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sábado, junho 29, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Dogville, de Lars von Trier




Depois de ONDAS DE PAIXÃO (1996) e DANCER IN THE DARK (2000), eis que o génio de Lars von Trier surge em alta mais uma vez em DOGVILLE. Ancorado por mais uma magnífica interpretação de Nicole Kidman na sua fase mais áurea — tendo mesmo viajado para a Dinamarca no dia seguinte a receber o Óscar — DOGVILLE rouba inspiração a Brecht e a Wilder para criar uma fábula contra a americanização e, mais que isso, uma alegoria interessante sobre a crueldade e egoísmo da condição humana.

Von Trier reinvigora as suas temáticas habituais de opressão e realismo com uma radical abordagem à história, inventando um cenário despido, com as paredes das casas da pequena aldeia onde a narrativa decorre simplesmente desenhadas a giz. Este efeito de alienação, foi amplamente discutido e aplicado por Brecht no seu teatro por obrigar o espectador a focar-se nos temas e ideias em discussão ao invés dos cenários ou do ambiente. A crítica está lá, como sempre, acutilante, agressiva e ousada, bem ao estilo do provocateur dinamarquês. John Hurt, que narra o conto, apresenta-nos Grace (Kidman) que ao fugir das autoridades dá de caras com a pequena aldeia de Dogville, nas Rocky Mountains, nos anos 30. Quando os cidadãos da isolada e retrógada pequena comunidade não a recebem da forma mais calorosa, Tom (Bettany), filósofo e filho do médico da aldeia, vê-se obrigado a interceder por ela, pedindo que lhe seja dado abrigo e uma oportunidade. Grace, buscando ardentemente a aprovação dos seus pares, sujeita-se ao seu escárnio, discriminação e escravidão, ganhando esforçadamente o afecto e admiração de todos ao longo do tempo perdendo a sua identidade e personalidade até se tornar definitivamente um deles. Mal sabia ela que quando dados do seu passado se revelassem a tortura e opressão aumentaria e aquela pequena e dócil comunidade revelaria a sua real personalidade. Desde o mais mesquinho ao idealista Tom, cada um assume as suas cores verdadeiras e todos, da sua forma, condescendem e maltratam Grace.

DOGVILLE nem sempre consegue executar as ideias e ambições a que von Trier se propõe. Nem sempre o seu conceito resulta na prática e partes do filme parecem esforçar-se para encaixar e muito depende da capacidade que o espectador tenha para analisar criticamente e absorver o que está a ser exposto em ecrã. Não deixa nunca de ser uma obra viva, elegante, experimental e incrivelmente original. A exposição do dinamarquês sobre a injustiça que reina na sociedade contemporânea, violenta, desumana, fechada e antipática, em que muitas vezes julgamos os outros pela sua aparência e não damos oportunidade a quem é diferente de nós, é pertinente, actual e justificada. O seu voraz apetite para introduzir missivas contra os americanos, apesar de desnecessário, não retira valor ao resultado final do filme. Desafiador e profundo, DOGVILLE deve ser comemorado, porque além de uma obra-prima singular, de cunho indelével do cineasta dinamarquês, procura algo mais: fazer o espectador pensar criticamente, para variar.

por Jorge Rodrigues (Dial P For Popcorn).

Elenco
. Nicole Kidman (Grace Margaret Mulligan), Paul Bettany (Tom Edison, Jr.), John Hurt (Narrador), Lauren Bacall (Ma Ginger), Chloë Sevigny (Liz Henson), Stellan Skarsgård (Chuck), Udo Kier (Homem de casaco), Ben Gazzara (Jack McCay), James Caan (The Big Man), Patricia Clarkson (Vera)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Lars von Trier), Melhor Fotografia (Anthony Dod Mantle)


Sobre Lars von Trier

Depressivo, controverso e literalmente considerado como persona non grata pelo Festival de Cannes, é conhecido como um dos principais impulsionadores do Dogma 95 — colectivo avant-garde de realizadores baseado em valores narrativos, representativos e temáticos tradicionais — e a sua obra está preenchida por uma abordagem variada e iconoclasta a ambientes opressivos e pessimistas, onde a Humanidade é, invariavelmente, a causa de todos os males. Da sua filmografia, realce para O ELEMENTO DO CRIME (1984), EUROPA (1991), ONDAS DE PAIXÃO (1996), DANCER IN THE DARK (2000, Palma de Ouro em Cannes) e ANTICRISTO (2009).



sábado, junho 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Saraband, de Ingmar Bergman




Depois de FANNY E ALEXANDRE (1982), o mestre Ingmar Bergman anunciou que se ia retirar do cinema. No entanto, como parar é morrer, continuou a trabalhar em televisão e a escrever para amigos e colegas como Bille August ou Liv Ullman, nunca se afastando completamente nas duas décadas seguintes. E ainda bem, porque se há algo que SARABAND revela é que o talento nunca se esvai e, neste que ficou para a história como o seu último filme, está a profundidade na análise do ambiente familiar e o amor pela música que se pode reconhecer em SONATA DE OUTONO (1978) ou DEPOIS DO ENSAIO (1984), com a mesma vitalidade e honestidade. Isto sem esquecer que estamos a falar de uma sequela a CENAS DA VIDA CONJUGAL (1973)...

30 anos depois, na história e na realidade, com os mesmos actores, agora envelhecidos, o que introduz um grau de credibilidade inaudito a esta evolução. Marianne (Ullman) e Johan (Erland Josephson) continuam divorciados, mas mantiveram-se amigos. Ela visita-o no seu retiro veranil, onde uma crise familiar se desenvolve, com Henrik e Karin como centro da atenção, respectivamente filho e neta de Johan. Bergman encontra sempre na intimidade pormenores que, para quem olha de fora, indiciam as causas das relações mal resolvidas entre as personagens, tornando a precisão com que se vão desenvolvendo e o realismo das acções e dos diálogos fascinante.

Obrigado pelas memórias, direktör Bergman!

