quinta-feira, março 14, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Sabe-se Lá, de Jacques Rivette




Obra de subtil complexidade e serena mise-en-scène, SABE-SE LÁ é o testemunho, em plenos anos 2000, de um modo de emprego cinematográfico que reúne as perspicazes dinâmicas narrativas da Nouvelle Vague — ou não fosse Jacques Rivette um dos poucos representantes daquela corrente ainda no activo — à visão contemporânea da eterna temática de como a arte imita a vida.

Crónica de uma companhia teatral italiana em digressão por Paris, SABE-SE LÁ centra-se nas vicissitudes da relação entre a actriz Camille (Jeanne Balibar) e o seu amante e cenógrafo Ugo (Sergio Castellitto), ameaçada pelos motivos — um caso amoroso falhado com um presunçoso académico — que a levaram a abandonar o seu país natal, e que rapidamente ameaçará a harmonia artística de uma representação da peça de Luigi Pirandello, «Come tu mi vuoi».

A encenação teatral, coadjuvada por um conjunto de sequências recorrentes passadas nos bastidores e no quarto de hotel de Camille, servem de elaborado cenário não só para a revelação das complexas e mutáveis paixões das personagens, mas também em função da exposição dos temas "secundários" do filme: a forma gradual como o que é considerado público se torna privado e vice-versa, a graciosa ironia das emoções humanas e a fábula moral acerca das decisões passadas que, teimosamente, convergem para o presente. Por outras palavras, o palco que dá o mote às palavras de Pirandello é, irremediavelmente, o palco da própria vida.

Mas, em última instância, o argumento de SABE-SE LÁ (da co-autoria de Pascal Bonitzer, habitual colaborador de Rivette) substancia-se nas alianças, partilhas, traições, amores e humores de personagens em conflito (não falta, sequer, um confronto final entre dois amantes ciumentos) que, num registo romântico-dramático que orgulharia Eric Rohmer e através do seu esplêndido elenco, salda-se num dos melhores melodramas do princípio da última década.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Jeanne Balibar (Camille B.), Sergio Castellitto (Ugo), Jacques Bonnaffé (Pierre), Marianne Basler (Sonia), Hélène de Fougerolles (Dominique 'Do'), Catherine Rouvel (Madame Desprez), Bruno Todeschini (Arthur)


Palmarés
. Festival Internacional de Valladolid: Prémio Especial do Júri
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actor Estrangeiro (Sergio Castellitto)


Sobre Jacques Rivette

Um dos fundadores da Nouvelle Vague, as suas narrativas — profundamente inspiradas na admiração pessoal do cineasta pelos filmes de Robert Aldrich, Otto Preminger e Alfred Hitchcock — exploram o choque entre realidade e imaginação. Estes temas foram expostos em obras como LA RELIGIEUSE (1966), L'AMOUR FOU (1969), A BELA IMPERTINENTE (1991) e 36 VISTAS DO MONTE SAINT-LOUP (2009).



Sem comentários: