quarta-feira, maio 23, 2012

TABU (2012), de Miguel Gomes



Uma idosa temperamental (Laura Soveral), a sua empregada cabo-verdiana (Isabel Cardoso) e uma vizinha (Teresa Madruga) dedicada a causas sociais partilham o andar num prédio em Lisboa. Quando a primeira morre, as outras duas passam a conhecer um episódio do seu passado: uma história de amor e crime passada numa África de filme de aventuras.



Vencedor dos Prémios Alfred Bauer (atribuído a obras de particular inovação) e FIPRESCI no último Festival de Berlim e nomeado como (desnecessário?) representante de um Cinema Português galardoado que não encontra eco nem simpatia junto do poder legislativo, TABU não só se insere, sem dificuldade, na revisitação contemporânea que a Sétima Arte tem prestado a si mesma (basta recordar os fenómenos recentes de O ARTISTA ou A INVENÇÃO DE HUGO), como revela-se obra cinematográfica universal, única e quase visionária.

Nas suas imagens de monocromático e baixo contraste, assistimos ao desenrolar das consequências de uma desventura amorosa em dois arcos temporais distintos, mas intimamente ligados, quase somente, através das emoções dos protagonistas.

Pelos sons e imagens com que Miguel Gomes nos brinda, de forma poética, impressionista e quase etérea — sobretudo na segunda parte do filme, potenciada pelo registo da paisagem africana em película de 16mm, esse formato capaz de transmitir tanta grandeza num espaço tão pequeno de fotograma —, TABU é, narrativamente, um melodrama por excelência (paixão avassaladora, proibida e fatal) e, nas intenções, homenagem singela e original ao género de cinema — cada vez mais escasso — que nos obriga a considerar os olhares, gestos, trejeitos faciais e enquadramento de cenas sem que uma única palavra seja escutada para daí extrairmos o seu predicado. Aquela sequência, apenas acompanhada do som diegético da natureza da savana moçambicana, de um decisivo encontro entre os jovens Aurora (Ana Moreira) e Ventura (Carloto Cotta), em que a imediata atracção entre os dois é "visualmente palpável", é disso prova cabal.

Embora o filme não evite mostrar-se, por vezes, "enlevado" pelo seu próprio exercício de estilo, os prazeres cinéfilos de TABU são intermináveis e merecedores de não ficarem presos a sentimentos de insondabilidade por parte do espectador. Assim, observar o filme duas, três ou quatro vezes só contribuirá para a devida e profunda apreensão da sua riqueza filmíca. Obrigatório.

1 comentário:

Inês Moreira Santos disse...

Concordo em pleno contigo, Sam. Este é daqueles filmes a que todos deviam assistir. E excelente crítica, como sempre nos acostumaste.

Cumprimentos cinéfilos :*