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Liv Ullmann (Marianne), Erland Josephson (Johan), Börje Ahlstedt (Henrik), Julia Dufvenius (Karin), Gunnel Fred (Martha)


Palmarés
. Prémios Sant Jordi: Prémio Especial (Ingmar Bergman)


Sobre Ingmar Bergman

Reconhecido como um dos autores mais completos e prestigiosos (Woody Allen e Krzysztof Kieślowski são dois dos cineastas que mais notam a influência de Bergman na sua obra) da História do Cinema, demonstrou, também, talento enquanto encenador e produtor de séries de televisão. Os seus temas predilectos — morte, doença, fé, traição, tristeza e loucura — estão patentes em títulos como O SÉTIMO SELO (1957), MORANGOS SILVESTRES (1957), O ROSTO (1958), A MÁSCARA (1966), A HORA DO LOBO (1968) e LÁGRIMAS E SUSPIROS (1972).



segunda-feira, junho 03, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci




Paris, Primavera de 1968. Após o escalar dos eventos na Universidade de Nanterre, que culminou em confrontos com a administração e a polícia, greves irrompem em várias universidades e escolas de ensino secundário. Pouco depois, onze milhões de franceses instigavam mudança.

É através deste furor revolucionário que Isabelle, Theo e o recém-chegado Americano, Matthew, observam, da janela do seu luxuoso apartamento, um espontâneo país num troar libertino. Bernanrdo Bertolucci usa aquele que muitos historiadores e filósofos consideram o acontecimento revolucionário mais importante do século XX para oferecer um retrato elíptico sobre a evolução de um ideal de sociedade. E fá-lo subliminarmente, através de intelectualismo, retórica e cinema. Em instância última, esta carta de amor à génese da sétima arte, discute abertamente a contribuição literal e utópica do cinema para autoavaliação. Todavia, a narrativa evolve controversamente para um término de mensagem incerta, envolta num cinismo que indica a necessidade absoluta de evolução e maturidade individual antes da possibilidade de evolução colectiva. Existe, portanto, uma dicotomia na relação simbiótica entre cinema e sociedade, que se suportam mutuamente no pesar da consciência grupal. À imagem de uma sociedade instigadora de mudança, OS SONHADORES é, precisamente, essa história de uma juventude em autodescoberta, que Bertolucci explora, através das vicissitudes da vivência e da experimentação, a transição para a vida adulta. Pautado pelas notáveis interpretações de Eva Green, Louis Garrel e Michael Pitt, a procaz visão do cineasta italiano ganha uma força poética assente num urbanismo hedonista afim de uma reinterpretação da "verdade" no ecossistema de cada indivíduo.

OS SONHADORES, erroneamente divulgado pelo conteúdo sexual, é não só uma das mais importantes análises sociológicas gravadas em película, mas sobretudo um brilhante e complexo exercício de cinema como o olho do século.

por Filipe Coutinho (Cinema is my Life).

Elenco
. Michael Pitt (Matthew), Eva Green (Isabelle), Louis Garrel (Théo), Anna Chancellor (Mãe), Robin Renucci (Pai), Jean-Pierre Kalfon (O próprio), Jean-Pierre Leaud (O próprio)


Sobre Bernardo Bertolucci

Marxista convicto e, portanto, cineasta abertamente político, a sua obra — que se prolonga por mais de cinco décadas — é caracterizada pela constante observação da História do Século XX e, simultaneamente, influenciada pela sua própria experiência de vida. Da filmografia de Bertolucci, destacam-se ANTES DA REVOLUÇÃO (1964), O CONFORMISTA (1970), O ÚLTIMO TANGO EM PARIS (1972), 1900 (1976) e O ÚLTIMO IMPERADOR (1987, Oscar para Melhor Filme e Realizador).



sábado, maio 18, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Regresso, de Andrei Zvyagintsev




Depois de uma longa e inexplicável ausência, o pai dos jovens Andrey e Ivan regressa a casa (uma moradia envelhecida e soturna, a qual indica, só por si, os tempos difíceis vividos por esta família), parecendo não querer perder muito tempo em reatar os laços afectivos com a sua prole. O primeiro passo configura-se na viagem que os três empreendem com o propósito de irem pescar. Aos poucos, a alegre perspectiva, para os dois irmãos, de uma experiência emocionante esvanece-se perante o gradual comportamento estranho e agressivo do pai e, tal como a natureza da ilha escolhida para a pescaria, o ambiente entre eles torna-se primal, hostil e violento.

O REGRESSO, impressionante primeira obra de Andrei Zvyagintsev, permite-se à multiplicação de leituras da história, mensagem e sentimentos encerrados no filme. Mas não obstante a interpretação que se lhe quiser conferir, e a importância da figura paterna nesta narrativa, as atenções de O REGRESSO estão focadas em Ivan e Andrey. Mais precisamente, no modo como os jovens reagem, lidam e maturam com uma crise "filial" gerada pela aparição e comportamento do pai, e do desespero advindo de um irrefutável colmatar, com tormenta, desilusão e impetuosidade, ao défice de influência paternal nas suas vidas.

Para os jovens protagonistas (Vladimir Garin e Ivan Dobronravov, em duas magníficas interpretações que vão muito para além de instinto juvenil), a única manifestação evidente do carácter do pai surge perto do fim, num momento de genuíno altruísmo que poderia ser descrito como amor incondicional. Se essa atitude empresta-lhe, ou não, méritos de redenção, eis uma das muitas ambiguidades do filme, favorecendo o convite que nos é endereçado, por Zvyagintsev, para o debate e reflexão, convertendo O REGRESSO num dos filmes europeus mais provocantes dos anos 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Vladimir Garin (Andrei), Ivan Dobronravov (Ivan), Konstantin Lavronenko (Pai), Natalia Vdovina (Mãe)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Revelação do Ano (Andrei Zvyagintsev)
. Festival de Veneza: Leão de Ouro (Andrei Zvyagintsev), Prémio SIGNIS (Andrei Zvyagintsev), Prémio 'CinemAvvenire' (Andrei Zvyagintsev), Prémio Luigi De Laurentiis ((Andrei Zvyagintsev, Dmitri Lesnevsky), Prémio Sergio Trasatti (Andrei Zvyagintsev)
. Festival Internacional de Gijón: Prémio Especial do Júri (Andrei Zvyagintsev), Melhor Actor (ex-aequo Vladimir Garin, Konstantin Lavronenko, Ivan Dobronravov), Melhor Argumento (Vladimir Moiseenko, Aleksandr Novototskiy-Vlasov)



O Cinema dos Anos 2000: Twentynine Palms, de Bruno Dumont




Twentynine Palms é uma cidade no interior da Califórnia, perto do parque nacional Joshua Tree, onde os cactos e as dunas se estendem para além do horizonte — um cenário perfeito para o fotógrafo David planear uma sessão futura e viajar com a sua namorada russa. A comunicação entre o casal é, acima de tudo, física, e as cenas de sexo sucedem-se. Não menos explícitos e crus são os atos violentos que abrem caminho pelo filme, de forma repentina e incompreensível.

