sexta-feira, abril 19, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Intervenção Divina, de Elia Suleiman




A aziaga e conflituosa vizinhança, representada em INTERVENÇÃO DIVINA, mostra-se como estranha mas brilhante metáfora ao conflito israelo-palestiniano, o qual é o alvo omnipresente desta comédia surreal, absurda e pontuada pelo característico humor negro de Elia Suleiman. Parco em diálogos e quase ausente de uma narrativa linear, o filme desenrola-se numa série de memoráveis imagens bizarras que captam a atenção e direccionam, irremediavelmente, o espectador para a mais simples das mensagens: "faça-se o amor e não a guerra".

Desde as primeiras imagens, onde um Pai Natal é assassinado numa planície rochosa da Nazaré israelita (a associação ao Cristianismo é tudo menos casual) por um grupo de jovens, passando pelo tanque de guerra que, no meio daquela perpétua zona de discórdia, explode com o simples impacto de um caroço de pêssego, e até à guarnição do exército que se desmorona apenas pela "força" da sensualidade de uma mulher decidida em romper um bloqueio fronteiriço, Suleiman constrói INTERVENÇÃO DIVINA a partir deste incessante ambiente de sketches, bem conseguidos na sua dinâmica e só aparentemente inexplicáveis; há a sensação constante de que cada um destes "episódios" possui um propósito, um tema, uma razão de ser (nem que seja pela pura hilaridade) cuja decifração nunca é espinhosa. Pelo contrário, demonstra a peculiar sensibilidade política, o poder de timing e a disciplina formal de Suleiman enquanto um dos principais "influenciados" dos anos 2000 pelo cinema de Jacques Tati. Nas mãos de um talento menor, este conjunto de vinhetas cómico-dramáticas falharia, por completo, a sua complexidade moral.

De rosto imperturbável, mesmo nas sequências de maior absurdez (por exemplo, os encontros proibidos do seu personagem com uma mulher israelita junto de um ponto de controlo, que se resumem a uma lânguida troca de mãos, são pontuados por um fabuloso trabalho de ausência e contenção emocional), Elia Suleiman recorda-nos, no final, a tragédia e o surreal da vida — e de como o humor pode encerrar a poesia necessária para o equilíbrio desejado.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Elia Suleiman (E.S.), Manal Khader (Mulher), Denis Sandler Sapoznikov (Soldado Israelita)


Palmarés
. Prémios da Academia Europeia: Screen International Award (Elia Suleiman)
. Festival de Cannes: Prémio do Júri (Elia Suleiman), Prémio FIPRESCI (Elia Suleiman)
. Festival Internacional de Chicago: Prémio Especial do Júri (Elia Suleiman)


Sobre Elia Suleiman

Com um estilo cinematográfico muito inspirado em Buster Keaton e Jacques Tati, Suleiman tem explorado, em filmes como CHRONICLE OF A DISAPPEARANCE (1996) e O TEMPO QUE RESTA (2009), a ténue interacção entre o burlesco e a sobriedade emocional. Paralelamente, é uma das principais figuras académicas do Médio Oriente sobre Cinema e Estudos Fílmicos.



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