segunda-feira, setembro 14, 2009

SACANAS SEM LEI (2009), de Quentin Tarantino



Se SACANAS SEM LEI é a definitiva obra-prima ou o argumento mais completo da carreira de Quentin Tarantino (tal como já tive oportunidade de ler em alguns sítios) considero prematuro dizê-lo. Títulos como PULP FICTION (1994) ou o díptico KILL BILL — A VINGANÇA (2003 e 2004) pesam sobremaneira numa conclusão desta natureza. E digo isto com tanta "firmeza" porque SACANAS SEM LEI demonstra um autor em permanente auge das suas faculdades criativas — À PROVA DE MORTE (2007) incluído — e permite-nos entender que, com Tarantino, qualquer anacronismo não é usado displicentemente — a surpreendente audição, a certa altura, de "Cat People (Putting Out Fire)", tema interpretado por David Bowie em 1982, serve um propósito específico e constitui interessante acompanhamento para as imagens de determinada sequência —, os "malfeitores" são sempre os personagens mais fascinantes dos seus filmes — sobre o Coronel Hans Landa falarei adiante — e não nos custa perdoar ao cineasta se este decidir, no clímax de SACANAS SEM LEI, reescrever de forma radical a História do maior conflito armado do Século XX.

Perante tais características, SACANAS SEM LEI não pode ser visto como um filme "derradeiro". Este «Spaghetti Western recheado de iconografia da II Guerra Mundial», conforme as palavras do próprio Tarantino, é já um dos filmes maiores de 2009 (exceptuando as hipóteses de uma ou outra interpretação, talvez não consiga, infelizmente, disputar as atribuições dos grandes prémios cinematográficos que se aproximam) e encerra um poderoso "aperitivo" para a descoberta do poder de auto-superação do realizador.



Prosseguindo com a sua predilecta divisão narrativa por capítulos, SACANAS SEM LEI desenvolve-se em cinco partes bem classificadas, a primeira das quais situada nos campos rurais da França de Vichy, onde o sádico Coronel das SS Hans Landa (Christoph Waltz) aniquila, numa chocante explosão de violência, a família judaica Dreyfus com a excepção da filha Shosanna (Mélanie Laurent), que escapa para Paris, muda de identidade e assume a gestão de um pequeno cinema. A sua seguração fica comprometida quando o local é escolhido por Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, como palco da estreia do seu mais recente empreendimento cinematográfico, «O Orgulho da Nação».

Entretanto, um grupo de assassinos judaico-americanos — conhecidos como Os Sacanas e liderados pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt) — pretende, com os seus peculiares métodos e elaborados planos, cessar o terror nazi na Europa, encontrando pelo caminho apoio do Governo Britânico e de Bridget von Hammersmark (Diane Kruger), a principal estrela do cinema Alemão e agente dupla ao serviço dos ingleses.
Um emaranhado de histórias que conflui num inesperado e ultraviolento final.



Para além de ser um filme genuinamente tarantinesco, SACANAS SEM LEI pertence também a Christoph Waltz, um dos vilões mais requintados a preencher o grande ecrã nas últimas décadas. Por outras palavras, este (até agora) desconhecido actor, com background de televisão na Áustria, ofusca um elenco inteiro, entre nomes mundialmente reconhecidos e outros de proeminência europeia, com cada entoação das suas palavras, com cada trejeito, apenas com a sua aparição em cena. Sem dúvida, a revelação interpretativa do ano e, a menos que esteja tudo a "dormir", a primeira certeza para uma nomeação ao Óscar de Melhor Actor Secundário.

Como SACANAS SEM LEI, e sem querer tornar-me repetitivo, é um filme de Quentin Tarantino, torna-se impossível escapar à «reciclagem cinematográfica» de que usufrui e com excelentes resultados. Durante o diálogo de Hans Landa com o agricultor francês, numa sequência inicial autenticamente "deliciosa" para cinéfilos, é possível enumerar uma interminável série de referências, visuais e sonoras, a títulos como ÁLAMO (1960), A DESAPARECIDA (1956) ou TWO-LANE BLACKTOP (1971). Muitos outros exemplos abundam — note-se como o vestido vermelho envergado por Mélanie Laurent, nas últimas sequências, é nitidamente decalcado de VERONIKA VOSS (1982) — e este facto só realça o "tal" poder criativo de Quentin Tarantino, ou seja, a sua capacidade de explanar argumentos originais através de evidentes ou obscuras piscadelas de olho a outras obras. Estilo próprio que alicia um segundo (e, quiçá, terceiro) visionamento de cada filme que produz. Se KILL BILL instituiu essa regra, SACANAS SEM LEI não será a excepção à mesma.

3 comentários:

Maria das Mercês disse...

Gostei imenso do filme, mas é preciso gostar de Tarantino para apreciar as nuances desse homem. É bastante violento, houve momentos em que tapei os olhos (mariquices!), mas adorei. Acho que Hitler teria morrido muito bem se tivesse morrido naquela sala de cinema. Os filmes como motor de mudança e justiça? Bom texto, Sam.

Mª João disse...

Há , ainda, neste filme, um jogo de sedução com a própria arte de fazer filmes, tão cara a Tarantino. Não é por acaso que o auge da acção se situa no pequeno cinema de Shosanna Dreyfus, tal como não é por acaso o primeiro encontro dela à porta do mesmo com o soldado alemão (o herói nazi),com o nome de Leni Riefenstahl (a grande realizadora nazi) em letras garrafais, ou a piada do inglês que tenta fazer-se passar por alemão de uma zona montanhosa que ninguém conhece, onde Riefenstahl filmou um dos seus primeiros filmes, antes do monumental "O Triunfo da Vontade".
Numa das cenas de promoção do filme, diz Tarantino uma frase que justifica tudo: "We loooove movies !!!"

Só para conclusão. Gostei muito de ler o teu artigo, Samuel. É um orgulho ver que um ex-aluno nosso tem esta capacidade de análise e de reflexão e este sentido estético. Os meus parabéns!
E tornei-me fã de Christoph Waltz. Nada ultrapassa o seu charme irresistível. Aceitaria, com todo o gosto, um encontro com o Coronel Hans Landa...

Mª João Cavaco

Sam disse...

Cara Dra. Mª João,

sem dúvida, Tarantino é um artista que respira mais Cinema que oxigénio. Para além dos exemplos que citou, notei outro curioso pormenor. Antes de Shosanna ter o encontro com Goebbels, ela prepara o placard para um filme de Henri-Georges Clouzot, LE CORBEAU, o qual, pelo seu conteúdo, foi banido pelo Partido Nazi. São detalhes muito "saborosos".

Por fim, muito obrigado pelas suas calorosas palavras. Estimo saber que a visita ao meu "estaminé" representa uma agradável experiência.
Volte sempre.