Bruno Dumont nunca foi um realizador acessível, mas é inegável que tudo o que faz tem uma qualidade visceral e uma quietude que exigem atenção e dão espaço para pensar ao mesmo tempo, o que por si só é louvável. Ainda assim, quando decide deixar o enredo e o diálogo totalmente de lado como em TWENTYNINE PALMS, não é difícil de perceber porque é que divide audiências. O que um filme tão vago e aberto realmente significa é uma incógnita, mas o que se torna fascinante é como Dumont prolonga o silêncio ao ponto de o deserto parecer insidioso, deixando a dúvida sobre se essa ameaça se vai materializar ou não e o quão pessoal a resposta de quem o vir pode ser, na face dessa vastidão de vacuidade.

Como Bresson, sem artifícios, como Antonioni, com planos que continuam para além do que estamos habituados, de tal forma que quase esquecemos que o filme não está a acontecer em tempo real.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Yekaterina Golubeva (Katia), David Wissak (David)


Palmarés
. Festival Internacional de Cinema de Sitges: Menção Honrosa (Bruno Dumont)


Sobre Bruno Dumont

Autor de obras unanimemente classificadas como art films, a carreira de Bruno Dumont tem variado entre o drama realista e o horror psicológico, sem pejo de evidenciar violência extrema ou comportamentos sexuais explícitos, tornando-o num dos principais representantes do denominado Novo Extremismo Francês. Da sua filmografia, destacam-se LA VIE DE JÉSUS (1997), L'HUMANITÉ (1999), FLANDRES (2006) e FORA, SATANÁS (2011).



segunda-feira, maio 06, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Adeus, Lenine!, de Wolfgang Becker




A análise de contextos e ambiências sócio-culturais da Europa do pós-Segunda Guerra Mundial produziu uma série de propostas cinematográficas que conseguiram detalhar, sobretudo durante os anos 2000 e, por vezes, com enorme grau de sucesso — DOMINGO SANGRENTO (2002, Paul Greengrass), AS VIDAS DOS OUTROS (2006, Florian Henckel von Donnersmarck), O COMPLEXO BAADER MEINHOF (2008, Uli Edel) e IL DIVO — A VIDA ESPECTACULAR DE GIULIO ANDREOTTI (2008, Paolo Sorrentino) surgem como principais exemplos —, a autoridade das mudanças políticas do Velho Continente nos destinos, alegrias e tristezas de milhões de cidadãos. Nesse sentido, ADEUS, LENINE! distingue-se por, num aparente elogio do Comunismo, recordar-nos como amenos ventos de mudança e a reconciliação com o passado são passos necessários perante as turbulências de qualquer período de "transição administrativa".

Essa mudança e reconciliação são encarnadas em Alex, filho de Christiane, uma orgulhosa militante do Partido Socialista Unificado da República Democrática Alemã, que entra em coma pelo desgosto de vê-lo a ser detido como resultado da sua participação num protesto anti-governamental. Entretanto, o Muro de Berlim — e tudo o que aquele "monumento" acarretava — é derrubado. Quando Christiane recupera a consciência, Alex, receoso de que a mãe possa sucumbir com o que, para ela, seria um profundo golpe emocional, decide fingir que nada aconteceu e encena, na sua própria casa, o prosseguimento dos modos de vida anteriores à reunificação da Alemanha. A alegoria, assim como os inúmeros momentos humorísticos causados por esta situação, é tudo menos subtil, sobretudo na contraposição dos benefícios da abertura da RDA a hábitos Ocidentais, do triunfo do Capitalismo e no dilema moral da "realidade simulada" que Alex engendra perante a mãe.

Aos poucos, e enquanto a farsa vai sendo desmascarada — seja pelo enorme outdoor da Coca-Cola afixado mesmo em frente da janela do quarto de Christiane ou no fabuloso plano em que uma estátua deposta de Lenine se atravessa (literalmente) no seu caminho —, o tema de ADEUS, LENINE!, longe de se declarar como filme "nostálgico", eleva as acções do protagonista a exemplo de que as condições adequadas, independentemente do regime político ou clima económico em que se viva, devem ser, sempre e em primeiro lugar, fabricadas com as nossas próprias mãos. «A RDA que criei para ela tornou-se naquela que eu desejava que tivesse sido», afirma Alex a certa altura. E é impossível não encontrar, nesta atitude, uma qualidade intemporal e universal que, nos dias de hoje, ressoa de forma particularmente sentimental, inspiradora e eficaz.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Daniel Brühl (Alexander 'Alex' Kerner), Katrin Saß (Christiane Kerner), Chulpan Khamatova (Lara), Maria Simon (Ariane Kerner), Florian Lukas (Denis Domaschke), Alexander Beyer (Rainer), Burghart Klaußner (Robert Kerner)


Palmarés
. Festival Internacional de Berlim: Prémio Blue Angel (Wolfgang Becker)
. Festival Internacional de Valladolid: Prémio Especial do Júri (Wolfgang Becker)
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Wolfgang Becker), Melhor Actor (Daniel Brühl), Melhor Actriz (Katrin Saß)
. Césares: Melhor Filme da União Europeia (Wolfgang Becker)
. Prémios Goya: Melhor Filme Europeu (Wolfgang Becker)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Filme Estrangeiro (Wolfgang Becker)



quinta-feira, maio 02, 2013

O Cinema dos Anos 2000: A Arca Russa, de Alexander Sokurov




O Instituto de Cinematografia Gerasimov tem de ser considerado uma das maiores escolas do cinema mundial. De Sergei Eisenstein a Elem Klimov, poucos foram os grandes realizadores do leste que não passaram por lá, enquanto professores ou alunos. Alexander Sokurov aprendeu tudo aí e a influência do seu mentor, Andrei Tarkovsky, ainda hoje é sentida nos seus trabalhos. Se no início da carreira isso significava uma ausência de identidade própria e condenava tudo o que Sokurov fazia a serem cópias pouco cativantes e de baixa qualidade de ZERKALO, nos últimos anos já não se pode dizer o mesmo.

