domingo, janeiro 18, 2009

Uma soirée com David Lynch

A experiência sugerida pelo título deste post será sempre marcada por um inquietante sentimento de imprevisibilidade. Afinal de contas, estamos a falar do autor de culto por excelência, da mente mais esquiva do cinema norte-americano e do realizador que, por mais insistentes que sejamos, recusa-se a explicar o significado de cada obra que fabrica.

Ontem, a :2 dedicou a sua habitual sessão dupla dos Sábados à noite a David Lynch, exibindo (por esta ordem) o último e primeiro filmes da carreira do realizador: INLAND EMPIRE (2006) e NO CÉU TUDO É PERFEITO (1977).



INLAND EMPIRE marca o primeiro contacto de Lynch com as câmaras digitais, e é palpável o "gozo" que o cineasta sentiu durante essa experiência. Supostamente, iniciou as filmagens sem um rumo definido do argumento, rodando diversas sequências e almejando a "coerência" narrativa na sala de montagem. Como é habitual em David Lynch, beleza estética e fealdade dos personagens andam de mão dada, e o talento de Laura Dern é o aspecto mais nítido durante estas quase três horas de puro surrealismo.

São visíveis resquícios de pastiches a anteriores obras do cineasta, tais como o obscuro preço do sucesso em Hollywood [de MULHOLLAND DRIVE (2001)], duplas personalidades [ESTRADA PERDIDA (1997)] e uma ou outra sequência de dança, motivo existente em praticamente toda a sua filmografia.



NO CÉU TUDO É PERFEITO constituiu a primeira película de David Lynch a ser exibida em circuitos comerciais e art-houses, uma obra de amor que durou cinco anos a ser completada e que lhe abriu as portas para a celebridade - conta-se que Mel Brooks ficou tão impressionado, que imediatamente convidou o realizador para assinar O HOMEM ELEFANTE (1980).

Jack Nance, um habituée de Lynch, interpreta Henry, um impressor que passa os seus dias em casa a criar um bebé disforme e a nutrir sonhos libidinosos pela vizinha do apartamento contíguo. E ainda temos a visão de uma cantora no radiador de Henry que executa o seu número enquanto esmaga, com os pés, fetos lançados para o palco onde actua e a inexplicável influência de um extra-terrestre (será?) a controlar manivelas. Um filme com pouquíssimo diálogo, mas do qual é impossível tirar os olhos pelo poder das imagens.

A principal conclusão a retirar de NO CÉU TUDO É PERFEITO e INLAND EMPIRE será aquela que melhor ilustra a carreira de David Lynch: não se procurem explicações racionais, deixemo-nos apenas levar pelo que nos é mostrado - porque quanto mais especularmos sobre a lógica da história, mais frustrados nos sentiremos quando o filme acabar.

1 comentário:

Fifeco disse...

Por acaso uma das coisas que gosto de fazer é procurar explicações para as fitas de Lynch. Dá-me um gozo especial e é bastante estimulante.

Não tive a oportunidade de ver os filmes apesar de saber que eles iam dar. Pus a gravar o Inland Empire. Já o Eraserhead sofreu um acidente e não acaboud e gravar (fica para a próxima).

Abraço