segunda-feira, dezembro 28, 2009

2009: Os Melhores

E chegamos à inevitável época de balanço do ano que agora termina. Como já é tradição no Keyzer Soze's Place, deixo-vos com o Top 10 dos melhores filmes estreados em Portugal durante 2009, de acordo com este "autor":

10º
HOMEM NO ARAME


Documentário multi-premiado sobre o destemido feito de Philippe Petit (que em 1974, atravessou, repetidas vezes sobre um arame, a distância entre as torres do World Trade Center), alia na perfeição a atmosfera de um thriller (na reconstituição histórica dos factos) com um palpável tom de nostalgia (patente na voz dos intervenientes ao recordarem o acontecimento). Ver Petit a falar sobre os sentimentos que o percorreram antes, durante e depois da experiência mais marcante da sua vida é um dos pontos fortes deste filme, e o seu protagonista revela-se, provavelmente, uma das últimas figuras larger than life da actualidade.


DEIXA-ME ENTRAR


Do actual e imparável renascimento "vampírico" na Sétima Arte, fenómeno mais incidente em território norte-americano, a maior lufada de ar fresco no género acabou por ser da responsabilidade desta produção sueca. Preterindo de focar os hábitos "nutritivos" do vampiro protagonista (embora o clímax seja constituído por um inesperado e violento assomo sanguinário), apresenta um argumento centrado na observação social das personagens, onde circunstâncias como solidão, injustiça e distanciamento entre jovens e adultos estão em plano de destaque. Impossível não realçar o trabalho de fotografia, cujo esquema cromático é mais frio que a omnipresente neve dos seus cenários.


O WRESTLER


O vigoroso regresso de Mickey Rourke após anos de percurso incerto e perceber que Darren Aronofsky é capaz de elaborar complexos dramas humanos sem a "bengala" de artificialismos visuais: eis duas boas razões para considerá-lo como uma das obras mais intensas do ano que agora termina. Rourke, ao mesmo tempo ameaçador e vulnerável, compõe a personagem da sua carreira e carrega, num fôlego, o filme inteiro. Os seus pares negaram-lhe a consagração máxima (isto é, o Óscar), mas assegurou um lugar cativo na "alma" dos cinéfilos mais exigentes.


CORALINE E A PORTA SECRETA


Em termos de animação, a parceria Disney/Pixar parece ter arrecadado o controlo definitivo da indústria. Esse domínio revelou-se este ano, a nível crítico e financeiro, com UP — ALTAMENTE!, mas os melhores "bonecos" dos últimos doze meses surgiram nesta obra em stop-motion com a chancela de Tim Burton. Deslumbrante fábula sobre imaginação e desobediência infantis, alterna uma entediante visão da realidade com tenebrosos mundos alternativos e possui todos os argumentos para ser considerado como um clássico instantâneo.


REVOLUTIONARY ROAD


Uma das experiências cinematográficas que mais me surpreendeu em 2009, é o melodrama do ano e uma fantástica adaptação do complexo romance de Richard Yates. Sam Mendes parece invocar o cinema de Douglas Sirk, retratando os conflitos de um casal desiludido com o 'American Dream' dos anos 50, mas o olhar crítico e europeu do realizador, sobre esse mesmo estilo de vida, percorre a obra de uma ponta à outra. Para além da excelência do elenco e composição técnica (destaque para a direcção de fotografia de Roger Deakins), é impossível não encarar como irónica a escolha do par romântico de TITANIC como protagonista desta narrativa sobre um matrimónio, e correspondentes perspectivas de felicidade, em ruínas.


TETRO


Filmado a preto e branco e sem os imperativos comerciais que sempre o "assombraram", eis a prova de que Francis Ford Coppola é um dos maiores cineastas da actualidade. Seduz o espectador em todas as áreas, desde a forma como o conflito familiar (tema predominante na carreira de Coppola) que reside no núcleo da narrativa é explanado, passando pelo realismo mágico de algumas sequências até à tímida reflexão que é feita sobre a Sétima Arte e o seu constante gládio entre as leis do mercado e a inspiração artística de quem faz filmes. A sua omissão nas principais listas dos melhores de 2009 é incompreensível, assim como a "indiferença" geral à poderosa interpretação de Vincent Gallo.


