terça-feira, junho 26, 2007

Apocalypto (2006), de Mel Gibson



Se existe alguma certeza relativamente à curta lista dos filmes que "assinou", é a de que Mel Gibson não teme, enquanto cineasta, o risco. A servir de perfeito exemplo temos este APOCALYPTO, uma obra impressionante a todos os níveis e a derradeira confirmação do talento de Gibson atrás da câmara.

"Vou arrancar-lhe a pele e deixar que ele me veja a vesti-la". Esta macabra ameaça é enunciada por um dos vilões de APOCALYPTO, mas nunca mostrada. No entanto, os espectadores que partilham da propensão para a violência e gore tão ao gosto do realizador não ficarão desapontados, já que todas as formas existentes de tortura física não permaneceram esquecidas. Somos testemunhas de degolações, empalações e golpes para todos os gostos. Corações, ainda a palpitar, são arrancados de peitos abertos. A face de um homem é devorada por um jaguar. Outro morre com o pescoço perfurado por setas venenosas. E o mais perturbador será a visão de uma vala comum repleta de cadáveres decapitados, numa provocante alusão à imagética do Holocausto.

A violência tornou-se no motor central da actividade de Mel Gibson enquanto cineasta, assim como no seu tema e interesse estético predilectos. A brutalidade em APOCALYPTO é tão extrema e irrepreensível que quase se podia pensar estarmos perante um tipo de comédia grotesca, mas defini-la redutoramente como excessiva ou gratuita seria penalizar, de forma injusta, Gibson. E diga-se o que se disser dele — desde os seus problemas com o alcoolismo até às acusações de anti-semitismo —, o homem sabe como fazer um filme.



Para além da perspectiva histórica ou da sua contextualização no género do filme "de fugitivos", o que mais ressalta em APOCALYPTO é o seu modelo de economia narrativa, exibindo o argumento de modo claro e possante. E apesar de as personagens falarem em dialectos Maias (demonstrando a tendência de Gibson em trabalhar histórias com "línguas mortas", após A PAIXÃO DE CRISTO), é fabuloso observar como o filme se insere confortavelmente nos mecanismos do cinema comercial. Não é uma "ópera cinematográfica" ao estilo de FITZCARRALDO, de Werner Herzog, aproximando-se mais dos universos de GLADIADOR ou BRAVEHEART.

O filme situa-se na América Central, antes da chegada dos conquistadores espanhóis, quando o Império Maia já se encontrava num irreversível processo de decadência. O conflito da história é entre um pequeno grupo de indivíduos, esforçados em levar uma existência simples, pacífica e tradicional e uma civilização maior, de contornos políticos, motivada pela corrupção e violência. No meio deste cenário, acompanhamos Pata de Jaguar (Rudy Youngblood): a partir do momento em que é capturado por mercenários Maias para servir de sacrificado aos deuses, a sua única preocupação será o filho e a esposa grávida que deixou para trás — razão pela qual enceta uma das fugas cinematográficas mais excitantes dos últimos anos.

Talvez para atrair o público menos receptivo a uma história desenrolada num ambiente semi-desconhecido da História, Gibson não receia o uso de uma parafernália de clichés — o slow-motion; personagens em poses ameaçadoras a olharem directamente para a câmara; o salto impossível do topo de uma cascata — que transformam a experiência de APOCALYPTO num testemunho da obra de um autor hábil e absolutamente original.



No meio de tanta pormenor visual, ainda temos a possibilidade de assistir ao brilhantismo dos actores quase amadores, nomeadamente o protagonista (Rudy Youngblood) e um vilão tão inteligente e perigoso quanto detestável (Raoul Trujillo, mais conhecido pela sua anterior participação em O NOVO MUNDO, de Terrence Malick)

E, no fim de contas, APOCALYPTO é um excelente objecto de entretenimento. Existe a tendência, nos dias que correm, de classificar Mel Gibson como um monstro ou um génio. Será ele um louco ou um visionário? Deveria ser abandonado ou abraçado? Censurado ou perdoado? Talvez todas estas sejam as questões erradas para definir o cineasta, mas há algo que nenhuma opinião poderá disfarçar: estamos perante um entertainer, e por mais estranhas que sejam as suas opções, Gibson ganhará sempre publicidade e dinheiro.

2 comentários:

Mauro disse...

Como grande fã de Mel Gibson, adorei este Apocalypto! No princípio estava um pouco receoso com a introdução do filme, mas depois absorveu-me por completo.

Anónimo disse...

O filme é sobre esperança - a esperança que os espanhóis (que hoje em dia estão irreconhecíveis em termos de moral) trouxeram para a civilização decadente e totalitária que fazia sacrifícios humanos para agradar a poucos (qualquer semelhança com a campanha atual a favor do aborto para "melhorar" a saúde pública NÃO é mera coincidência. Gibson é simplesmente genial em sua sutileza. Genial, quer os donos do oscar queiram ou não.....