terça-feira, setembro 25, 2007

Birth — O Mistério (2004), de Jonathan Glazer



Imaginem uma trilogia (cinematográfica, literária ou de outra expressão artística) cujo primeiro volume possui uma aura de mistério suficientemente adequada para vos prender a atenção, a segunda parte prossegue e adensa essa característica e, no derradeiro capítulo, tudo é deitado a perder por uma conclusão que não foi capaz de ser tão arrojada quanto a sua premissa.

Assim é a estrutura narrativa de BIRTH, um conto de contornos góticos realizado por Jonathan Glazer (SEXY BEAST, 2000).

A sequência inicial será, provavelmente, das melhores tours de force da presente década. Acompanhando o genérico (decorado pela magnífica e intimidante banda sonora de Alexander Desplat), vemos o vulgar jogging de um homem, a sua face imperceptível, através do Central Park. Ao entrar no túnel de uma ponte, cai subitamente fulminado por um ataque cardíaco. A sua esposa, Anna (Nicole Kidman), só demonstra sintomas de recuperação dez anos depois, em vésperas de retomar a sua vida profissional e prestes a casar-se novamente.



A orla de mistério patenteada no genérico persiste durante toda a duração de BIRTH, nomeadamente quando Sean (Cameron Bright), de 10 anos, confessa ser a reincarnação do homem (também se chamava Sean) que morreu no parque, deixando a vida de Anna num limbo de incerteza e angústia. As palavras do rapaz parecem confirmar o fenómeno sobrenatural, ao mesmo tempo que descortinam pormenores pouco morais da existência do falecido...

Por vezes, o filme parece encaminhar-se para a surpreendente revelação final ou tornar-se numa versão encapuçada de GHOST - O ESPÍRITO DO AMOR. Pelo contrário, BIRTH não esconde que o interesse dos seus responsáveis é de cariz psicológico e não paranormal. Os argumentistas Milo Addica (MONSTER'S BALL - DEPOIS DO ÓDIO, 2001), Jean-Claude Carriére (possuidor de uma longa carreira e várias colaborações com Luis Buñuel e Roman Polanski) e o próprio Glazer estão mais preocupados com a atmosfera em detrimento de explicações minimamente plausíveis para o enigma que conjuraram. Prova disso, é a sóbria paleta cromática de BIRTH, da responsabilidade de Harris Savides, a qual imprime um fulgurante tom de sépia que, por vezes, sugere o ligeiro desfoque das personagens.



As interpretações são credíveis, nomeadamente se tivermos em linha de conta a normal perplexidade que o conceito de "reincarnação" suscitaria em qualquer indivíduo inserido numa cultura ocidental. Nicole Kidman e Cameron Bright estão em plano de destaque, e a mais "badalada" sequência do filme (na qual os dois tomam banho partilhando a mesma banheira) é tratada com a devida elegância, não restando dúvidas de ser ajustada ao material narrativo aqui tratado.

Contudo, não consigo deixar de lamentar a pobre resolução de BIRTH. Longe do twist surpreendente, caracteriza-se mais por ser inconsistente com a maioria dos factos e/ou emoções anteriormente expressas. Num filme já apelidado de Art-House Hit, por uma vez teria sido agradável que se reduzisse nas preocupações formais. Tornaria BIRTH numa obra única e sedutora em todos os aspectos.

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