segunda-feira, fevereiro 19, 2007

A Má Educação (2004), de Pedro Almodóvar



Com este filme, é visível que Almodóvar – presentemente, o nome maior na definição do "cinema de autor" europeu – não pretendeu redefinir a sua visão cinematográfica. Estamos perante uma sucessão dos formalismos visuais do cineasta, e não emprego o termo "formal" por acaso. Longe vão os tempos do surrealismo e excesso próprios do castelhano, adjectivos que caracterizaram obras como A LEI DO DESEJO (1987) e ATA-ME (1990), e que conheceram o seu resquício final no subestimado EM CARNE VIVA (1997).

Em A MÁ EDUCAÇÃO, presenciamos a história de Ignácio, actor esforçado e escriba de um conto autobiográfico, "A Visita". Nele, o protagonista narra as experiências passadas no colégio católico que frequentou em criança – uma temporada marcada pelo assédio do director religioso da escola, a omnipresente filosofia política do regime de Franco, a indispensável descoberta da vida, do seu corpo e da (homo)sexualidade. Enrique, cineasta e o amigo íntimo de Ignácio nessa mesma escola, oferece-se para adaptar a versão filmada do conto, uma vontade que desencadeará o obrigatório regresso às suas infâncias e ao que os dois viveram juntos naquela época.



Depois de um período criativo centrado nas mulheres (TUDO SOBRE A MINHA MÃE e FALA COM ELA, no quadro do "cinema feminino", são duas obras incontornáveis nos últimos dez anos), Almodóvar optou por utilizar, como narrador e alter-ego, a figura quase andrógina de Gael Garcia Bernal – um dos actores latinos mais prestigiados do momento. Apesar disso, não escapamos à perspectiva feminina dos personagens tão querida por Almodóvar. Por exemplo, Ignácio recria-se, no conto que escreve, na pele de um travesti.

Apresentando uma viagem nostálgica ao passado – na estreia, subentendeu-se que é baseada na infância de Almodóvar –, o realizador espanhol testa, mais uma vez, os limites do conservadorismo do espectador, através de uma abordagem, desprendida de complexos, aos temas da homossexualidade, do transvertismo e da pedofilia. Além disso, Almodóvar continua a infundir, nas suas películas, o espectro da repressão nas vidas humanas, seja ela física ou psicológica, numa permanente alusão ao recente passado histórico da Espanha enquanto factor determinante de uma cultura e de um povo.



No cômputo geral, A MÁ EDUCAÇÃO é uma obra diferente, mas nem por isso distinta, na carreira de Pedro Almodóvar. O cineasta procura, incessantemente, imprimir ao filme uma miscelânea de emoções, produzindo assim um objecto cinematográfico de melodrama incondicional e inflexível. E o resultado final "roça" apenas o suficiente.

Contudo, nem tudo são más notícias. Visto à distância, A MÁ EDUCAÇÃO constitui, provavelmente, um prelúdio de regresso ao brilhantismo patenteado no mais recente trabalho do realizador, VOLTAR (2006). Sinal disso mesmo é o regresso às críticas favoráveis, aos prémios e às nomeações sonantes (Penélope Cruz é candidata ao Óscar de Melhor Actriz Principal, e o próprio Almodóvar poderá arrecadar a estatueta pelo argumento).

Qualquer artista tem o direito à improvisação. O único senão reside em saber que é curta a distância entre uma boa e má mudança de direcção. Almodóvar é rebelde e não teme, portanto, o risco. Quem sabe, consequência de uma má educação...

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