O díptico MÃE E FILHO (1997) / PAI E FILHO (2003) e a tetralogia sobre poder e corrupção confirmam que é um realizador virtuoso mas mostram também que é capaz de dar aos seus atores mais que monólogos pseudo-filosóficos e explorar, com distância suficiente para deixar no ar alguma ambiguidade, conflitos universais em família ou política.

Pelo meio, levou a cabo um dos maiores feitos do cinema moderno com A ARCA RUSSA, que consiste num plano-sequência único de 90 minutos pelo museu Hermitage. Recriando vários episódios da história russa e o ambiente das diferentes épocas em que se inserem, Sokurov consegue atingir aqui com mais convicção e segurança que nunca, um equilíbrio entre estilo e ideia, num dos mais hipnóticos e oníricos filmes que já tive oportunidade de ver e que culmina num longo baile, em que é dado uso à grande parte dos 2000 figurantes que participaram no filme.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Alexander Sokurov (Narrador), Sergei Dreiden (Marquês de Custine), Mariya Kuznetsova (Catarina, a Grande), Marksim Sergeyev (Pedro, o Grande), Anna Aleksakhina (Alexandra Feodorovna), Vladimir Baranov (Nicolau II)


Palmarés
. Festival Internacional de Toronto: Prémio Especial — Visions Award (Alexander Sokurov)


Sobre Alexander Sokurov

Considerado por muitos como o herdeiro espiritual de Andrei Tarkovsky, a sua carreira é marcada por uma preocupação em redor das questões essenciais da existência humana, em filmes onde longos planos sequência, estilo naturalista de interpretação e o recurso quase surreal do som são presença constante. Da sua filmografia, destacam-se MÃE E FILHO (1997), MOLOCH (1999), PAI E FILHO (2003) e FAUSTO (2011, Leão de Ouro no Festival de Veneza).



domingo, abril 21, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Filho, de Jean-Pierre e Luc Dardenne




A capacidade dos irmãos Dardenne em extrair das situações humanas, concebidas nos argumentos por eles assinados, autênticas fábulas morais de significado religioso e redenção humana encontra, em O FILHO, um dos seus expoentes máximos.

Numa lenta e austera exposição narrativa, sem qualquer espécie de música (nem sequer diegética) e com a câmara em constante grande plano do rosto e cabeça do protagonista, acompanhamos a crescente obsessão de Olivier, professor de carpintaria num centro de reabilitação juvenil, por Francis, um aluno recém-chegado. Os motivos para esse comportamento persecutório (desde a segui-lo pelos corredores do centro até a esgueirar-se na casa do jovem) apenas são, e muito surpreendentemente, revelados nos cinco minutos finais; mas antes desse momento, há um fabuloso crescendo de tensão, de diversas e escabrosas suspeições ou de uma bizarra busca por uma "figura filial" na sua vida, que instalam no espectador um profundo sentimento de desconforto e de incessantes probabilidades e inseguranças.

Na atmosfera de quase thriller demonstrada por O FILHO, existe igualmente, e acima de tudo o resto, uma poderosa mensagem de perdão e fé. A disciplina, primor e simpatia que Olivier empresta à sua actividade enquanto carpinteiro (uma possível leitura de associação ao Cristianismo é inevitável) revela-se aqui, e sobretudo com a conclusão do filme, como o tema fundamental explanado pelos Dardenne: uma cuidadosa lição, tanto para os alunos em reabilitação como para nós, da importância da exactidão e de empenho nas nossas vidas. Tais atitudes — a forma como agimos será sempre o que determinará as nossas existências — serão fulcrais para a remissão dos dois protagonistas, e no seio da relação pai-filho que realmente é encetada, o desenlace é marcado por um dos melhores, mais realistas e inolvidáveis exemplos de absolvição em Cinema. E não só nos anos 2000.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Olivier Gourmet (Olivier), Morgan Marinne (Francis Thorion), Isabella Soupart (Magali), Nassim Hassaïni (Omar), Kevin Leroy (Raoul), Félicien Pitsaer (Steve), Rémy Renaud (Philippo)


Palmarés
. Festival de Cannes: Melhor Actor (Olivier Gourmet), Prémio do Júri Ecuménico


Sobre os Irmãos Dardenne

Autores centrados numa análise madura, pungente e mordaz da condição humana contemporânea, com particular enfoque na natureza das relações familiares, Jean-Pierre e Luc Dardenne têm conquistado prémios e a crítica em títulos como A PROMESSA (1996) e O SILÊNCIO DE LORNA (2008). ROSETTA (1999) e A CRIANÇA (2005) conquistaram a Palma de Ouro no Festival de Cannes.



sábado, abril 13, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Lilya Para Sempre, de Lukas Moodysson




LILYA PARA SEMPRE está longe de ser o melodrama comum. Se as provações experimentadas pela protagonista que empresta o nome ao título do filme podem afigurar-se como clichés (a jovem residente de um bairro social russo e filha não desejada que é abandonada, e mais tarde renegada, pela progenitora, tem de recorrer à prostituição para sobreviver, acabando vítima de uma rede europeia de tráfico sexual), mas a sensibilidade europeia, mística e pop de Moodysson convertem-no num objecto cinematográfico díspar e contundente.

O espectador percebe, logo a partir da primeira sequência (apresentada em extremo in media res), que a vida futura de Lilya (impressionante desempenho de Oksana Akinshina) não será venturosa: a ameaça do suicídio paira, desde o início, na composição de LILYA PARA SEMPRE, que narrará os eventos que a levarão àquele estado de espírito, colocando inexoravelmente o espectador segundo o — em alguns casos, literal — ponto de vista da personagem principal. Esse desconforto constante é intensificado pela noção de que Lilya não é um espírito resistente nem estóico, totalmente incapaz de controlar ou influenciar os incidentes em seu redor — e o único vestígio de altruísmo em Lilya é representado pela adopção (falhada) de Volodya, também ele adolescente, oriundo de uma família problemática e sem mostras de feliz provir.

