terça-feira, janeiro 22, 2008

Expiação (2007), de Joe Wright



Para mim, o ano de 2007, no que a Cinema se refere, não poderia ter acabado de melhor forma. Não só pude observar uma obra completamente acima da média do que a indústria britânica nos tem proporcionado nos últimos anos, como fui total e surpreendentemente arrebatado pelas virtudes de EXPIAÇÃO, um título cujo material promocional profetizava uma história sobre aristocratas entediados e alheios à revolução que a Segunda Guerra Mundial iria operar no Reino Unido, com uma fugaz observação acerca de discrepâncias sociais. Ao invés deste panorama, EXPIAÇÃO apresenta-se como um interessante estudo sobre o eterno tema do “crime e castigo”, um princípio aqui aplicado a praticamente todas as suas personagens.

São abundantes os motivos de interesse e exploração cinematográficos aqui presentes. O idílico primeiro acto de EXPIAÇÃO remete-nos para ambiências próprias de Jane Austen – não admira, pois o anterior título do realizador Joe Wright foi a adaptação de ORGULHO E PRECONCEITO (2005): a abastada família britânica confinada à vivência banal numa próspera casa de campo que, pelo regresso de um membro há alguns anos afastado deste convívio doméstico, organiza um jantar para assinalar o momento. Paralelamente, e com um fantástico trabalho de flashbacks raramente visto num drama romântico, acompanhamos a relação de amor-ódio entre Cecilia, a filha mais velha dos proprietários, e Robbie, jardineiro daquela propriedade e a quem foi facultada uma educação acima da sua média social (Keira Knightley e James McAvoy, respectivamente), minada pela perspectiva ingénua e ciúme infantil dos 13 anos de Briony (Saoirse Ronan), a irmã mais nova de Cecilia, ao acusar Robbie, sem provas definitivas para tal, de um escabroso delito perpetrado durante a noite do jantar.



É este o turning point de toda a narrativa de EXPIAÇÃO, que do drama de costumes transporta-nos para o seio do maior conflito mundial do séc. XX. Robbie ingressa no exército britânico para escapar a uma perpétua pena de prisão, mas nem as escoriações provocadas pela guerra nem o horror a que, amiúde, assiste, limpa as feridas não saradas daquele Verão passado com Cecilia. É nesta fase que o filme consegue destacar-se, e pela positiva, de toda e qualquer ideia pré-concebida que poderíamos ter tido sobre ele. Joe Wright não só transborda perícia no seu domínio da mise-en-scène, como é capaz de produzir um plano-sequência de quatro minutos e meio digno de figurar entre as cenas mais inesquecíveis da presente década, ou seja, o panorama desolador de um exército inglês desfigurado e em colapso na praia de Dunquerque – diga-se de passagem, uma composição capaz de envergonhar o mais inspirado David Lean…

Ao longo desta última hora de filme, torna-se impossível não invocar, de forma quase constante, o que havia sido explorado em O PACIENTE INGLÊS (1996). Ambos têm como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial; ambos debruçam-se sobre a poderosa influência que o passado detém no rumo das nossas vidas; ambos relatam um amor impossibilitado pelas madrastas consequências da tragédia.



No entanto, e comparações à parte, EXPIAÇÃO é uma obra com méritos próprios, totalmente merecedora da atenção que tem vinho a granjear na actual época de atribuição de prémios – conquistou recentemente o Globo de Ouro para Melhor Filme Drama. Permite verificar que Keira Knightley é uma convincente herdeira da classe típica de nomes como Maggie Smith ou Helen Mirren. Em EXPIAÇÃO, Knightley revela-se uma actriz inteira a todos os níveis, desprendendo-se dos blockbusters que a notabilizaram e apresentando uma profundidade dramática arrebatadora. Destaque para James McAvoy (que irá afirmar-se definitivamente em 2008 com WANTED) e é impossível não referir o trabalho da jovem Saoirse Ronan, cuja presença domina, por completo, o estabelecimento da narrativa nos seus primeiros minutos.

Assim, EXPIAÇÃO acaba por ser a surpresa mais convincente de 2007, culminando numa resolução plena de penitência emocional e, para mais, protagonizada por Vanessa Redgrave. Tem potencial para dominar a noite dos Óscares – caso a Academia não se renda à americanização de NO COUNTRY FOR OLD MEN ou THERE WILL BE BLODD – e, a concretizar-se, não expressarei qualquer oposição.

6 comentários:

Anónimo disse...

Não li o postal pois não quis antecipar o fime. Seguramente um dos melhores deste início de ano. Espero ainda pelo "No Country for Old Men"...a propósitio já viu "Promessas Perigosas" ??? Um dos melhores do ano passado.
JNAS

Sam disse...

JNAS,
Sim, vi PROMESSAS PERIGOSAS e a sua apreciação pode ser consultada num post mais antigo.

Cumprimentos e volte sempre.

Anónimo disse...

Link please !
JNAS

Sam disse...

JNAS,

cá vai: http://sozekeyser.blogspot.com/2008/01/promessas-perigosas-2007-de-david.html

Aguardo comentário. :)

Cumps.

Anónimo disse...

Sam,
Excelente Crítica...porventura não a li antes para evitar antecipar o filme. A minha perspectiva está aqui :http://ilhas.blogspot.com/2008/01/eastern-promisses.html
...
De David Cronenberg os meus favoritos são "Videodrome" o fantabulástico "Irmãos Inseparáveis" (porventura o melhor da sua filmografia à conta de Jeremy Irons) e "EXistenz" que é um delírio que cilindra qualquer bizarria de David Lynch e afins...todos eles menores quando comparados a Cronenberg...Ah esquecia-me do inclassificável "Crash" !

Anónimo disse...

JNAS