domingo, abril 24, 2011

Críticas da Semana

Breve resumo dos principais filmes visualizados esta semana.

RESTREPO (2010), de Tim Hetherington e Sebastian Junger



Durante um ano, uma equipa de reportagem filma o dia-a-dia de um pelotão norte-americano no Afeganistão. Destacado para o Vale do Korengal — "o local mais mortífero do planeta", segundo os próprios soldados —, somos testemunhas dos planos militares para controlar a região, tanto os plenos de êxito como os que terminaram em fatal insucesso.

Tim Hetherington (cujas notícias da sua morte fizeram, na semana passada, manchete) e Sebastian Junger levam a peito as máximas de Robert Capa sobre fotojornalismo de guerra, registando com uma proximidade e intimidade arrepiantes — as balas, vertiginosa e literalmente, zurzem sobre a objectiva — os momentos de batalha e respectivas consequências psicológicas entre os militares. Ver soldados reais a quebrar perante o medo e a morte demonstra que, definitivamente, não existe inferno maior na guerra do que a de cada homem que a luta.

JOAN RIVERS: A PIECE OF WORK (2010), de Ricki Stern



A vida e carreira de Joan Rivers, actriz e humorista norte-americana, é analisada num documentário que mostra os seus esforços, aos 75 anos, para reconquistar apelo comercial e popular.

Recomenda-se conhecimento de causa sobre Joan Rivers para o pleno usufruto deste filme. Para os iniciados no assunto, a actriz transparecerá uma típica imagem de entertainer "obsoleta" e rancorosa com uma indústria que não lhe foi simpática; mas para os mais informados, trata-se do retrato honesto de quem nunca deixou de lutar contra o establishment. Pelo meio, há o corrosivo humor de Joan Rivers — e só isso bate qualquer divisão de opiniões aos pontos.

L'ENFER D'HENRI-GEORGES CLOUZOT (2009), de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea



Em 1964, Henri-Georges Clouzot propôs-se a filmar L'enfer, thriller psicológico sobre ciúme e traição protagonizado por Romy Schneider e Serge Reggiani. A sua rodagem problemática obrigou ao cancelamento do projecto, cujo argumento viria a ser adaptado por Claude Chabrol em O INFERNO (1994). Quarenta e cinco anos depois, a partir de entrevistas com intervenientes naquele filme e do material filmado (entretanto conservado pela viúva de Clouzot), revive-se a produção de uma obra que prometia revolucionar a Sétima Arte.

Mais do que uma fenomenal lição de Cinema, permite a fantástica (senão mesmo irresistível) oportunidade de observar o inédito produto das rodagens do "mauvais film" de Clouzot (pelas rushes que nos são dadas a ver, um tremendo filme de culto sem hipóteses de legitimar tal estatuto). E atesta que o brilhantismo criativo, mesmo nos autores mais aclamados, não anda longe da obsessão, da doença e da loucura. Excelente em todos os aspectos e de visualização obrigatória.

A TRÍADE DE XANGAI (1995), de Zhang Yimou



Shuisheng, um tímido e ingénuo rapaz de província, viaja para Xangai por intermédio do tio, que lhe arranja trabalho como criado da amante de um notório criminoso. No decurso de uma semana, conhecerá em primeira mão os pormenores sórdidos de um submundo inclemente e violento.

A sua sumptuosa direcção de fotografia, imponente direcção artística e um óptimo desempenho de Gong Li talvez merecessem uma história de crime e vingança com melhor desenvolvimento narrativo. Mas o visual cuidado, a invocar sensualidade decadente e inocência perdida, relembra-nos que Zhang Yimou tem outros e melhores filmes na sua carreira.

7 comentários:

Luís Azevedo disse...

Foi uma pena a morte do Tim Hetherington. O Restrepo é um óptimo filme, e o seu realizador estava a tentar marcar a diferença...
Pode ser que a sua morte sirva para chamar a atenção para os problemas humanitários dos conflitos armados.

Álvaro Martins disse...

Por acaso gosto bastante da Tríade de Xangai e prefiro-o aos últimos dele que vi, o Herói e o Segredo dos Punhais Voadores.

Sam disse...

Luís, mais do que a morte do cineasta, considero mais importante o filme (e, por conseguinte, o Cinema) como forma de chamar a atenção para estas questões.

Álvaro, para mim o Yimou nunca conseguiu superar os fabulosos ESPOSAS E CONCUBINAS e VIVER. Quanto aos dois títulos que referiste, gostei muito da fotografia do PUNHAIS VOADORES.

Cumps cinéfilos aos dois.

Luís Azevedo disse...

Num mundo ideal, talvez a arte bastasse para chamar a atenção para temas relevantes. Não chega. As pessoas que ouviram falar da morte dele foram muito mais do que aquelas que viram o filme. E talvez isso fizesse alguma diferença (embora duvide que seja mais que marginal). Claro que uma notícia tem menos impacto que um filme bem feito, mas quantas pessoas viram o filme?

Álvaro Martins disse...

Sim o Viver é o melhor filme que vi dele, uma obra-prima mesmo, o outro que falaste ainda não vi.

Sam disse...

Luís, não viram porque ainda não passou por cá — será que com a morte de Hetherington o filme conhecerá "aceleração" na estreia, como costuma acontecer?

Luís Azevedo disse...

Se isso acontecesse seria uma benesse. Mas eu não estava só a falar em termos nacionais. O filme estreou há um ano nos Estados Unidos e teve receitas na ordem de 1 milhão de dólares até agora. Isso quer dizer que muito pouca gente viu o filme, que sem ser visto, não pode ter impacto algum. Se a morte dele incentivar as distribuidoras a distribuir e o público a ir ao cinema, talvez assim a morte do autor não tenha sido completamente em vão. Talvez isso atenue esta perda dispensável.
Cumps cinéfilos