Paralelamente ao drama pessoal do filme, trespassa em LILYA PARA SEMPRE uma profunda observação social de sabor neo-realista, numa óbvia chamada de atenção aos dilemas tecidos por uma Europa legalmente cada vez menos "fronteiriça". Nesse âmbito, é possível fazer o paralelismo com outro título europeu, dos anos 2000 (mas não abordado nesta iniciativa), dedicado ao tema: O SILÊNCIO DE LORNA (2008, Jean-Pierre e Luc Dardenne). Em ambos os casos, a exploração do infortúnio humano e a insensibilidade legislativa do "Velho Mundo" revelam-se inconciliáveis com a procura da felicidade das suas protagonistas femininas. Contudo, há sempre a esperança. Mesmo que essa réstia assuma a forma de um epílogo etéreo, gentil e filmado à "hora mágica" do dia.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Oksana Akinshina (Lilja), Artyom Bogucharskiy (Volodya), Lyubov Agapova (Mãe de Lilja), Liliya Shinkaryova (Tia Anna), Elina Benenson (Natasha), Pavel Ponomaryov (Andrei)


Palmarés
. Festival Internacional de Gijón: Grande Prémio Astúrias (Lukas Moodysson), Melhor Actriz (Oksana Akinshina), Prémio Especial do Júri da Juventude (Lukas Moodysson)
. Festival Internacional de Estocolmo: Prémio Canal+ (Oksana Akinshina)


O Neo-Realismo dos Anos 2000

LILYA PARA SEMPRE demonstra um vincado estilo caracterizado pela atmosfera de autenticidade no seio de uma ficção narrativa. E os anos 2000 testemunharam a continuação e ascensão de cinematografias marcadas pelo neo-realismo. A Roménia — A MORTE DO SR. LAZARESCU (2005, Cristi Puiu; na imagem), 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007, Cristian Mungiu) —, a América do Sul — MACHUCA (2004, Andrés Wood), SEM NOME (2009, Cary Fukunaga) — e os próprios Estados Unidos da América — BALLAST (2008, Lance Hammer), WENDY & LUCY (2008, Kelly Reichardt) — são os principais representantes geográficos de um cinema socialmente interventivo e documental na última década.



terça-feira, abril 09, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Irreversível, de Gaspar Noé




Quando IRREVERSÍVEL foi apresentado em Cannes, cerca de 200 pessoas saíram da sala enojadas e a condenar a produção... nos primeiros 30 minutos. Por outro lado, Gaspar Noé tornou-se um realizador com o seu cult following e um dos nomes mais sonantes do que veio a ser denominado Novo Extremismo Francês, dada a abundância de gore cinemático no início do milénio nesse país. O que pode, afinal, justificar reações tão antagónicas?

Em primeiro lugar, é um filme sobre vingança. Alex (Monica Bellucci) é violada e espancada numa passagem subterrânea algures em Paris e o seu namorado (Vincent Cassel, tal como na vida real) passa o resto da noite à procura do criminoso, que acaba por encontrar e matar. É impossível estar preparado para o realismo inacreditável de ambas as cenas; para além da selvajaria com que os atos são cometidos, a duração da primeira, em especial, é um verdadeiro massacre que envolve fisicamente o espectador.

O facto de IRREVERSÍVEL se ir construindo de forma anti-cronológica obriga também a um esforço intelectual tão bem engendrado quanto o efeito visceral que provoca, porque nos faz testemunhas de crimes para os quais passamos a estar constantemente à espera de justificações. Noé torna esta viagem cada vez menos sinuosa, com a sua câmara de mão, em longos planos-sequência, e usando efeitos visuais e sonoros quase imperceptíveis mas que contribuem para adensar a experiência, até à calma do dia anterior ao explorado.

A naturalidade dos atores torna a ação verosímil ao ponto de a ideia mais assustadora ser pensar na frequência com que a violência ocorre e como pode ser tão aleatória. IRREVERSÍVEL é um inferno urbano que só tem paralelo com TAXI DRIVER, ainda que aqui a preocupação seja menos com os meandros que potenciam a violência e apenas com as suas consequências. Sob essa perspectiva, é um filme corajoso, reduzido à verdade nua e crua.

por David Lourenço (O Narrador Subjectivo).

Elenco
. Monica Bellucci (Alex), Vincent Cassel (Marcus), Albert Dupontel (Pierre), Jo Prestia (Le Tenia )


O Novo Extremismo Francês

Descrito por críticos e autores como um estilo criado para "quebrar todos os tabus", onde histórias de terror físico e psicológico misturam-se com a apresentação gráfica e incondicional de transgressão, violência e sexo. Deste movimento, que se estabeleceu em definitivo durante os anos 2000, realizadores como Gaspar Noé, Catherine Breillat (PARA A MINHA IRMÃ, 2001), Bruno Dumont (29 PALMS, 2003), Claire Denis (35 SHOTS DE RUM, 2008), Bertand Bonello (LE PORNOGRAPHE, 2001), Jean-Claude Brisseau (À AVENTURA, 2008) e Alexandre Aja (HAUTE TENSION, 2003) pontificam como principais representantes.



segunda-feira, abril 08, 2013

O Cinema dos Anos 2000: 24 Hour Party People, de Michael Winterbottom




A liberdade total de expressão, em qualquer das suas formas, é um sonho há muito perseguido por aqueles que elegeram a produção criativa e artística como formas de vida. Tony Wilson, manager discográfico e empresário musical, tentou ser a plena encarnação dessa utopia — seja nos riscos que assumiu, na atitude demonstrada ou no sangue que usou para assinar um contrato e provar assim o seu compromisso em nunca impor barreiras às bandas que agenciou. O mesmo sentimento transpira em 24 HOUR PARTY PEOPLE, uma obra de cinema ambiciosa, auto-condescendente e ousada com os factos da personalidade que recria.

