segunda-feira, novembro 12, 2007

Planeta Terror (2007), de Robert Rodriguez



No conjunto da homenagem aos filmes de série B dos anos 60 e 70 que é o projecto GRINDHOUSE, foi possível observar duas facetas distintas do género, as quais reflectem, em última instância, as duas visões peculiares e inconfundíveis do duo de cineastas envolvidos.

À PROVA DE MORTE atestou a fluida verborreia de Quentin Tarantino, comprovando simultaneamente a sua cultura geral acerca deste estilo semi-amador que alimentou a sua cinefilia pré-fama. E depois temos PLANETA TERROR, mais do que objecto de revisionismo cinematográfico, o veículo apropriado para Rodriguez desenvolver a sua característica história de «sangue, suor e lágrimas» sob a égide de um cenário desolador, servida em película riscada e saltitante, com uma banda sonora imediatamente aditiva, e a inconveniência da "bobina desaparecida na sala de projecção" não retira nenhum do gozo aqui garantido.



Tal como tem sido hábito nos produtos de Robert Rodriguez, a lógica do argumento é sempre o elo mais fraco: PLANETA TERROR é acção e atmosfera constantes. Cherry Darling (a fenomenal Rose McGowan, interveniente na intro mais poderosa do corrente ano), bailarina sensual num bar manhoso, decide abandonar a profissão e dar um novo rumo à sua vida. Atitude louvável, mas que ocorre na pior das circunstâncias. Devido a uma intriga de contornos militares, todos os habitantes daquela pequena cidade são expostos a um gás químico que os transforma, na melhor das descrições, em zombies sequiosos por carne humana.

Neste contexto, tudo é permitido em PLANETA TERROR: uma cantora famosa é triturada até ao cérebro; a protagonista perde a perna à dentada e a prótese utilizada é uma metralhadora, embora permaneça o mistério em saber como é premido o gatilho; médicos excêntricos na sua ética deontológica, antes e depois de infectados; e a insinuação de que a captura de Bin Laden, à mão dos americanos, teve um papel nefasto e preponderante na matança a que assistimos, é de uma subtil genialidade.



Rapidamente se conclui que é a ausência de lógica a responsável pela agradável experiência de contemplar PLANETA TERROR. Robert Rodriguez utiliza os timings na perfeição, alternando acção, comédia e suspense em doses adequadas para deliciar o espectador do primeiro ao último minuto. E é nesse exacto pormenor que o realizador mexicano se distancia da parcela a cargo de Quentin Tarantino: enquanto este cobriu o seu filme de uma elegância suportada em diálogos complexos e quase enciclopédicos, Rodriguez opta por uma abordagem à loucura que o Cinema, seja ele de grande ou baixo orçamento, é capaz de facultar.

São duas versões de um estilo sui generis mas extinto, cada qual com a sua quota parte de profunda submissão e respeito pelas intenções a que se propuseram atingir. Agora que Portugal pôde observar GRINDHOUSE na sua plenitude, não restam dúvidas de que a estreia das duas histórias em datas diferentes foi a melhor opção para o sucesso deste projecto na Europa. E fico a salivar pelo rumor de que a sua continuação conheça luz verde, nomeadamente através da realização do fake trailer que antecede PLANETA TERROR, intitulado MACHETE: só a sua premissa, descrita em minuto e meio, foi capaz de me arrancar as primeiras gargalhadas da sessão.

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