terça-feira, maio 25, 2010

A "Lotaria" do Cinema Britânico



Quando existem, na Europa, modelos de financiamento público para Cinema que se revelam bem sucedidos, há que examiná-los com redobrada atenção. Sobretudo por nós, portugueses (cinéfilos ou não), que lamentam e criticam, amiúde, a aparente "gestão danosa" do erário público nacional em filmes sem qualquer ressonância, financeira ou emocional, nos espectadores.

Serve esta introdução para vos falar do UK Film Council, entidade pública não-governamental britânica, fundada em 2000, com o intuito de desenvolver e promover a indústria cinematográfica do Reino Unido. Com substancial financiamento, no âmbito do seu projecto de Responsabilidade Social, da National Lottery (o equivalente inglês à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa), o UK Film Council demonstrou, na última década, uma capacidade ímpar na aprovação de projectos que constituem, actualmente, referências obrigatórias do Cinema Europeu em termos de apelativo comercial, consenso da crítica especializada e que suscitam reflexão e debate sociais.

Enquanto única e/ou principal produtora, foi responsável por títulos como BRISA DE MUDANÇA (2006, Ken Loach), ISTO É INGLATERRA (2006, Shane Meadows), SUNSHINE — MISSÃO SOLAR (2007, Danny Boyle) e AQUÁRIO (2009, Andrea Arnold).



Tudo isto sem contarmos com os muito qualitativos e ainda inéditos em Portugal HARRY BROWN (2009, Daniel Barber), onde pontifica uma assombrosa interpretação de Michael Caine; IN THE LOOP (2009, Armando Iannucci), cujo argumento obteve nomeação para Melhor Argumento Original na última edição dos Óscares; e os biopics musicais de, respectivamente, John Lennon e Ian Dury, NOWHERE BOY (2009, Sam Taylor Wood) e SEX & DRUGS & ROCK & ROLL (2010, Mat Whitecross).



A enunciação das disparidades evidentes nas "pujanças" financeiras de Portugal e do Reino Unido, embora tentadora, não altera uma vírgula à minha sugestão de se adaptar, ao nosso país, um modelo semelhante ao UK Film Council. Nenhum dos projectos acima referidos — por mais radicais ou controversos que alguns possam ser — ficou isento do escrutínio e respectivo aval pelo seu Conselho de Administração, o qual é composto, na sua maioria, por representantes apontados pela tutela britânica da Cultura, não obstante os fundos provenientes de uma "fonte" relativamente estável como é a National Lottery.

Tendo em conta que a associação UK Film Council — National Lottery permite uma gestão de 17 milhões de libras (cerca de 19 milhões de euros) para o desenvolvimento anual de vários filmes, não será legítima a ponderação de uma dinâmica semelhante noutros países europeus, incluindo Portugal? A pertinência desta hipótese só aumenta quando, ao consultarmos o site do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA), órgão que apoia a criação, produção e divulgação da actividade cinematográfica nacional, descobrimos que, em 2009, foram atribuídos quase sete milhões e meio de euros em projectos dos quais mal se "ouviu falar"...

O fomento em Portugal de investimentos cinematográficos de qualidade artística, cultural e social, economicamente viáveis e reverentes aos "dogmas" do serviço público, mais do que ser ou não exequível, é uma questão de vontade.

3 comentários:

Dora disse...

Ui, ui...isto é mesmo o tipo de blog com que me perco...

Tens aqui filmes muito bons. Vi o Fish Tank este fds, tenho de postar sobre isso. O This is England comecei a ver há uns tempos mas não o acabei...

Dora disse...

By the way, Keyzer Soze rules!

Sam disse...

Dora,

obrigado pelos teus comentários.

Perde-te à vontade!

Cumps cinéfilos.