segunda-feira, maio 06, 2013

O Cinema dos Anos 2000: Adeus, Lenine!, de Wolfgang Becker




A análise de contextos e ambiências sócio-culturais da Europa do pós-Segunda Guerra Mundial produziu uma série de propostas cinematográficas que conseguiram detalhar, sobretudo durante os anos 2000 e, por vezes, com enorme grau de sucesso — DOMINGO SANGRENTO (2002, Paul Greengrass), AS VIDAS DOS OUTROS (2006, Florian Henckel von Donnersmarck), O COMPLEXO BAADER MEINHOF (2008, Uli Edel) e IL DIVO — A VIDA ESPECTACULAR DE GIULIO ANDREOTTI (2008, Paolo Sorrentino) surgem como principais exemplos —, a autoridade das mudanças políticas do Velho Continente nos destinos, alegrias e tristezas de milhões de cidadãos. Nesse sentido, ADEUS, LENINE! distingue-se por, num aparente elogio do Comunismo, recordar-nos como amenos ventos de mudança e a reconciliação com o passado são passos necessários perante as turbulências de qualquer período de "transição administrativa".

Essa mudança e reconciliação são encarnadas em Alex, filho de Christiane, uma orgulhosa militante do Partido Socialista Unificado da República Democrática Alemã, que entra em coma pelo desgosto de vê-lo a ser detido como resultado da sua participação num protesto anti-governamental. Entretanto, o Muro de Berlim — e tudo o que aquele "monumento" acarretava — é derrubado. Quando Christiane recupera a consciência, Alex, receoso de que a mãe possa sucumbir com o que, para ela, seria um profundo golpe emocional, decide fingir que nada aconteceu e encena, na sua própria casa, o prosseguimento dos modos de vida anteriores à reunificação da Alemanha. A alegoria, assim como os inúmeros momentos humorísticos causados por esta situação, é tudo menos subtil, sobretudo na contraposição dos benefícios da abertura da RDA a hábitos Ocidentais, do triunfo do Capitalismo e no dilema moral da "realidade simulada" que Alex engendra perante a mãe.

Aos poucos, e enquanto a farsa vai sendo desmascarada — seja pelo enorme outdoor da Coca-Cola afixado mesmo em frente da janela do quarto de Christiane ou no fabuloso plano em que uma estátua deposta de Lenine se atravessa (literalmente) no seu caminho —, o tema de ADEUS, LENINE!, longe de se declarar como filme "nostálgico", eleva as acções do protagonista a exemplo de que as condições adequadas, independentemente do regime político ou clima económico em que se viva, devem ser, sempre e em primeiro lugar, fabricadas com as nossas próprias mãos. «A RDA que criei para ela tornou-se naquela que eu desejava que tivesse sido», afirma Alex a certa altura. E é impossível não encontrar, nesta atitude, uma qualidade intemporal e universal que, nos dias de hoje, ressoa de forma particularmente sentimental, inspiradora e eficaz.

por Samuel Andrade.

Elenco
. Daniel Brühl (Alexander 'Alex' Kerner), Katrin Saß (Christiane Kerner), Chulpan Khamatova (Lara), Maria Simon (Ariane Kerner), Florian Lukas (Denis Domaschke), Alexander Beyer (Rainer), Burghart Klaußner (Robert Kerner)


Palmarés
. Festival Internacional de Berlim: Prémio Blue Angel (Wolfgang Becker)
. Festival Internacional de Valladolid: Prémio Especial do Júri (Wolfgang Becker)
. Prémios da Academia Europeia: Melhor Realizador (Wolfgang Becker), Melhor Actor (Daniel Brühl), Melhor Actriz (Katrin Saß)
. Césares: Melhor Filme da União Europeia (Wolfgang Becker)
. Prémios Goya: Melhor Filme Europeu (Wolfgang Becker)
. Prémios Sant Jordi: Melhor Filme Estrangeiro (Wolfgang Becker)



1 comentário:

Zuza Zapata disse...

Lenine é um grande cara, um grande artista brasileiro, uma enorme referência em meu projeto musical tb. Convido todos aqueles que tb acham o trabalho do cara muito interessante, a darem uma olhada no meu trabalho.Obrigada e salve Lenine!