segunda-feira, setembro 17, 2007

A Face Oculta de Mr. Brooks (2007), de Bruce A. Evans



A FACE OCULTA DE MR. BROOKS sustenta uma curiosa mistura de cinema popular com obra intelectual. Apesar desta contradição, ou talvez por causa dela, o filme funciona na perfeição. Não custa, portanto, apelidá-lo de thriller tenso e envolvente, aquele tipo de película onde o espectador sente-se desconfortável porque o protagonista é, também, o antagonista e do qual é impossível não gostar por ser tão lúcido.

O Mr. Brooks do título (Kevin Costner) acaba de ser nomeado o Homem do Ano de Portland. Sem que ninguém suspeite, ele é igualmente o «Assassino do Polegar», um periódico serial-killer que vem aterrorizando a cidade. Earl Brooks não mata há dois anos, mas o desejo homicida, inflamado pelo seu demoníaco alter-ego Marshall (William Hurt), é demasiado intenso. Assim, após deixar a esposa (Marg Helgenberger) em casa após a cerimónia da sua nomeação, Earl faz uma incursão nocturna pelo seu passatempo secreto. Desta vez, Earl comete um erro incaracterístico: as cortinas da janela do quarto das suas vítimas estavam abertas no momento crucial, e um mirone vizinho (Dane Cook) fotografa tudo. A partir daqui, tudo vale: uma tentativa de extorsão pouco convencional, a perseguição policial por uma intemporal Demi Moore e um esquema de homicídio imprevisível a encerrar o filme.



Um dos melhores pormenores (embora não original) de A FACE OCULTA DE MR. BROOKS é a forma como se balança as duas caras da personalidade de Earl. Kevin Costner é a faceta racional, inteligente e dominante. William Hurt ostenta o aspecto amoral e animalista da personagem. Na maior parte do tempo, Earl controla os seus actos, mas há ocasiões em que as aparições de Marshall detêm um poder impossível de ignorar. E a interacção entre os dois actores é deveras fascinante: embora os seus diálogos decorram na mente do protagonista, o realizador Bruce A. Evans decide dramatizá-los, suspendendo o tempo à volta de Earl e Marshall e colocando-os em plano de destaque. Esta opção poderá parecer pouco credível à partida, mas não demora muito para que o espectador "alinhe" no ritmo do filme.

O argumento projecta alguns obstáculos inesperados ao percurso de Earl. A personagem assume-se tão meticulosa que parece ser impossível capturá-la, a menos que ela assim o deseje, e essa possibilidade é explorada. É interessante notar que, não obstante o seu comportamento brutal, Earl é a personagem mais empática do filme. A opção de dividi-lo em duas figuras — Marshall é o vilão e Earl a alma torturada que mata por vício — torna possível detectar o conflito do filme, ou seja, quem amar e quem detestar: Earl é o marido ideal, o pai extremoso e profissional de sucesso; Marshall é a "criatura do mal" que espreita nas sombras, sequiosa de sangue e caos (na verdade, Hurt é sempre filmado de modo a parecer fantasmagórico e predatório).



Existem muitos condimentos para tornar este MR. BROOKS numa receita para o êxito. As interpretações são infalíveis, desde o pacato indivíduo com uma tenebrosa vida dupla construído por Costner [o seu melhor desempenho desde UM MUNDO PERFEITO (Clint Eastwood, 1993)] ao diabólico retrato de Hurt; apenas a detective de Demi Moore "sofre" com uma personagem escassamente explorada. Há, também, o vislumbre do chocante twist final: embora o "truque" surja quase gratuitamente, serve na perfeição o seu propósito. E perante uma obra mais interessada em ilustrar a complexidade da mente humana, a abordagem visual é definitivamente visceral: as sequências de acção são emocionantes e plausíveis, os homicídios são sangrentos (numa ocasião, roça o extremamente gráfico), há sexo e nudez, o susto de criar "arrepios na espinha" também marca presença. E, para terminar, somos brindados com um macabro sentido de humor.

Em forma de conclusão, deixo apenas um ambicioso repto pessoal: este A FACE OCULTA DE MR. BROOKS contém todos os adjectivos necessários para lutar pelos grandes prémios de Cinema deste ano. A compará-lo com outra obra, não me custou salientar o exemplo de O SILÊNCIO DOS INOCENTES (1991) — no seu tempo, rotulado de filme que explorava, de forma fácil, a violência e a perturbação psiquíca.

O quê? Encontraram alguma coincidência?

1 comentário:

Izzi disse...

Como tu, também gostei bastante deste filme e também achei piada ao facto de Brooks ser uma personagem bastante empática, não obstante ser um assassino frio. Por acaso não me passou pela cabeça compará-lo a qualquer outro filme..
Além de Kostner, gostei mesmo de William Hurt - irrepreensível, de resto como a maioria das suas prestações, na minha singela opinião.
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