sexta-feira, abril 26, 2013

LEVIATHAN (2012), de Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor



Filmado em alto mar, o documentário resulta de uma pesquisa feita sobre o porto de New Bedford, antiga capital mundial da caça à baleia. Tendo como tema o regresso a uma indústria com anos de história, e como mística uma forma quase esmagadora de beleza, o documentário decorre a bordo do navio e explora vários pontos de vista pois foi filmado com uma dúzia de pequenas câmaras de vídeo que os pescadores do navio e os realizadores usaram como se fizessem parte do seu corpo e enquanto executavam as tarefas mais árduas. — IndieLisboa.



No final, os grandes protagonistas de LEVIATHAN são as câmaras GoPro utilizadas pelos realizadores para forjar esta visão documental aterradora, intimista e única de um universo que, só aparentemente, a estética cinematográfica não parecia encontrar lugar para a experimentação. Contrariando essa realidade, os realizadores Verena Paravel e Lucien Castaing-Taylor tanto nos colocam na perspectiva do pescador que lança as redes, para de seguida a acoplar àquela mesma armadilha (ficamos a saber, e em grande plano, como é o ambiente marinho da actividade piscatória), proporcionam-nos a agonia na primeira pessoa de milhares de esbracejantes peixes moribundos e fazem-nos "nadar" ao lado de estrelas do mar, ameijoas e mexilhões.

Estamos, sem dúvida, perante um ambiente sensorialmente agressivo, húmido e fétido, potenciado não só pelo poder das suas imagens — virtualmente todas são captadas à noite, onde o desfoque é omnipresente — como, paralelamente, no subtil, ameaçador e constante ruído de fundo, audível durante toda a sua duração, que funciona quase ao nível do ultra-som. Deste modo, a atracção e a repulsa são sentimentos que nunca abandonam o espectador durante LEVIATAN (o título refere-se ao monstro marinho bíblico, citado logo no início do filme, mas aqui a "monstruosidade" revela-se, apenas e só, pela revivescência visual criada).

Com uma composição formal adequada à reflexão e múltipla interpretação — o ritmo da montagem do filme possibilita, talvez inevitavelmente, a atmosfera contemplativa —, afigura-se paradoxal que o seu maior problema resida na sua mensagem ou, pior, na tentativa de. É indisfarçável a sugestão de um pendor ecologista, denunciando a forma como a pesca industrial está a exaurir os oceanos da sua fauna. Contudo, em LEVIATAN, os realizadores, conscientemente ou não, quedam-se pelo assombro (e revolução?) técnica alcançada. E embora ninguém consiga ficar-lhe indiferente, eis um grande exercício de estilo que permanecerá sempre longe de uma materialização temática.

[Filme em Competição no IndieLisboa 2013.]



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