terça-feira, abril 05, 2011

BERLIM: SINFONIA DE UMA GRANDE CIDADE (1927), de Walter Ruttmann



[Filme exibido ontem pelo 9500 Cineclube de Ponta Delgada]

Como analisar um filme como BERLIM: SINFONIA DE UMA GRANDE CIDADE oitenta e quatro anos depois da sua produção? Encará-lo como documento histórico, sobre uma Alemanha dividida entre o ressurgimento da crise económica pós-Primeira Guerra Mundial e o advento do Nazismo, é inevitável e quase tentador. Todavia, o intensivo recurso que faz das teorias de montagem soviética (nomeadamente a que Eisenstein chamou de "intelectual") garante-lhe leitura e apelo intemporais.

De difícil categorização (é um documentário pois mostra a realidade, mas não aborda quaisquer assuntos específicos), Ruttman capta um dia do quotidiano berlinense em meados dos anos 20, desde a placidez das cinco da madrugada até à agitação boémia da meia-noite. Durante sessenta minutos, o filme não se centra em nenhum indivíduo, cenário ou panorama particular. Tal como o cineasta afirmou, «a minha ideia era fazer algo a partir das milhares de energias que encerram a vida de uma grande metrópole». Idealizou e cumpriu.



Apesar desta "captação frenética da realidade", a disposição das imagens permite a distinção de um elemento unificador do filme, tanto a nível técnico como temático. BERLIM: SINFONIA DE UMA GRANDE CIDADE aborda, provavelmente, a dualidade inerente à Humanidade: a juventude e a velhice, a escassez e o luxo, o trabalho e o lazer, o amor e a luxúria, a camaradagem e a inimizade, o nascimento e a morte. Directa ou implicitamente, todas estas peculiaridades são abordadas pela câmara de Ruttman, a qual, ironicamente, filma os seres humanos — com uma ou outra excepção — à distância, de modo fugidio, num grupo uniforme onde ninguém sobressai nem fica registado na memória do espectador ou compara as suas acções aos comportamentos de animais, esses sim, apresentados em notórios grandes planos (um exemplo acabado de montagem intelectual/simbólica).

Pelo contrário, faz-nos atentar à arquitectura, engenharia, sombras e reflexos de Berlim. E "geometria humana" só se manifesta na referida uniformidade de indivíduos...



Merecedor de reconhecimento idêntico ou maior aos normalmente atribuídos a Sergei Eisenstein e (sobretudo) Dziga Vertov, BERLIM: SINFONIA DE UMA GRANDE CIDADE distingue-se pela época em que foi produzido ("ao lado", faziam furor Nosferatus e Metropolis expressionistas) e por, oito décadas depois, ser capaz de suscitar interpretações adequadas à nossa contemporaneidade.

Cinema em estado puro.

3 comentários:

Álvaro Martins disse...

Aí está algo que tenho muita curiosidade de ver.

Luís Azevedo disse...

Acho incrivelmente difícil ver este tipo de filmes sem bocejar. Provavelmente o facto de ter passado a minha vida toda a ver filmes plot-driven, action-driven, character driven, etc, impede-me de apreciar as sinfonias de cidades como elas provavelmente merecem.
Cumps cinéfilos

Sam disse...

@Álvaro, recomendo vivamente!

@Luís, compreendo o teu ponto de vista; os filmes produzidos nesta era sempre me seduziram, visto que constituem e patenteiam as origens de toda a evolução do Cinema. E como não há "plot" para seguir, prendo-me à sua composição técnica. Ou seja, extraio daí o prazer em ver estes filmes.

Cumps cinéfilos!