sábado, outubro 17, 2009

ORFÃ (2009), de Jaume Collet-Serra



Correndo o risco de parecer preconceituoso, sempre encarei grandes interpretações por actores-crianças como puro "instinto infantil". Quase parece que a inocência culturalmente associada à pré-adolescência possibilita todo o género de performances, desde a figura mais inofensiva até à mais diabólica — e é com este último género que ORFÃ lida, através da grande revelação do presente ano que dá pelo nome de Isabelle Fuhrman e que encarna Esther, a menina de nove anos patente no poster do filme.

Este texto poderia ser inteiramente dedicado ao scene stealing de Fuhrman, sobretudo porque pouco mais se consegue espremer de um filme convenientemente posicionado (qualitativa e comercialmente falando) no terreno do horror de fácil "digestão": sustenta uma premissa base parca em originalidade, aborda as obrigatórias e pontuais cenas do susto sonoro-visual e "descamba" na mais pura sangrenta resolução. Ressalve-se, contudo, a existência de um "refrescante" twist relativo à personagem de Esther — muito próximo do efeito apresentado em JOGO DE LÁGRIMAS (Neil Jordan, 1992) — e que consegue afastar, da mente do espectador, algum do sentimento de decepção aqui provocado.



John e Kate Coleman (Peter Sarsgaard e Vera Farmiga) vivem tempos difíceis no seu casamento, após a morte, ainda no feto da mãe, do terceiro filho do casal. Logo na desconfortável cena inicial (de observação desaconselhada a mulheres grávidas), percebemos que a mágoa demora mais a sarar em Kate, que vê na hipótese da adopção de uma menina a saída para o seu estado depressivo. E na visita ao orfanato local, John e Kate ficam arrebatados pela afável Esther, uma menina de descendência russa com bonita voz e melhor talento para a pintura de aguarelas.

Assim que se adapta ao seu novo lar, cedo percebemos — tal como o slogan do filme proclama — que há algo de errado com Esther. Demonstra uma maturidade acerca de assuntos (morte, sexo e, sobretudo, ódio pelo seu semelhante) muito acima da média para os seus nove anos de idade e demonstra uma estranha tendência para estar por perto quando ocorre algum momento trágico na pequena cidade onde a acção de ORFÃ se situa. Quando esta série de estranhos acontecimentos começam a afectar a integridade familiar dos Coleman, Kate percebe, perante a "obtusidade" em seu redor, que é em Esther que reside a fonte dos problemas.



O desempenho de Isabelle Fuhrman (que tem de ganhar algum prémio por isto, nem que seja um MTV Movie Award) representa a principal razão para espreitar este ORFÃ. Roger Ebert, na sua crítica publicada no Chicago Sun-Times, não hesitou em afirmar que será levará imenso tempo para a jovem actriz apagar a imagem malevolente aqui deixada, e ninguém, após ver o filme, rejeitará esse conceito. Uma qualidade de representação que não se alastra ao restante elenco — sobretudo Peter Sarsgaard, aqui reduzido à condição de perpétua incredulidade mesmo quando todas as provas apontam para Esther —, onde apenas se pode salientar Vera Farmiga e o seu esforço em elevar uma personagem demasiado "ténue" para as capacidades da actriz. Mas, 'hélas', actores também têm de ganhar a vida, certo?

Destaque final para os valores de produção (de primeira linha) e para o espanhol Jaume Collet-Serra, realizador que demonstra argumentos para, com um projecto feito à sua medida e livre das condicionantes impostas pelos grandes estúdios, ser um nome de referência do cinema de terror nos próximos anos.

3 comentários:

Maninha disse...

não sei se terei "tomates" p ver o filme. a miúda parece mesmo aterradora :)

Victor Afonso disse...

Vi o filme há dois dias e gostei. Brevemente farei uma recensão no meu blog.

Duarte Nunes de Almeida disse...

Muito interessante. Genial aquela parte em que a Esther toca Piano magistralmente e a "Mãe" quase que tem tem uma reação psico sumática dizendo: "tu tinhas me dito que não sabias tocar!" ao que ela responde "não tu perguntaste-me se eu queria que me ensinasses e eu disse que sim..." (left allone if she could...). Abraço.