Tony Wilson (vigorosa e apaixonadamente interpretado por Steve Coogan), é o eixo pelo qual gravita uma série de personagens que surgem e desaparecem ao ritmo vertiginoso da montagem e da exuberante direcção de fotografia de Michael Winterbottom. Amplificando o teor mitológico de algumas sequências — desde a mencionada assinatura a sangue até àquela involuntária reunião na mesma sala de uma série de ilustres desconhecidos que mais tarde dariam cartas no Brit Rock —, 24 HOUR PARTY PEOPLE coloca Wilson num lugar de simultâneo controlo e passiva observação do nascimento de fenómenos como os Sex Pistols, os Buzzcocks ou os Joy Division, permitindo que o filme se centre nestas individualidades. Os quais, em alguns dos casos, conseguem superá-lo. Exemplo disso é Sean Harris, exemplar na demonstração da intensidade em palco, e inquietação na privacidade, do lendário Ian Curtis — cujo desaparecimento faz-se sentir também durante o filme.

Cedo percebemos que não é preocupação do realizador se a autenticidade da imagem de Tony Wilson, manifestada em 24 HOUR PARTY PEOPLE, fica próxima da realidade ou não — nem se, por outro lado, da imagem da época em que se situa. Este é um inesperado filme utópico (não há que recear voltarmos, num mesmo texto, ao termo "utopia"), onde, em vez de uma mensagem, encontramos algo de mais importante na figura do protagonista: de que o rock n' roll, tal como a juventude, é impulsionado pelo idealismo. No caso de Wilson, esse conceito revela-se nos excessos de um homem de negócios extravagante, adúltero, tagarela e toxicodependente que, perante a sua própria ruína, é capaz de respeitar e dignificar o seu semelhante. Capaz de um optimismo que nunca interfira com o entusiasmo de outros, nem de se vender sem manter a integridade dos seus ideais. Capaz de ser suficientemente grande para a História da música Britânica, e ser grande no momento em que sai de cena.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Steve Coogan (Tony Wilson), Conrad Murray (Bailey Brother), John Thomson (Charles), Shirley Henderson (Lindsay Wilson), Paddy Considine (Rob Gretton), Lennie James (Alan Erasmus), Andy Serkis (Martin Hannett), Sean Harris (Ian Curtis)


Sobre Michael Winterbottom

Conhecido por produzir filmes intensos e apaixonados dedicados às exigências e emoções das relações humanas, e sem nunca prender-se a um género específico, o ecletismo de Winterbottom tem surgido em interessantes títulos como BENVINDO A SARAJEVO (1997), IN THIS WORLD (2002), TRISTRAM SHANDY: A COCK AND BULL STORY (2005) e A CAMINHO DE GUANTÁNAMO (2006).



domingo, abril 07, 2013

O Cinema dos Anos 2000: O Homem Sem Passado, de Aki Kaurismäki




O HOMEM SEM PASSADO foi a definitiva afirmação do humor anárquico e surreal, centrado em personagens misteriosas, taciturnas e socialmente desfavorecidas, do realizador finlandês Aki Kaurismäki. Embora assumisse, há muito, presença fundamental no panorama europeu cinematográfico, Kaurismäki constrói aqui um dos mais eficazes retratos (nomeado, aliás, para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, tendo perdido para o menos interessante ALGURES EM ÁFRICA, de Caroline Link) da complexidade social dos anos 2000, contrapondo uma curiosa exposição, tanto visual como temática, do conceito de comunidade à incompetência política e insensibilidade humana dos nossos tempos.

Não surpreendentemente, como se para uma renovação da sociedade contemporânea fosse necessária a supressão da memória de acontecimentos passados, M, o protagonista de O HOMEM SEM PASSADO, começa o filme praticamente amnésico, vítima de um brutal espancamento por três assaltantes. Ensanguentado e perdido numa cidade que lhe é desconhecida — chega, inclusive, a ser declarado morto no hospital —, encontra ajuda não entre os membros mais qualificados e abastados daquela comunidade, mas sim nos inteiramente desprovidos. Em específico, um grupo de pessoas a residir em contentores num cais portuário, de quem se torna amigo. Ali, refaz a sua vida, revela os prazeres do rock n' roll aos habitantes daquela desolada localidade e até encontra o amor junto de uma trabalhadora do Exército da Salvação. Os pormenores da sua identidade anterior ressurgem subitamente.

A sua nostálgica paleta de cores, a prestar tributo ao Technicolor dos anos 50, confere-lhe o aspecto de um afável feel good movie. Contudo, e ao mesmo tempo, a mensagem e o ritmo aqui explanados por O HOMEM SEM PASSADO permitem a Kaurismäki dissecar a indiferença e crueldade humana no seio de uma sociedade "oficiosa", caracteristicamente fria e burocrata. Do médico que lhe passa a certidão de óbito, passando pelos polícias que o ameaçam com três meses de cadeia por não ter documentos até aos funcionários do centro de emprego, M é quase desprovido da sua humanidade por um mundo mais atento a números e a impressos.

E, na sua ausência de identidade, a amnésia do protagonista revela-se interessante mecanismo narrativo. A impossibilidade de revelar ao mundo o seu nome ou a sua origem transforma-se no argumento mais forte para Kaurismäki comprovar que apenas saberemos quem somos (a nossa identidade, individualidade e sentimento de pertença no mundo) quando encontrarmos o nosso lugar no seio de uma comunidade de pessoas.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Markku Peltola (M), Kati Outinen (Irma), Juhani Niemelä (Nieminen), Kaija Pakarinen (Kaisa Nieminen), Sakari Kuosmanen (Anttila)


Palmarés
. Festival de Cannes: Grande Prémio do Júri (Aki Kaurismäki), Melhor Actriz (Kati Outinen), Prémio do Juri Ecuménico
. Prémios da Academia Europeia: Prémio do Público (Aki Kaurismäki)
. Festival de San Sebastián: Prémio FIPRESCI (Aki Kaurismäki)


Sobre Aki Kaurismäki

Autor de excêntricas paródias e fábulas humanas, preenchidas por uma visão singular de cultura popular sem género predominante (road movie, film noir, comédia negra, musicais...), Kaurismäki distinguiu-se em filmes como ARIEL (1988), LENINGRAD COWBOYS GO AMERICA (1989), A RAPARIGA DA FÁBRICA DE FÓSFOROS (1990) e LE HAVRE (2011).



quinta-feira, março 14, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Sabe-se Lá, de Jacques Rivette




Obra de subtil complexidade e serena mise-en-scène, SABE-SE LÁ é o testemunho, em plenos anos 2000, de um modo de emprego cinematográfico que reúne as perspicazes dinâmicas narrativas da Nouvelle Vague — ou não fosse Jacques Rivette um dos poucos representantes daquela corrente ainda no activo — à visão contemporânea da eterna temática de como a arte imita a vida.

