segunda-feira, outubro 01, 2007

Carne Fresca, Procura-se (2003), de Anders Thomas Jensen



Numa pequena vila dinamarquesa, Svend (Mads Mikkelsen) e Bjarne (Nikolaj Lie Kaas) decidem escapar aos tentáculos do seu abusivo e arrogante patrão enveredando por uma carreira no ramo da charcutaria. Não obtendo sucesso com a desejada rapidez — as expectativas pessoais e económicas de ambos assim o exigem —, a acidental morte de um electricista, por congelamento na própria arca frigorífica do talho, permite-lhes descobrir a receita para o êxito: . A secreta comercialização de carne humana possibilita o cumprimento das encomendas solicitadas à Svend & Cª, como consegue atrair clientes, comunicação social e alguma curiosidade menos desejada. A partir daí, reside a questão: conseguirão eles manter oculto tão macabra estratégia comercial?

É tentador considerar o argumento de CARNE FRESCA, PROCURA-SE como uma sarcástica alegoria do contemporâneo mundo empresarial, cujo ambiente extremamente competitivo obriga o ser humano a ignorar qualquer regra ou moral. Mesmo que o realizador Anders Jensen não o admita, algumas das suas opções estéticas apontam, irremediavelmente, nesse sentido. A utilização de tons verdes, cor associada à ganância e decadência, predomina em toda a obra, estendendo-se até aos mais pequenos pormenores: por exemplo, os aventais envergados pelos protagonistas.



Anders Thomas Jensen, autor oriundo do movimento Dogma 95, não poupa recursos na construção de uma comédia negra e artificial, indo totalmente contra o movimento que defendeu. A violência, embora latente, consegue ser sempre horrenda e, ao mesmo tempo, burlesca.

Entre cutelos e marinadas, um dos principais motivos de interesse de CARNE FRESCA, PROCURA-SE é a interpretação de Mads Mikkelsen, mais conhecido por ter encarnado o vilão de CASINO ROYALE. O "seu" Svend é um prodígio de concepção física e psicológica: constantemente banhado em suor e de cabelo rapado até ao princípio da nuca, são as subtis alterações corporais e tiques faciais do personagem que caracterizam a qualidade da representação de Mikkelsen, demonstrando estarmos perante o maior caso de sucesso, em termos de performance cinematográfica, vindo da Dinamarca.

Não obstante os seus diversos atractivos, CARNE FRESCA, PROCURA-SE não é um filme perfeito. É visível alguma indecisão no seu registo, não havendo uma clara definição se houve a pretensão de conceber uma comédia negra ou drama alegórico. Se somarmos a isto o canibalismo subjacente, poder-se-ia afirmar que não é um título para todos os gostos. Contudo, se nos deixarmos enredar pelo jogo de Anders Thomas Jensen, descobrimos que o abandono de qualquer réstia de bom senso é o ingrediente secreto para uma compensadora visualização deste filme.

No mínimo, não dei o meu tempo como mal empregado...

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