quarta-feira, maio 30, 2012

Iniciativas Conjuntas #9

Sem hesitação nem pretensiosismo, afirmo que a comunidade blogger cinéfila é uma das mais dinâmicas em Portugal. Segue um exemplo.

A convite do António Guerra, pelo Imagens Projectadas, e como perfazem dez anos desde o derradeiro episódio de FICHEIROS SECRETOS, fui desafiado a escrever não só sobre o impacto da série criada por Chris Carter, como também o que mudou na televisão durante esse período. Como resposta, ficou esta reflexão:

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Uma Mera Questão de Horário

Eu ainda sou do tempo em que as boas séries de televisão eram emitidas durante o horário nobre dos canais generalistas nacionais. Foi graças a essa "janela temporal" que travei conhecimento com pérolas incontornáveis do pequeno ecrã.

São exemplos TWIN PEAKS (1989-1990) — se bem que esta, pelo seu conteúdo capaz de deixar um puto de nove anos com os nervos em frenesim, só foi devidamente assimilada mais tarde e em DVD — ou FICHEIROS SECRETOS (1993-2002), o motivo que me levou a aceitar o agradável convite do Imagens Projectadas para reflectir sobre o panorama da ficção televisiva na última década e desde o término da melhor série alguma vez produzida em torno de teorias de conspiração e vida inteligente extraterrestre.

E, nessa reflexão, é-me impossível não realçar a questão dos horários de transmissão praticados em Portugal para séries de televisão — definitivamente, e para pior, uma das mudanças mais significativas ocorrida durante o consumar destes dez anos.

Sendo inegável que, no seio da criação televisiva, se assistiu ao feliz incremento de qualidade e quantidade (diversidade de géneros, aproximação a métodos de produção dignos de Hollywood, renovação de públicos, um impacto cada vez maior no imaginário da cultura popular), a forma de distribuição da mesma no nosso país é que já possui contornos de pouco recomendável.

O paradigma actual extravasa, até, a "velha polémica" da transmissão durante a semana e em horários menos próprios para consumo facultada pelos canais em sinal aberto, numa realidade completamente desfasada de qualquer e hipotética guerra de audiências (a única excepção a este cenário provém de um dos dois canais públicos que poderá conhecer cessação em breve).

Paradoxalmente, a multiplicação da oferta televisiva denominada por cabo — que deveria constituir-se como resposta à prosperidade criativa do meio acima referida —, a meu ver, também não parece contribuir para o usufruto ideal da produção televisiva norte-americana, seja ela contemporânea ou transacta. Observa-se aqui, igualmente, a disparidades de dias e horas de transmissão e ao desrespeito na continuidade e, por vezes, repetição de episódios.

Em suma, muitas e óptimas séries de TV para ver mas reduzida estratégia no modo como nos são apresentadas.

Num dos episódios de FICHEIROS SECRETOS, Dana Scully, a personagem interpretada por Gillian Anderson, afirma que «it seems to me that the best relationships, the ones that last, are frequently the ones that are rooted in friendship. You know, one day you look at the person and you see something more than you did the night before. Like a switch has been flicked somewhere». É uma frase profunda e pouco distante da realidade, proferida num momento de fortalecimento da sua relação pessoal e profissional com o caprichoso agente Fox Mulder (David Duchovny).

E por que razão esta frase ficou-me indelevelmente registada na memória? Pelo simples facto de que, há uns anos, tinha a certeza que, todas as (na altura) quartas-feiras e em horário nobre, era emitido novo episódio de FICHEIROS SECRETOS. Esta frase é uma forma quase "poética" de ilustrar como a fidelidade do público era potenciada por esta espécie de amizade de programação televisiva.

Hoje em dia, é-me virtualmente impossível fixar e/ou citar uma linha de diálogo de uma série de TV. Aparentemente, estão a escapar-me fantásticos produtos televisivos: são-me aconselhados, com frequência, DOWNTON ABBEY, HOMELAND, MODERN FAMILY, PARKS AND RECREATION ou THE GOOD WIFE, mas ainda mal as "espreitei". E já nem me esforço por saber o que e quando é transmitido algo em Portugal, recorrendo ao DVD ou à Internet para a visualização do reduzido número de propostas a que me cingo neste momento (a saber, MAD MEN, TRUE BLOOD, THE KILLING e BREAKING BAD).

Apetece mesmo recuar dez anos, colocar-me numa situação fantástica e digna de um episódio de FICHEIROS SECRETOS e desfrutar da relativamente acertada política de exibição daquela época. De quando as séries de TV eram encaradas como material de horário nobre. De como a amizade para com uma série — e FICHEIROS SECRETOS foi um óptimo modelo disso — advinha não só da sua qualidade intrínseca, mas também de como nos era garantida, por uma mera questão de hora certa, a possibilidade de a testemunhar.

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Obrigado, António, pelo convite!

7 comentários:

António Guerra disse...

Estarás sempre convidado para iniciativas do género :) Foi um prazer ter-te a escrever sobre tal

Sam disse...

Obrigado, António.

Sempre às ordens!

Cumps cinéfilo-televisivos :)

Jorge Rodrigues disse...

Excelente artigo, Samuel! E obrigado também eu ao António por te ter convidado!

Realmente tenho sempre grande pena de não ter ficado fã enorme nem de Twin Peaks nem de The X-Files, porque adorava pertencer à base ardente de fãs de ambas. Não é bem o meu estilo de série...

De resto, Samuel, os produtos televisivos 'aconselhados' já nem deviam ser classificados por ti como aconselhados, mas sim 'devia ser obrigado a trancar-me numa sala a ver estas séries todas até ao presente'. x)

Abraço!

Jorge Rodrigues

Sam disse...

Jorge, obrigado pelo teu comentário e pelas palavras.

Sim, tenho mesmo de dedicar mais tempo a TV. E a começar pelos "aconselhados"... :)

Cumps cinéfilos!

Inês Moreira Santos disse...

Óptimo texto, como já tive oportunidade de te dizer, Sam.

Cumprimentos cinéfilos :*

Sam disse...

Inês, e aproveito para agradecer novamente as tuas palavras

:*

FilmPuff disse...

Adorava os X-Files e realmente é uma série que fica. Assim de repente, além da Scully do Mulder e Skinner, recordo-me do garganta funda, Tooms, Pusher, o grupo de nerds... As personagens não eram recortadas de cartão mas bem distintas e a tensão sexual "vai-não-vai" entre a dupla de protagonistas era qualquer coisa de bestial.