Crónica de uma companhia teatral italiana em digressão por Paris, SABE-SE LÁ centra-se nas vicissitudes da relação entre a actriz Camille (Jeanne Balibar) e o seu amante e cenógrafo Ugo (Sergio Castellitto), ameaçada pelos motivos — um caso amoroso falhado com um presunçoso académico — que a levaram a abandonar o seu país natal, e que rapidamente ameaçará a harmonia artística de uma representação da peça de Luigi Pirandello, «Come tu mi vuoi».

A encenação teatral, coadjuvada por um conjunto de sequências recorrentes passadas nos bastidores e no quarto de hotel de Camille, servem de elaborado cenário não só para a revelação das complexas e mutáveis paixões das personagens, mas também em função da exposição dos temas "secundários" do filme: a forma gradual como o que é considerado público se torna privado e vice-versa, a graciosa ironia das emoções humanas e a fábula moral acerca das decisões passadas que, teimosamente, convergem para o presente. Por outras palavras, o palco que dá o mote às palavras de Pirandello é, irremediavelmente, o palco da própria vida.

Mas, em última instância, o argumento de SABE-SE LÁ (da co-autoria de Pascal Bonitzer, habitual colaborador de Rivette) substancia-se nas alianças, partilhas, traições, amores e humores de personagens em conflito (não falta, sequer, um confronto final entre dois amantes ciumentos) que, num registo romântico-dramático que orgulharia Eric Rohmer e através do seu esplêndido elenco, salda-se num dos melhores melodramas do princípio da última década.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Jeanne Balibar (Camille B.), Sergio Castellitto (Ugo), Jacques Bonnaffé (Pierre), Marianne Basler (Sonia), Hélène de Fougerolles (Dominique 'Do'), Catherine Rouvel (Madame Desprez), Bruno Todeschini (Arthur)


Palmarés
. Festival Internacional de Valladolid: Prémio Especial do Júri
. Prémios Sant Jordi: Melhor Actor Estrangeiro (Sergio Castellitto)


Sobre Jacques Rivette

Um dos fundadores da Nouvelle Vague, as suas narrativas — profundamente inspiradas na admiração pessoal do cineasta pelos filmes de Robert Aldrich, Otto Preminger e Alfred Hitchcock — exploram o choque entre realidade e imaginação. Estes temas foram expostos em obras como LA RELIGIEUSE (1966), L'AMOUR FOU (1969), A BELA IMPERTINENTE (1991) e 36 VISTAS DO MONTE SAINT-LOUP (2009).



quinta-feira, dezembro 20, 2012

HOLY MOTORS (2012), de Leos Carax



24 horas na vida de Monsieur Oscar (Denis Lavant), um ente que se desloca de ser vivo para ser vivo, como um assassino solitário se desloca de vítima para vítima. Cada vida que possui tem uma identidade distinta: assassino, pedinte, presidente de uma grande empresa, criatura monstruosa, trabalhador, homem de família...

Torna-se claro que Monsieur Oscar representa e que se atira de cabeça para cada novo papel. Mas onde estão as câmaras, a equipa de filmagem, o realizador?
— filmspot.pt



Enigmático, bizarro, visualmente cativante e inconformado são adjectivos que poderão caracterizar HOLY MOTORS. Todavia, nada aqui se revelará inteiramente satisfatório nem cumprido, apenas sugerido em toda a parafernália referencial (sobretudo, pretende-se a reflexão ao estado actual do Cinema) com que Leos Carax preenche o estranho quotidiano do protagonista Monsieur Oscar. E o poder da sugestão (ou da auto-sugestão, no caso do espectador) pode ser um instrumento perigoso.

É-me impossível negar a afirmação de que HOLY MOTORS representa um dos títulos do ano. E não o nego por todas as altruístas e metafóricas intenções a que, aparentemente, se propõe: o olhar desencantado sobre uma arte corrompida por "monstros", dominada pelo digital e por uma "realidade virtual" que atrai mas não contenta, por «câmeras de filmar mais pequenas que as nossas cabeças», pela incapacidade de distinguir o belo do grotesco e pelo product placement que não poupa, sequer, campas mortuárias.

O problema? Não sustenta nem alimenta, no filme ou no observador, nenhum desses interessantes conceitos.







HOLY MOTORS resulta, portanto, no tipo de filme que, na forma, esconde o seu pretensiosismo através do experimentalismo e, no conteúdo, encantará estudantes de cinema e críticos enlevados (ou ainda indignados por ter sido tão veementemente sonegado pelo juri do último Festival de Cannes...) pela suposta genialidade que é aqui formulada.

Labiríntico pelo simples desejo de ser labiríntico, HOLY MOTORS nunca parece natural ou pouco esforçado nos seus misteriosos preceitos. Aliás, o único elemento que aqui se "move" bem é Denis Lavant: numa interpretação merecedora de reconhecimento público, é calma e fúria, alegria e tristeza, elegância e obscenidade de uma assentada só.

Exemplo máximo de auto-ambição desmedida, que destrói qualquer sentido. Inclusivamente, a ausência de sentido.

quinta-feira, dezembro 06, 2012

AMOR (2012), de Michael Haneke



Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva) são um casal de octagenários, pessoas cultas, professores de música reformados. A filha de ambos, igualmente artista, vive no estrangeiro com a família. Um dia, Anne tem um acidente que a deixa debilitada e o amor que une este casal sofre uma rude prova. — filmspot.pt



O vencedor mais recente da Palma de Ouro em Cannes é, para nosso gáudio, tudo aquilo que se poderia esperar do "cânone" Michael Haneke: a devastação sentimental e incondicional, o nunca gratuito melodrama do sofrimento humano, a desvirtuação do lugar da família no Cinema. Com AMOR, o ditado "na saúde e na doença" assume uma daquelas raras instâncias em que a abordagem emocional é profunda, humanamente intensa e genuína, e a dor não pertence só aos protagonistas.

