domingo, fevereiro 14, 2010

PRECIOUS (2009), de Lee Daniels



Nos seus mais de cem anos, o Cinema tem-se embrenhado num "gládio" constante entre as suas funções de veículo da «fuga ao quotidiano» e a representação factual/artística da vida humana. PRECIOUS consegue, em parte, reavivar esta dicotomia, pela forma como os contrasta através das desventuras de uma adolescente de 16 anos, residente num bairro problemático do Bronx, vítima de abuso sexual pelo pai de quem está grávida pela segunda vez (sendo já mãe de uma menina com síndrome de Down), com uma figura materna digna do mais tenebroso conto de terror de Edgar Allan Poe e sempre fantasiando uma existência repleta de glamour, sessões fotográficas, passadeiras vermelhas e homens atraentes.

Acima do sumptuoso trabalho visual assumido por Lee Daniels, o que mais sobressai neste poderoso drama humano é o duo de leads femininos: Gabourey Sidibe enquanto Claireece 'Precious' Jones — um retrato de mágoa e desespero saído do pior contexto social que se possa imaginar — e a mãe da protagonista, desempenhado por Mo'Nique, possivelmente o "ser" mais repulsivo e intenso a preencher um grande ecrã em 2009.



Não obstante todas as dificuldades que a vida lhe reserva, Precious demonstra algum potencial escolar, nomeadamente em Matemática, motivando a sugestão, pela directora do liceu que frequenta, para que se inscreva numa escola de "ensino especial", onde as faculdades da jovem poderão ser melhor desenvolvidas. Um panorama que desagrada a Mary, mãe de Precious, receando assim perder o direito à espécie de Rendimento Social de Inserção que, fraudulentamente, lhe vai sendo atribuído sob o "capuz" da mãe e avó extremosa e preocupada.

Precious inscreve-se, contudo, nessa escola, preenchendo os seus dias entre as aulas com uma pequena turma de casos problemáticos supervisionada pela esperançosa Miss Rain (Paula Patton) e as frequentes reuniões com uma funcionária da Segurança Social (uma excelente Mariah Carey, totalmente desprovida do seu estatuto de diva musical) que, seja pela reticência de Precious em responder a certas questões ou por experiência profissional, percebe que algo está errado neste caso de "precariedade social".



Candidato a vários Óscares (inclusive o de Melhor Filme), PRECIOUS tem imensas possibilidades de triunfo na categoria de Actriz Secundária, para o qual está nomeada Mo'Nique. Detentora de background televisivo e um currículo preenchido com produções cómicas de qualidade duvidosa, a sua composição de Mary é absolutamente irrepreensível, demonstrando, em duas sequências particulares (autênticas vociferações monológicas), ódio desmedido pela própria filha a princípio, e, mais tarde, o arrependimento egoísta pelas situações que permitiu durante vários anos — um momento de redenção que, ainda assim, não lhe granjeia simpatia mas a pura repugnância de dó por parte do espectador. Pela naturalidade e inspiração com que Mo'Nique abraça o papel, dá vontade de exclamar: por onde tem esta mulher "desbaratado" tanto talento?

Pretendendo ser uma obra de observação social desenfreada e ilimitada, PRECIOUS atinge esse objectivo logo na sua primeira meia-hora. Lee Daniels, na sua segunda incursão pela realização após uma tímida estreia com SHADOWBOXER, eleva da mediania toda esta série de elementos (o sofrimento dos mais desfavorecidos já foi abordado em Cinema por diversas vezes) com a particularidade de nunca permitir que a violência física e psicológica patenteada — haja "estômagos fortes" entre o público — caia na gratuitidade nem o onirismo da protagonista seja um mero truque para distrair-nos da realidade que se pretende criticar. PRECIOUS é um filme a não perder pelo seguro equilíbrio destes dois terrenos sempre movediços na Sétima Arte — tanto agora como no passado.

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