sexta-feira, junho 05, 2009

OKURIBITO [Departures] (2008), de Yôjirô Takita



Existe toda uma miríade de razões para considerar este DEPARTURES como um dos filmes asiáticos mais interessantes dos últimos anos — é japonês, mas não bebe qualquer inspiração aos "clássicos" Akira Kurosawa ou Yasujiro Ozu nem à recente vaga do 'J-Horror' que tanto sucesso conhece internacionalmente; também não está demasiado "ocidentalizado", já que a sua história e cenários retratam quotidianos que tocarão mais profundamente aos nipónicos do que a qualquer outra cultura; e, por fim, foi galardoado como Melhor Filme Estrangeiro na mais recente edição dos Óscares, destronando os favoritos A VALSA COM BASHIR, de Ari Folman, e A TURMA, de Laurent Cantet.

DEPARTURES será, hipoteticamente, o precursor daquilo que apelido de "Cinema Mundial", ou seja, um filme que respeita tradições e/ou crenças do seu país de origem mas cuja mensagem é compreendida pelo mais variado tipo de espectador com um acolhimento crítico e comercial a condizer. O excelente equilíbrio entre o drama emocional e a comédia de costumes aqui patenteado não significa inovação narrativa, porque até são visíveis traços da filosofia humorística de Woody Allen ou da frontalidade humana de Pedro Almodóvar. É o seu contexto de produção, numa época em que o Japão aposta na exportação de Cinema com os seus mais lucrativos anime e filmes de terror, que realmente surpreende.



Daigo Kobayashi (Masahiro Motoki), um violoncelista desempregado após a dissolução da orquestra onde actuava, decide abandonar Tóquio e regressar, juntamente com a sua esposa Mika (Ryoko Hirosue), à sua terra natal, uma pequena localidade chamada Sakata. Aí, candidata-se a um emprego, anunciado no jornal local, no qual a empresa NK Agency solicita um "Assistente de Partidas". Pensando tratar-se de uma agência de viagens, Daigo só percebe, durante a entrevista, que a NK Agency é, na realidade, uma empresa dedicada ao metódico ritual do nokan, que consiste em lavar, vestir, maquilhar e acondicionar recém-falecidos antes do seu funeral.

Sem qualquer perspectiva de emprego à vista e perante a digna oferta salarial que lhe é apresentada, Daigo aceita o emprego, aprendendo com Shōei Sasaki (uma fabulosa interpretação de Tsutomu Yamazaki), gerente da NK Agency, as características da actividade. Apesar de proporcionar conforto e alegria aos familiares dos falecidos, Daigo demora em assumir a nobreza da sua nova profissão, escondendo o facto à própria esposa e lidando com a animosidade de alguns habitantes de Sakata. A sua paz interior, e com aqueles que o rodeiam, apenas surge quando recebe notícias da morte de um parente próximo...



O seu título, DEPARTURES (numa tradução livre, significará algo como "partidas" ou "despedidas"), remete-nos logo para o tema da separação, tanto material como espiritual. A perda está presente em cada frame, é um facto, mas tal não o transforma num filme mórbido, lacrimal ou depressivo. Bem pelo contrário, a sua (chamemos-lhe assim) moral procura uma reflexão humanista e predominantemente positiva, que chega mesmo a ser veiculada numa linha de diálogo: «A vida, embora melancólica, é digna de ser saboreada».

A vida e, permitam-me o acréscimo, este filme também. Porque constitui a melhor experiência cinematográfica que "saboreei" nos últimos meses.

3 comentários:

Roberto Queiroz disse...

Um dos motivos que me chamou a atenção nesse filme, quando li sua crítica no Jornal do Brasil, é que ele mostra todo o ritual funerário como é realizado na Ásia. E você percebe que mais do que uma despedida, é feito uma grande homenagem, um memorial, muitas vezes mais significativo do que a própria vida da pessoa. Ainda não assisti, mas é questão de tempo!

Filipe Machado disse...

Mias um para a minha extensa lista de visionamentos...

Ricardo Lopes Moura disse...

cá estou. só não gostei da publicidade pop up.

gostei do filme e da crítica (algumas das frases da minha crítica são parecidas com as da tua), mas não acho que seja filme para prémios. é sereno, discreto, como se tentasse passar despercebido.

mas não se vê com tédio, e a cultura é sempre riqueza, por isso aconselho.