terça-feira, fevereiro 10, 2009

VALSA COM BASHIR (2008), de Ari Folman



Assumindo-se como protagonista, o realizador Ari Folman escuta o pesadelo recorrente de um seu velho amigo, no qual é perseguído por 26 cães raivosos. Todas as noites, sempre o mesmo número de "feras". Durante a conversa, os dois concluem que o pesadelo está, de alguma forma, ligado à sua participação, enquanto membros do exército Israelita, durante a Guerra do Líbano em 1982. Ari, intrigado pelo facto de não possuir qualquer recordação daquela fase da sua vida, calcorreia meio mundo para conversar com antigos companheiros do batalhão que integrou, numa tentativa de encontrar um fio de memória e que explique o seu papel no que ficou conhecido como O Massacre de Sabra e Shatila, onde foram assassinados centenas de refugiados palestinianos.



Uma espécie de "docudrama animado", Folman utiliza em VALSA COM BASHIR várias fontes de inspiração (desde o grafismo das graphic novels até APOCALYPSE NOW), criando um produto final imbuído de frescura cinematográfica, recriando os acontecimentos como se de imagens de arquivo se tratassem. O apelo à imagem animada permite — para além da óbvia poupança de recursos — a visão descomprometida, com surrealismo e pitadas de humor irónico, de uma página pouco agradável e quase desconhecida da História de Israel. Tal como um documentário, as entrevistas e flashbacks narram pormenores diversos do conflito, culminando na descrição da barbárie que é, afinal de contas, o âmago da película.

Para quem não está a par do que sucedeu em Sabra e Shatila — e eu encontrava-me nessa "fatia" — a compreensão dos factos surge como um murro no estômago. Tal ocorre antes mesmo do segmento final de VALSA COM BASHIR, composto por imagens reais (as únicas do filme) da cobertura jornalística efectuada na altura. Tal opção evidencia-se demasiado forçada e colocada quase "de empurrão", para que não escapemos à reflexão perante a insensatez daquela tragédia. Caro Ari Folman, não se preocupe: a intenção já havia sido totalmente notificada.

1 comentário:

Nelson Magina Pereira disse...

Concordo em absoluto com o que dizes no final do texto. Também me pareceu desnecessário o segmento com imagens de registo. Já o restante está muito bem conseguido.

Cumprimentos.