quinta-feira, abril 25, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Infernal Affairs — Infiltrados, de Andrew Lau e Alan Mak




Thrillers oriundos de Hong Kong não são uma novidade, mas poucos foram capazes de dinamizar o género na primeira década dos anos 2000 como INFERNAL AFFAIRS — INFILTRADOS, uma obra realizada a meias por Andrew Lau e Alan Mak, que mais tarde viria a ter direito a duas continuações e um remake. Filme intenso, marcante e magnificamente elaborado, INFERNAL AFFAIRS tem como especial condimento o facto de contar com uma dupla de protagonistas formada por um polícia que se encontra infiltrado num perigoso gangue de tráfico de droga e um gangster que se encontra infiltrado junto das forças das autoridades, duas figuras cheias de contrastes, complexas e interessantes de acompanhar, que não sabem a identidade um do outro.

A história facilmente poderia descambar numa mera onda de violência recheada de reviravoltas pueris e previsíveis, mas INFERNAL AFFAIRS destaca-se pela sua inteligência e capacidade de desenvolver os dilemas morais dos personagens, o desgaste que estes sofrem ao longo da sua missão, as mudanças comportamentais que conhecem ao longo do tempo e os seus problemas pessoais. Longe de se perder em redundâncias, o filme procura explorar as problemáticas relacionadas com as agendas de Chan (polícia infiltrado na máfia) e Lau (gangster infiltrado na polícia), ao mesmo tempo que desenvolve a procura da polícia em derrubar o gangue associado ao tráfico de heroína e a tentativa do grupo criminoso em estar à frente da polícia, bem como a criação gradual da tensão por aquele momento que todos esperam, ou seja, o confronto entre os protagonistas.

INFERNAL AFFAIRS surge mais intrincado do que um mero jogo entre "polícias e gangsters" ou do jogo "entre o gato e o rato", ou até da mera acção explosiva. Desde logo porque a linha entre os protagonistas e os antagonistas está bastante esbatida, embora estes sejam duas figuras dicotómicas a nível de comportamento e de valores, mas também pelo jogo estratégico que rodeia toda a narrativa. Chan e Lau não se conhecem, não sabem a identidade um do outro, mas sabem que o primeiro a falhar morre, enquanto as autoridades tardam em conseguir sufocar o crime em Hong Kong e este território se transforma no tabuleiro de xadrez dos dois protagonistas. Este "tabuleiro de xadrez" surge complexificado não só pelo argumento aprumado, mas também pelo excelente trabalho de fotografia, capaz de adensar a atmosfera de incerteza que rodeia a narrativa e criar um clima propício à insegurança dos gestos e dos comportamentos, ao mesmo tempo que somos apresentados um território de Hong Kong a "ferro e fogo" onde as autoridades e os criminosos estão em pleno pé de guerra.

Surpreendente, enérgico, violento e recheado de mind games, INFERNAL AFFAIRS não vem com falsos moralismos para cima do espectador, enquanto apresenta uma história complexa e violenta, que culmina na obtenção de um thriller a roçar a perfeição, que ganha um novo valor a cada visualização. Com um argumento coeso, que é capaz de sustentar a narrativa durante toda a sua duração e desenvolver os personagens e as subtramas, INFERNAL AFFAIRS é um thriller soberbo, onde a um excelente elenco junta-se uma magnífica história e realização de Alan Mak e Andrew Lau, que tornam esta obra cinematográfica simplesmente inesquecível.

por Aníbal Santiago (Rick's Cinema).

Elenco
. Andy Lau (Inspector Lau Kin-ming), Tony Leung (Chan Wing-yan, Edison Chen (Lau Kin-ming criança), Shawn Yue (Chan Wing-yan criança), Anthony Wong (Superintendente Wong Chi-shing), Eric Tsang (Hon Sam), Chapman To ("Crazy" Keung)


O remake americano de filmes asiáticos

Embora seja prática recorrente desde os anos 60 (basta recordar o precedente aberto pelos filmes de Akira Kurosawa adaptados a westerns norte-americanos), a década de 2000 assistiu ao aumento de obras refeitas a partir de títulos asiáticos. Com o género do J-Horror em lugar cimeiro — THE RING — O AVISO (2002, Gore Verbinski, na imagem), THE GRUDGE — A MALDIÇÃO (2004) —, os cinemas de Hong Kong (como é o caso deste INFERNAL AFFAIRS, no qual Scorsese se baseou para o premiado THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS), da Tailândia (O OLHO, 2008) e da Coreia do Sul (ESPELHOS, 2008) têm sido os principais "visados" numa tendência que, para alguns, assinala um domínio criativo asiático em prejuízo da inovação em Hollywood.



1 comentário:

Jorge Teixeira disse...

Grande filme, totalmente bem encaixado nesta iniciativa, aliás como o belo texto do Aníbal assim o denuncia.

Cumprimentos,
Jorge Teixeira
Caminho Largo