Nesse âmbito, AMOR apresenta-nos duas das performances mais poderosas do ano. O "renascido" Jean-Louis Trintignant — repentino e enigmático retrato, quase extremo, de dedicação matrimonial — e a majestosa Emmanuelle Riva (se existisse justiça nesse campo, todos os prémios de interpretação feminina pertencer-lhe-iam), que domina todo o filme, mesmo quando a sua presença resume-se à enfermidade acamada e silenciosa .





Será quase redundante afirmar o quão desconfortável, elementar e cínico o filme pode ser, por vezes incomportável, nunca irónico mas pleno de amor do princípio ao fim — porque é uma certeza, o amor, o verdadeiro, dependente e irrestrito amor está espelhado ao longo dos seus 127 minutos de duração. O amor que complementa e reconforta, que faz verter a lágrima nos bons e maus momentos, onde a felicidade é partilhada e a distância, temporária ou permanente, quase ensandecedora.

Mas há que não (nunca!) esquecer o facto de estarmos face a um filme de Michael Haneke e, em parte, à particular e "gélida" mensagem que só o realizador conseguiria formular. Ou seja, a de que o amor pode conferir significado à morte, mas não a torna menos insuportável.

Depois de ver AMOR, nada ficará igual na nossa "alma" cinéfila, poderá mesmo ficar irremediavelmente arrasada. Pelo Cinema que mexe com o âmago das nossas convicções, é um dos melhores filmes do ano.

segunda-feira, novembro 26, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

O MOINHO E A CRUZ (2011), de Lech Majewski



Em 1564, Peter Brueghel (1525-1569) pintou "Subida ao Calvário", uma representação com mais de 500 personagens, sob o tema da crucificação de Jesus e as perseguições religiosas na Flandres. Em 1996, mais de 400 anos depois, esse quadro deu origem à monografia "The Mill and the Cross", uma análise exaustiva à obra de Brueghel pelo reconhecido crítico de arte Michael Francis Gibson.

Em 2011, o cineasta polaco Lech Majewski, inspirado por ambas as obras e utilizando cenários pintados conjuntamente com as mais recentes técnicas digitais, transporta para o grande ecrã a história de 12 daquelas personagens, num ambiente estilizado como se de um quadro a óleo se tratasse.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]


segunda-feira, novembro 12, 2012

Agenda Cinematográfica

:: 9500 CINECLUBE DE PONTA DELGADA ::

GALINHA COM AMEIXAS (2011), de Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud



Teerão, 1958. Nasser Ali Khan, o mais famoso violinista, perde o seu violino, partido durante uma discussão. Incapaz de encontrar outro que o possa substituir, Nasser Ali percebe que a vida sem música é intolerável. Fecha-se no quarto, sem sair da cama e os seus sonhos fazem-no regressar à sua infância ou transportam-no para o futuro dos seus filhos. Durante essa semana, à medida que as peças da sua história se encaixam, descobrimos o seu segredo e a razão que o leva a desistir da vida em nome da música e do amor.



[Hoje, pelas 21h30, na Sala 2 do Cine Solmar.]

sexta-feira, novembro 02, 2012

SR. NINGUÉM (2009), de Jaco Van Dormael



Nemo Nobody (Jared Leto) leva uma vida normal ao lado da mulher, Elise, e dos três filhos de ambos. Até ao dia em que acorda como um velho em 2092. Aos 120 anos, o Sr. Nobody é o homem mais velho do mundo e o último espécime mortal de uma humanidade em que já ninguém morre. No entanto, nada disso parece preocupá-lo. O que lhe importa, realmente, é saber se viveu da forma mais correcta, se amou a mulher que era suposto amar e se teve os filhos que era suposto ter. O seu único objectivo de vida, naquele momento, é descobrir a resposta para estas questões. — filmSPOT.pt



Comovente mas longe do exageradamente sentimental, virtuoso mas sem cariz de visualmente sufocante, complexo mas nunca pretensioso nem confuso, SR. NINGUÉM é uma refrescante abordagem ao eterno tema (no cinema, na literatura, na música...) da importância das escolhas em determinados momentos da nossa vida.

Pelas interpretações — destaque obrigatório para Jared Leto, definitivamente um dos melhores actores da sua geração com "défice" de reconhecimento na Sétima Arte — e, sobretudo, através da sua assombrosa estética não-linear, simbólica e ultra dimensional, SR. NINGUÉM demarca-se de outros títulos através de fulgurantes decisões de montagem (os planos alternativos da narrativa, por mais distantes que estejam espacial e geograficamente, apresentam uma fluída mas arriscada firmeza) e por uma resoluta atenção aos pormenores que, por si só, poderiam contar este argumento inteligente.

Nesse âmbito, a narrativa de SR. NINGUÉM, repleta de intricadas referências especulativas (como, por exemplo, o uso da Teoria do Caos ou do Efeito Borboleta na determinação dos vários rumos assumidos pelo protagonista) e de múltiplos registos (drama familiar, ficção-científica, cinema surreal), é coadjuvada por uma direcção de fotografia soberba, expansiva e experimental — tal e qual como a memória, factor determinante para a mensagem final do filme.







Óptima adição, na forma e no conteúdo, a títulos como VANILLA SKY (2001, Cameron Crowe), O DESPERTAR DA MENTE (2004, Michel Gondry) e, se quisermos ser muito ambiciosos nas comparações, LA JETÉE (1962, Chris Marker) ou 2001: ODISSEIA NO ESPAÇO (1968, Stanley Kubrick), Jaco Van Dormael compõe uma obra total e imersiva, exigente mas acessível nos seus propósitos — não tenham dúvidas, qualquer público-alvo apreenderá as morais aqui trabalhadas — e, apesar da sensação de que o filme não sofreria com a resolução mais célere de uma ou outra sequência, totalmente satisfatória.

Foi preciso esperar três anos para que estreasse no nosso país. Agora que cá está, vale a pena ir conhecer SR. NINGUÉM.