domingo, maio 05, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Chicago, de Rob Marshall




O grande musical cinematográfico dos anos 2000 conheceu importante impulso com MOULIN ROUGE! (2001, Baz Luhrmann), mas foi CHICAGO, pela sua atmosfera clássica e na orquestração de sequências larger-than-life como há muito não se assistia que, sem dúvida, mais homenageou a tipologia da produção típica norte-americana dos anos 30, representando um ponto alto — atrevo-me a dizer "renascimento" — para um género que aparentava sinais de extinção.

Baseado na peça de teatro de Maurine Dallas Watkins, assim como no respectivo musical da Broadway, a sua concretização — sofisticada, insolente, cínica e absolutamente jovial — demonstra a experiência de palco do (então estreante) realizador Rob Marshall, o qual empresta ao filme uma enorme compreensão instintiva sobre textura, movimento e junção da música com a narrativa bem sucedida. Ou seja, CHICAGO é uma obra de tremenda sedução sensorial para o espectador, através da magnífica fotografia de Dion Beebe, das suas inúmeras sequências musicais e no elenco, distinto e surpreendente, que se revela como o seu elemento mais funcional e inspirado.

Cada intérprete surge com propósito e arquétipo específicos, e o filme extrai de Renée Zellweger, da oscarizada Catherine Zeta-Jones, Queen Latifah e John C. Reilly (irrepreensíveis) desempenhos à medida do que lhes era expectável, estando-lhes reservados memoráveis momentos de canto e dança. A verdadeira surpresa, nesse âmbito, surge na figura de Richard Gere e do seu Billy Flynn: subtil, astuto e encantador em proporções equilibradas, a sua performance de sapateado, a dado momento, é a derradeira representação do pendor crítico encerrado no argumento de CHICAGO relativamente à sociedade de espectáculo e aos "circos mediáticos", de ontem e hoje (afinal, menos díspares do que se poderia supor), em redor dos piores escândalos que a fraqueza humana pode gerar. A filosofia do «Give 'em the old razzle dazzle. Razzle razzle 'em. Give 'em an act with lots of flash in it and the reaction will be passionate», entoada por Flynn, é exactamente o que o filme mais tem para nos oferecer e satirizar. Raramente deixamos, num musical dos anos 2000, que nos enganem assim tanto e para nosso total agrado.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Renée Zellweger (Roxanne "Roxie" Hart), Catherine Zeta-Jones (Velma Kelly), Richard Gere (Billy Flynn), Queen Latifah ("Mama" Morton), John C. Reilly (Amos Hart), Christine Baranski (Mary Sunshine), Taye Diggs (Maestro), Lucy Liu (Kitty Baxter)


Palmarés
. Oscars da Academia: Melhor Filme, Melhor Actriz Secundária (Catherine Zeta-Jones), Melhor Montagem (Martin Walsh), Melhor Direcção Artística (John Myhre, Gordon Sim), Melhor Guarda-Roupa (Colleen Atwood), Melhor Som (Michael Minkler, Dominick Tavella, David Lee)
. Globos de Ouro: Melhor Filme — Comédia ou Musical, Melhor Actor — Comédia ou Musical (Richard Gere), Melhor Actriz — Comédia ou Musical (Renée Zellweger)
. BAFTA: Melhor Actriz Secundária (Catherine Zeta-Jones), Melhor Som (Michael Minkler, Dominick Tavella, David Lee, Maurice Schell)
. Producers Guild Awards: Melhor Produção de Cinema (Martin Richards)
. Screen Actors Guild: Melhor Elenco (Christine Baranski, Ekaterina Chtchelkanova, Taye Diggs, Denise Faye, Colm Feore, Richard Gere, Deidre Goodwin, Mya, Lucy Liu, Queen Latifah, Susan Misner, John C. Reilly, Dominic West, Renée Zellweger, Catherine Zeta-Jones), Melhor Actriz (Renée Zellweger), Melhor Actriz Secundária (Catherine Zeta-Jones)



1 comentário:

Rafael Santos disse...

O filme que irá deixar para sempre um gosto amargo na edição dos Óscares desse ano :P

Quanto a mim adoro-o em todas as suas vertentes. E concordo quando o Samuel o rotula como o "renascimento" do género. Apesar do Nine ser um bom filme e um tanto ou quanto subvalorizado, Rob Marshall não conseguiu igualar e muito menos superar o feito.

Cumprimentos,
Rafael Santos
Memento mori