SACANAS SEM LEI


Profundamente divertido e um festim de referências cinematográficas (das evidentes até às mais obscuras), Quentin Tarantino recria a Segunda Guerra Mundial através de um variado léxico de homenagens que englobam Leni Riefenstahl, o Western Spaghetti e o Macaroni War, não se mostrando relutante em "refazer" a História tal como a conhecemos... Apesar de tanto pastiche, é possível encontrar aqui um dos elementos mais "frescos" do ano, o qual dá pelo nome de Christoph Waltz, actor austríaco praticamente desconhecido até agora, cujo vilão constitui uma das interpretações mais perfeitas da década (o Óscar aguarda-o...). Só pela sua participação, o filme seria sempre um dos melhores de 2009.


A VALSA COM BASHIR


Narrativamente falando, este é um dos filmes mais inovadores de 2009. Realçando delicadas feridas políticas passadas e presentes, o realizador Ari Folman reconta a invasão israelita de Beirute em 1982 (operação militar que culminou no infame Massacre de Sabra e Shatila), sem cair em propagandas e moralismos. É, também, um conto autobiográfico, protagonizado pelo próprio Folman e por alguns dos seus ex-companheiros durante a operação, retratados em forma de desenho animado. Desde o conceito às memórias invocadas, o filme é arrojado, provocador e absolutamente imprescindível para a compreensão do ano cinematográfico.


CHE — O ARGENTINO


Steven Soderbergh, neste épico de quatro horas, não só quis retratar dois momentos fulcrais da vida de um dos ícones do Século XX, como introduz algo de novo na linguagem cinematográfica. O estilo "guerrilha" do cineasta norte-americano encontra aqui o seu melhor veículo até à data (manifestando-se inteiramente apropriado, tendo em conta o tema do filme), induzindo no espectador a sensação de estar, lado a lado, com Che Guevara. Benicio Del Toro dedicou sete anos a esta personificação e o resultado final é mais que brilhante: uma interpretação que demonstra (pelo menos, em vontade) as várias facetas do homem e do símbolo.


ESTADO DE GUERRA


O melhor filme do ano possui um estilo capaz de suscitar, no final, um sentimento de agitação no espectador, mas que também irá obrigá-lo à reflexão. Através de uma série de sequências de combate visceralmente emocionantes e recheadas de frenético suspense, o filme destila as complicações morais e psicológicas dos conflitos bélicos contemporâneos e, muito particularmente, da presença norte-americana no Iraque desde 2003. Pela sua realização, Kathryn Bigelow entra definitivamente no "panteão" dos maiores talentos da actualidade e Jeremy Renner, enquanto protagonista, é uma das principais revelações de 2009.

E quais são as vossas escolhas?

8 comentários:

Anónimo disse...

Excelente selecção embora não tenha tido a oportunidade de ver todos os que aqui estão na tua lista top ten. Destaco o "fantabulástico" Tarantino e o perturbante "doc." com Mickey Rourke as himself no "Wrestler".
...
Pena não teres linkado os endereços para um preview da tua selecção.
JNAS

Sam disse...

Boas JNAS.

Os títulos dos filmes remetem para os respectivos sites oficiais. Quando dizes "preview", referes-te aos trailers?

Abraço.

O Projeccionista disse...

Boa lista, apenas discordo do primeiro lugar e do último. Para mim o melhor do ano foi A Valsa com Bashir, pela forma original como está feito.

Cumprimentos cinéfilos,

o Projeccionista

Fifeco (Filipe Ferraz Coutinho) disse...

Temos escolhas claramente distintas apesar de coincidirmos em três filmes.

Gostei de ver, sobretudo, a primeira parte de Che na tua lista.

Abraço

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Valsa com Bashir e The Wreslter não são filmes de 2008?

Seja como for, é uma boa lista. Os meus preferidos já os listei no meu blogue :)

Sam disse...

Caro Homem Que Sabia Demasiado,

Os dois filmes que referes foram, de facto, produzidos em 2008 (assim como o REVOLUTIONARY ROAD) mas esta lista indica títulos estreados em Portugal durante 2009.

Cumps cinéfilos.

naovouporai disse...

Boas escolhas! :)

Só uma correcção, o Tim Burton não teve nada a ver com o Coraline (Neil Gaiman / Henry Selick).

Cumprimentos Cinéfilos

Sam disse...

Caro naovouporai,

reconheço o meu erro relativamente a Coraline — penso que fui "induzido em erro" pelo trabalho de Henry Selick em O ESTRANHO MUNDO DE JACK (que era produzido por Burton)...

Obrigado pela tua chamada de atenção.

Volta sempre, cumps cinéfilos.