segunda-feira, outubro 08, 2007

Monster's Ball — Depois do Ódio (2001), de Marc Forster



Uma história sobre ódio, intolerância, perda, contraste social e comportamento humano atípico, MONSTER'S BALL atinge a proeza de também ser um filme dedicado a duas almas gémeas que se unem no seio do contexto mais improvável: Hank (Billy Bob Thornton) e Leticia (Halle Berry). Ele é o chefe dos guardas do "Corredor da Morte" de uma penitenciária na Georgia, ocupado com os procedimentos da execução, por electrocussão, de Lawrence (Sean Combs); ela é a esposa do condenado Lawrence, uma mulher alcóolica, afogada em dívidas, mãe de uma criança padecente de obesidade mórbida e constante lutadora num cenário social pouco favorável a cidadãos de cor.

O caminho dos dois cruza-se quando o filho de Leticia é gravemente ferido por um atropelamento. O destino reserva que seja Hank, não obstante o racismo que herdou do pai (Peter Boyle), a transportar a criança para o hospital, a qual não sobreviverá, mais tarde, aos ferimentos. Este evento não deixa de encontrar ressonância na vida de Hank, cujo filho (Heath Ledger) comete suicídio em plena sala de estar da sua casa. Aparentemente imperturbável — afinal de contas, Hank confessa o ódio que sempre sentiu pelo filho antes de este premir o gatilho sobre si —, a personagem de Thornton demite-se do emprego, adquire uma estação de serviço e inicia um caso amoroso com Leticia.



O relacionamento entre os dois protagonistas é o motor de MONSTER'S BALL, num confronto de personalidades intrincadas que tornam a visualização deste filme numa experiência igualmente difícil. O crédito vai, sobretudo, para o ritmo bonançoso imposto pelo realizador Marc Forster (mais tarde, aclamado pelo seu À PROCURA DO TERRA DO NUNCA) e intenso trabalho de (des)focagem do director de fotografia Robert Schaefer, os quais criam um ambiente tenso e latente constituído por remorsos, raiva e medo.

No final, o filme pertence aos actores, nomeadamente Billy Bob Thornton e Halle Berry (galardoada, em 2002, com o Oscar de Melhor Actriz por este título), mas também para o largo elenco secundário, com destaque para Sean Combs (ou Puff Daddy, como é mais conhecido), Heath Ledger e a estrela de hip-hop Mos Def.



As personagens, e os laços que se desenvolvem entre elas, são demasiado complexas para serem descritas por palavras, e os argumentistas de MONSTER'S BALL utilizam-nas parcamente. Esta economia e a eloquência de Forster em criar imagens de beleza reprimida dão ao filme uma densidade só vista na vida real. A intimidade crua de algumas sequências — sejam as que decorrem num restaurante, na penitenciária ou num quarto — é impressionante, mesmo para os padrões do cinema independente norte-americano.

Este realismo sugere a raridade da qualidade desta obra, a qual, em duas ou três ocasiões, sugere que estamos a testemunhar existências verdadeiras e não a ver um argumento filmado. A tão badalada "cena tórrida" entre Thornton e Berry é exemplo disto mesmo, cuja composição transmite emoções tão díspares como sofrimento e desejo, ao mesmo tempo que transforma o espectador num inesperado voyeur. A sequência mereceu toda a atenção que lhe dedicaram na altura — é, simultaneamente, o ponto de viragem e o clímax de MONSTER'S BALL.

1 comentário:

Anónimo disse...

Ora, cá está um filme a merecer 5 Estrelas. Quem nunca o viu não ficará indiferente à torrente de emoções poderosas que o destino vai traçando nesta desgraça Americana. Inesquecível é também a impetrante Halle Berry a suplicar : I want to feel good ; make me feel good. Damn : Aquela é uma das cenas mais poderosas do cinema moderno.
JNAS