terça-feira, novembro 24, 2009

Avatares, Luas Novas e Espectadores Portugueses

ou como A CRISE FINANCEIRA SERÁ, PARA O CINEMA, APENAS MATERIAL DE FICÇÃO

Os últimos dias foram férteis em indicadores sobre a pujância económica que a indústria cinematográfica está a viver nos seus diversos quadrantes: produção, distribuição e afluência de espectadores às salas.

Três argumentos substanciam o panorama acima delineado:

1) A eminente estreia de AVATAR



Esqueçamos, desde já, os anos gastos na pré-produção desta megalómana e (a ver pelos trailers e featurettes que abundam na Internet) estonteante fantasia visual sobre o conflito, num planeta distante, que opõe humanos invasores a sociedades extraterrestres animistas. O que importa reter é o seu orçamento de produção, cifrado entre os (quase confirmados) 200 a 250 milhões de dólares — qualquer coisa como 133 a 168 milhões de euros — e sem contar com os obrigatórios custos de marketing e promoção: algumas fontes apontam para montantes a beirar os 200 milhões de dólares. Portanto, é só fazer as contas...

Apesar da adversa circunstância ao risco desmedido em que vivemos ou dos rumores de as massas ainda não estarem preparadas para uma obra desta natureza, AVATAR poderá constituir-se como um (senão "o") dos mais revolucionários filmes da presente década. Para além dos óbvios progressos tecnológicos que patenteia, a verdadeira mudança passa pela compreensão da contingência engendrada pela 20th Century-Fox, ou seja, inovadoras medidas para evitar a "insolvência" perante um eventual falhanço de bilheteira deste seu pet project. Se tal ocorrer, ninguém perderá dinheiro pela contribuição financeira de um rol interminável de investidores (conglomerados com actividade comercial no ramo do entretenimento, television networks, alianças empresariais), múltiplas estratégias para a distribuição no mercado home cinema e a garantia de que, num cenário negativo, o realizador James Cameron abdicará da sua percentagem dos lucros.

2) A estreia norte-americana de LUA NOVA



Mas, neste momento, os executivos da 20th Century Fox não devem estar a perder "horas de sono" com as possibilidades de triunfo/fracasso de AVATAR. O principal motivo para tal sentimento dá pelo nome de LUA NOVA, a segunda adaptação da saga literária de Stephenie Meyer. Orçado em quase 50 milhões de dólares, apresentando modestos esforços de promoção e enfrentando uma fria recepção por parte da crítica especializada, LUA NOVA conseguiu tornar-se no filme com a estreia mais lucrativa de sempre (72,7 milhões de dólares só no primeiro dia!), batendo de forma inapelável e inesperada o aparentemente inexpugnável recorde alcançado, no ano passado, por THE DARK KNIGHT — O CAVALEIRO DAS TREVAS.

3) O Bareme Cinema da Marktest

E o público português não escapa a esta tendência consumista. Para além de o fenómeno comercial de LUA NOVA não constituir excepção em solo lusitano, os dados recentemente divulgados pela Marktest, no que à afluência de espectadores diz respeito, são tudo menos desanimadores.

No período entre Outubro de 2008 e Outubro de 2009, contabilizaram-se (em Portugal Continental) 2,7 milhões de espectadores,



sendo Lisboa e Vila Nova de Gaia os principais pólos de atracção para cinéfilos:



Apesar do preço dos bilhetes, pouco convidativo para a carteira do português de classe média praticado pela maioria das salas de cinema nacionais, as estatísticas indicam que o ritual de ir ver um filme em grande ecrã não caiu em desuso no nosso país.

Da análise destes três itens, poder-se-á concluir que o "negócio dos filmes" apresenta incessante criatividade, não só em métodos narrativos como também nos modos de produção e comercialização da principal forma de arte do Século XX. A concepção de modelos de negócio capazes de "furar" qualquer crise financeira mundial aliada à sua função social de alheamento da realidade, constituem os definitivos argumentos para afirmar que o Cinema, enquanto actividade comercial, está para durar, passe esse futuro pelo puro digital em detrimento da película ou com a total supressão do filme de autor face ao blockbuster. Mas, como em qualquer "revolução", existirão sempre os resistentes saudosistas...

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