sexta-feira, novembro 02, 2007

THE FOUNTAIN - O ÚLTIMO CAPÍTULO (2006), de Darren Aronofsky



Com apenas três filmes em carteira, o realizador Darren Aronofsky atestou a sua capacidade de desconstruir as mais básicas regras de cinematografia, encenando mundos decadentes mas fascinantes e provando que é um dos cineastas de maior qualidade a trabalhar actualmente. Valores impressionantes para um indivíduo que, paralelamente ao Cinema, formou-se em Antropologia.

Talvez seja o rigor científico a que essa disciplina obriga o segredo para Aronofsky engendrar as histórias tão singulares que constituem a sua filmografia: PI (1998) lidava com o poder dos números em decifrar todos os mistérios que rodeiam o Homem; A VIDA NÃO É UM SONHO (2000) foi o título mais marcante, pela abordagem radical e virtuosa a um tema delicado como é o das dependências físicas e psicológicas; e este THE FOUNTAIN, sem dúvida uma obra de catalogação impossível e um ensaio arrojado acerca de eterna aflição humana face à morte.



THE FOUNTAIN apresenta-nos três cenários temporalmente distintos, cujo elo comum é servido pelo protagonismo de Hugh Jackman e Rachel Weisz: na Espanha do séc. XVI, onde Tomas, conquistador ao serviço da Rainha Isabel, é enviado à América Central para descobrir a localização de uma árvore, cuja seiva poderá encerrar a fórmula da imortalidade; na era presente, Tommy Creo, investigador no ramo dos tumores cerebrais, não busca a cura para o cancro pela glória profissional, estando mais interessado em ajudar a esposa Izzi, progressivamente consumida por essa doença; e, por fim, num futuro distante, onírico e sem data definida, o astronauta Tom transporta, numa espécie de nave espacial orgânica, a mencionada Árvore da Vida Eterna até ao local da sua origem, situada nos antípodas do Universo, sendo assombrado pelo espírito de Izzi que o impele a concluir um romance com reminiscências à vida de todas as personagens apresentadas no filme.

Sempre que me deparo com uma obra repleta de surrealismo como é este THE FOUNTAIN, é praticamente impossível não o comparar a 2001 — ODISSEIA NO ESPAÇO (1968). Afinal de contas, ambos os filmes decorrem em contextos diferentes, ostentando poderosos conteúdos filosóficos enquanto motores narrativos e apostando, sem receios, num esboço de imagens fulgurantes. Desse modo, nutri, a partir do momento em que tomei conhecimento deste filme pela primeira vez, uma simpatia instantânea pelo presente empreendimento de Aronofsky.



E a sua visualização não me decepcionou. Embora esteja infundido por um sufocante espírito depressivo e lânguido na sua exposição, a narrativa não-linear de THE FOUNTAIN, decorada com a omnipresente intimidade da banda sonora interpretada pelo Kronos Quartet, constitui um acérrimo desafio para qualquer espectador, correndo sérios riscos de ser considerado pretensioso, mas duvido que haja alguém incapaz de sucumbir à pujância da beleza das imagens concebidas pela mente analítica de Aronofsky. De facto, os efeitos visuais são um dos pormenores mais cativantes do filme, sobretudo pelo seu processo de fabrico: nas sequências futuristas, os truques de luz foram produzidos através do registo filmado de reacções químicas, escusando o habitual recurso à informática.

É, também, marcante a miscelânea de emoções que o filme suscita. Desde o romantismo e desespero das sequências decorridas no capítulo contemporâneo, passando pela imagética religiosa do passado e futuro (as referências incluem conceitos cristãos, budistas e até conceitos Maias), culminando num orgiástico clímax de imagem e som, THE FOUNTAIN acaba por ser uma reflexão acerca da fragilidade e resignação humana perante as suas emoções e inevitável morte.

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