma série de técnicas, uma mistura de imagens em widescreen, arquivos históricos, reportagens de televisão, preto e branco, slow motion, encenações de acontecimentos verdadeiros, flashbacks, o filme de Zapruder, entre outros.
o Zapruder film

Segunda Razão
A montagem de Joe Hutshing e Pietro Scalia, galardoada com um Oscar, trabalha em função de um autêntico filme de propaganda política. Sergei Eisenstein, na sua teoria da montagem, já referia a importância da ligação (ou sobreposição) de imagens na transmissão de crenças ou ideais de cariz governativo e, por consequência, influenciando o modo de pensar do Homem. Neste caso, Stone utiliza a técnica para nos "envenenar" os sentidos.

Numa cena crucial, na qual Kevin Costner, encarnando o Promotor Público Jim Garrison, especula sobre todos os pormenores que provam ter havido uma conspiração para matar Kennedy, somos obrigados a direccionar a nossa meditação para a bala que produziu o controverso «Efeito da Bala Mágica». No seu monólogo, Costner afirma que nenhum projéctil, após ter infligido 7 feridas em dois indivíduos, poderia ter ficado tão pristina. No ecrã, vemos a bala classificada como prova pela Comissão Warren intercalada com a imagem de outra bala, semi-desfeita, após ter sido disparada para o braço de um cadáver. Com esta estratégia, pretende-se deitar por terra a teoria de uma bala que ziguazeguou entre duas vítimas do atentado. Esta cadência de informações é um dos exemplos perfeitos de como aliar imagem e diálogo na promoção de uma ideia. E isto é puro Cinema.
Garrison critica a Bala Mágica

Terceira Razão
Um dos aspectos mais importantes para um filme é a sua banda sonora, e JFK não é excepção. Para mais, sabendo que quem tem a batuta na mão é John Williams. Seja no tema inicial, cujo tom bélico implica, de imediato, o suposto envolvimento do complexo militar-industrial americano no assassinato de Kennedy, até à ameaçadora e cadente composição que acompanha todas as sequências em que se planeia o atentado, a música é um aliado precioso para a atmosfera produzida por Oliver Stone.

Quarta Razão
De forma a explanar a maior quantidade de informação, Stone permitiu a si mesmo a liberdade de condensar algumas personagens numa só. Começando por Garrison (algumas das suas conclusões e questionários foram obtidos por outros depois dele), até Willie O'Keefe (Kevin Bacon), aquela que melhor ilustra isto é a impersonada por Donald Sutherland, o "Mr. X". Inspirado no Tenente-Coronel L. Fletcher Prouty, personalidade que, até à sua morte, proferiu uma série de afirmações que alimentou a imaginação e a dedução de muitos pesquisadores do assassinato. O mesmo acontece em JFK - a sequência com esta personagem é, sem dúvida, a mais importante do filme, já que permite expôr as verdadeiras forças por trás do atentado, como também pretende convencer-nos, pelo aspecto sábio e autoritário de Sutherland, de que tudo o que é dito é a mais pura das verdades...
Garrison e «Mr. X»

Dito isto, não fica qualquer resíduo de interrogação quanto ao poder manipulador de JFK. No entanto, e este é um argumento de que faço "finca-pé", a autêntica força desta obra é o trabalho visual, quase prestando homenagem ao carácter primitivo do Cinema, época em que os esforços eram todos orientados para a construção de algo estimulante para os sentidos. Por esse prisma, JFK tem sucesso a todos os níveis. Quanto à verdade sobre os factos históricos, já não me importa muito. Deixo isso com os investigadores e para quem escreve a História.



Tal como a morte de Kennedy alterou radicalmente o Mundo em 1963, JFK faz o mesmo, desde o seu primeiro visionamento, para a forma de ver o Cinema.

5 comentários:

brain-mixer disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
brain-mixer disse...

Boa análise! Essas razões de ver o filme são as correctas, onde eu reafirmo o estatuto de Stone pelas conspirações, o seu trunfo entre os outros realizadores. Agora, fica a pergunta depois deste teu post: Será que Stone vai voltar com as polémicas e conspirações políticas no seu projecto 9|11?

Barney Gumble disse...

Excelente filme que se desenrola à volta de uma teoria que faz todo o sentido de existir. Quanto ao blog.. tem o nome do vilão do melhor filme de sempre (IMHO).. and poof! Just like that, he's gone...

S0LO disse...

Excelente análise. Ainda tenho que ver este filme.

Abraços

Francisco Mendes disse...

Representa Oliver Stone no seu melhor... quem sabe se o projecto 9/11, reanimará o seu talento maior...