sábado, abril 20, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Dolls, de Takeshi Kitano




Perante o fracasso de BROTHER, a sua primeira incursão na realização cinematográfica nos Estados Unidos da América, Takeshi Kitano regressou ao seu Japão natal para desenvolver um filme que de certa forma marca uma ruptura em relação às suas obras cinematográficas mais mediáticas: DOLLS. Até então mais conhecido pelos seus filmes com temáticas maioritariamente ligadas à yakuza, recheadas de violência física e muita pancadaria, Kitano transporta essa violência para o plano dos sentimentos e dos afectos, numa obra com um delicioso trabalho de fotografia de Katsumi Yanagishima e um magnífico trabalho de guarda-roupa de Yohji Yamamoto.

Com uma melancólica banda sonora de um dos seus habituais colaboradores, Joe Hisahi, DOLLS apresenta-nos uma história recheada de símbolos e mensagens escondidas, onde o amor, a morte, a solidão e o pessimismo parecem estar sempre presentes. Dividido em três partes reunidas por um espectáculo de kabuki, DOLLS apresenta-nos a três histórias separadas que tanto têm em comum. Na primeira, temos a história de Matsumoto, um indivíduo que rejeita casar com Sawako para contrair matrimónio com a filha do seu chefe. Perante a notícia da tentativa de suicídio de Sawako e o seu estado de demência, Matsumoto decide largar tudo para uma solitária jornada onde procura resgatar um amor impossível de recuperar. No segundo segmento, o protagonista é Nukui, um indivíduo que decide ficar cego, após a estrela pop que admira ter ficado desfigurada. Na terceira parte temos uma figura querida para Kitano, um yakuza que procura recuperar uma paixão da sua juventude.

Recheado de silêncios arrasadores, amores perdidos e personagens quebrados pelo destino e pelos seus actos, DOLLS sobressai pela sua capacidade de nos tocar profundamente ao confrontar com temáticas nem sempre agradáveis e incrivelmente duras. Se POLÍCIA VIOLENTO (1989), SONATINA (1993), FOGO DE ARTIFÍCIO (1997), e mais tarde OUTRAGE (2010) sobressaem, em parte, pela violência física, DOLLS marca-nos pela sua violência no plano emocional, pela profunda melancolia, tristeza e até pessimismo que nos transmite. Com um conjunto de belos cenários, apresentados em diferentes estações do ano de forma a explorar algumas variações cromáticas e os sentimentos que as mesmas podem expor, DOLLS contrasta essa beleza imagética com a crueza da sua narrativa, onde o destino controla estes personagens como se fossem meras marionetas de bunraku.

Não deixa de ser curioso que DOLLS seja uma das obras mais violentas de Takeshi Kitano. Não estamos a falar da violência física, mas sim da emocional. Não faltam paixões destruídas, amores por viver, vidas arruinadas, enquanto o espectador é confrontado pela capacidade única detida pelo ser humano de se poder auto-destruir, mas tudo filmado de forma belíssima, quase cândida, deleitando a nossa vista ao mesmo tempo que arrasa com a nossa alma. Visualmente potente, esteticamente relevante, emocionalmente devastador, DOLLS é uma das obras mais ambiciosas, belas e tocantes de Takeshi Kitano, que marcou a sua filmografia e o cinema dos anos 2000.

por Aníbal Santiago (Rick's Cinema).

Elenco
. Miho Kanno (Sawako), Hidetoshi Nishijima (Matsumoto), Tsutomu Takeshige (Nukui), Kyôko Fukada (Haruna Yamaguchi), Tatsuya Mihashi (Hiro), Chieko Matsubara (Ryoko)


Sobre Takeshi Kitano

Para o Cinema Japonês, é considerado um dos principais "sucessores", em termos de êxito e fama internacional, de Akira Kurosawa. Contudo, o seu estilo próprio de filmar, o gosto por histórias dedicadas à yakuza (máfia japonesa) e a predominância de uma filosofia de vida inerte das suas personagens, granjeou-lhe reconhecimento. Da sua carreira, destacam-se POLÍCIA VIOLENTO (1989), SONATINA (1993), FOGO DE ARTIFÍCIO (1997) e ZATOICHI (2003). Sob o pseudónimo Beat Takeshi, possui uma longa filmografia como actor, tendo participado em filmes como FELIZ NATAL, MR. LAWRENCE (1983, Nagisa Oshima) e BATTLE ROYALE (2000, Kinji Fukasaku).



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