segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O Novo Mundo (2005), de Terrence Malick



Eis o que se pode chamar de feitiço virado contra o feiticeiro.

O NOVO MUNDO, filme lançado no ano passado e realizado pelo esporadicamente activo Terrence Malick [BADLANDS (1973), A BARREIRA INVISÍVEL (1998)], é a obra de um cineasta que, embora patenteie sempre o seu inegável talento visual, mostrou estar demasiado enfatuado pelo estilo que criou em A BARREIRA INVISÍVEL. Na altura, o que se apresentou poético, imponente e quase inovador, oito anos depois evidencia-se cansado, mecânico e desordenado. Malick prende-se demasiado à contemplação, das personagens, pelo céu, terra e mar – e este fascínio “natural”, embora admissível no presente contexto, nunca consegue deslumbrar o espectador devido à sua sufocante omnipresença.

Esta nova versão da história de Pocahontas (apresentada ao mundo pela fraca obra de animação da Disney, em 1995), narrada na primeira pessoa pelas várias personagens que configuram o argumento, procura retomar a poesia em voz-off que A BARREIRA INVISÍVEL tornou tão inesquecível. Os resultados são fracos, visto que as dissertações interiores de John Smith, Pocahontas e restantes intervenientes, mais não passam de meras frases soltas, na maioria dos casos sem contributo relevante para o avanço da história.



Para além do insucesso na escolha estética, Malick brinda-nos com uma série de miscastings, começando por Colin Farrell, incapaz de encarnar convincentemente o navegador John Smith, quase como se estivéssemos perante um homem sem motivações de género algum, sejam elas em situações de paixão ou desespero. Q'Orianka Kilcher, exceptuando o realismo da sua aparência para justificar a escolha para Pocahontas, acrescenta, do ponto de vista dramático, pouco ou nada ao filme. Christopher Plummer e David Thewlis, desperdiçados em papéis mais próximos da categoria de figurantes do que actores secundários, justificam a sua comparência neste O NOVO MUNDO pelo prestígio que (ainda) é trabalhar sob as ordens de Terrence Malick. Salva-se, contudo, a fugaz presença de Christian Bale, capaz de imprimir vida a um filme “arrítmico”.

O que dizer, por exemplo, do facto de O NOVO MUNDO possuir quatro(?) directores de montagem? Talvez por isso, o filme revela-se episódico, parecendo até que se procurou excelência apenas em cada take e nunca tenha surgido a preocupação de unir o argumento de forma coerente.

O maior prazer que se pode extrair de O NOVO MUNDO será, sem dúvida, o trabalho sempre sólido do director de fotografia Emmanuel Lubezki (nomeado este ano para o Óscar, pelo interessante OS FILHOS DO HOMEM). Filmado na zona agreste do estado da Virginia, o cinematógrafo mexicano alcançou algumas das melhores imagens para um filme histórico produzido nos tempos mais recentes. Mérito, igualmente, para a direcção artística do filme, nomeadamente a realista recriação da cultura e sociedade dos índios norte-americanos, captando toda a sua agressividade inerente e apego à adoração aos deuses da natureza.



Em derradeira análise pessoal, O NOVO MUNDO é uma experiência cinematográfica dispensável. E não digo isto de ânimo leve. O nome de Terrence Malick é sinónimo de cinema de qualidade (considero, inclusive, A BARREIRA INVISÍVEL como um dos melhores filmes dos anos 90), e este será, provavelmente, o primeiro passo atrás do cineasta. Confio, também, que seja o único.

P.S.: quem sabe, um óptimo objecto susceptível de director's cut.

3 comentários:

Bárbara Novo disse...

Por coincidência foi hoje mesmo que O Novo Mundo chegou às minhas mãos, mas ainda não o vi. E uma das razões para o atraso foi realmente Colin Farrell, que também não me parece nada boa escolha. Mas tenho notado uma tendência curiosa em critícas de diferentes filmes: mesmo que más, parece que Christian Bale e as suas habilidades são sempre louvadas, por pequeno que seja o papel. Fico contente por ler esses comentários, é por essas e por outras que é um dos meus actores preferidos :)

Cumprimentos!

Izzi disse...

Não concordo nada contigo, antes pelo contrário. Mas a vida é mesmo assim ;) PAra mim foi um dos melhores filmes que vi o ano passado. Tenho de o rever nos tempos mais próximos...

wasted blues disse...

Em total desacordo. Total. Mas é (também) esse o fascínio do cinema, da vida.