quarta-feira, outubro 24, 2007

Marie Antoinette (2006), de Sofia Coppola



A História está repleta de nomes que, irremediavelmente, viveram na época errada e, mesmo assim, deixaram uma marca indelével para os anos vindouros. Marie Antoinette, soberana no período que antecedeu à Revolução Francesa, é um desses casos. E MARIE ANTOINETTE, o filme, não esconde a pretensão de explorar o fenómeno da "inadaptação histórica". Não espanta que, para uma narrativa relativa ao século XVIII, a banda sonora seja composta do mais puro new wave musical dos anos 80, como «I Want Candy», dos Bow Wow Wow, ou «Plainsong», dos The Cure.

Kirsten Dunst personifica a típica adolescente desejosa de evasão e gozo. Aos 14 anos, casa-se com o também jovem e futuro rei Luís XVI (Jason Schwartzman), na que se tornou a "cláusula fundamental" de uma aliança política entre as famílias reais francesa e austríaca. Não tarda a submissão à pressão de mudar-se para um país e cultura diferentes — nem o cãozinho de estimação tem permissão para atravessar a fronteira —, assim como a cedência a longos rituais monárquicos e a obrigatória (mas polémica) concepção de um herdeiro ao trono francês.



Ao nível do conceito, Sofia Coppola cria uma obra com imagens sumptuosas mas mais interessada na observação do íntimo das personagens, intercalando sequências de monólogos interiores e descrição de cartas escritas pelos intervenientes históricos do contexto de MARIE ANTOINETTE. Nem mesmo a recriação da coroação de Luís XVI ou dos bailes reais se sobrepõe ao poder das emoções humanas.

Apesar do toque de modernismo impresso ao filme, tanto na abordagem ao tema como na escolha da banda sonora — e saliente-se a curiosa e deliberada inserção, numa cena, de um par de sapatilhas Converse —, não existe aqui a intenção de elaborar comparações sociais entre aquela e a nossa época. Se estivessemos inclinados para relacionar o formato de MARIE ANTOINETTE com alguma expressão cinéfila contemporânea, rapidamente invocaria os filmes de adolescentes. Esta é a história de uma rapariga, rebelde e inadaptada, em busca de felicidade e pouco mais se poderá absorver deste título.



Requinte e anacronismos à parte, o aspecto menos satisfatório em MARIE ANTOINETTE será, provavelmente, o seu argumento. Um dos episódios dominantes no filme é a descrição do impacto, na corte francesa, do atraso dos jovens reis em consumar o casamento. A certa altura, fica-se com a sensação de que esse é o plot point do filme. A sua resolução mostra-se igualmente decepcionante. A inépcia sexual do casal desaparece com a intervenção de José I da Áustria, para a qual recorre a uma singular comparação entre o acto carnal e mecanismos de fechaduras — infelizmente, não nos é permitido ouvir o diálogo, no que bem poderia ter sido o momento mais espirituoso do filme.

Por isso, a intenção de "biografia" resume-se à apresentação episódica da vida de uma figura histórica — e evitam-se os mais icónicos, tais como a decapitação de Marie Antoinette. O filme é bonito, fluente e alegre, mas sempre incapaz de tornar a protagonista num emblema de sobrevivência ou referência para a juventude dos nossos dias. Reitero: é o retrato de alguém que nunca se adaptou à realidade que assistiu.

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