quarta-feira, janeiro 16, 2008

No Country For Old Men (2007), de Joel e Ethan Coen



O primeiro aspecto a realçar em NO COUNTRY FOR OLD MEN é a ausência de uma trilha sonora continuada, que paute a acção desenrolada perante os nossos olhos ou controle o timing do filme. O ritmo é proporcionado pelas expressões e movimentos das personagens, impondo um silêncio, quase assombrado, à narrativa. Esta é composta de longos períodos de contemplação e sequências de diálogo que nunca se tornam maçadoras nem quebram o ímpeto da história, conseguindo surpreender, de forma continuada, o espectador.

Joel e Ethan Coen já provaram, em obras anteriores, saber dominar, como poucos, a “arte da pausa” (veja-se, como exemplo, O BARBEIRO), empregando-a em períodos por vezes quase exasperantes até culminarem no desfecho menos previsível. Essa técnica, chamemos-lhe assim, é utilizada em NO COUNTRY FOR OLD MEN de dez em dez minutos, criando uma obra de permanentes clímaxes narrativos e terminando-a com a habitual sequência derradeira onde o protagonista disserta a moral da história.



Neste caso, o “moralista” é Tommy Lee Jones. Parecendo que não, é ele o elemento condutor de NO COUNTRY FOR OLD MEN, não obstante o facto de estar ausente do ecrã por longos períodos de tempo. A acção principal concentra-se em Llewelyn Moss (Josh Brolin), veterano da guerra do Vietname, que durante um passeio pelo árido deserto do Texas tropeça nos despojos de um violento e inacabado negócio de droga, apoderando-se de uma mala com dois milhões de dólares. Decide ficar com o dinheiro, mas a sua convicção de que alguém procurará reclamá-lo é profética e materializa-se na figura de Anton Chigurh (Javier Bardem), assassino a soldo de uma organização desconhecida e que estabelece como padrão de sentença das suas vítimas o mero lançar de uma moeda – «Call it, friend-o!» arrisca-se a ser a citação cinematográfica mais memorável de 2007.

E este jogo de perseguição – pontuado pela tal comedida especulação nas sequências que explodem da forma mais imprevisível – vai ocupando grande parte de NO COUNTRY FOR OLD MEN, à medida que os cadáveres se vão amontoando e as rédeas do caso são tomadas pelo Xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), um agente da lei batido que, com a iminência da reforma, debate, a espaços, a mudança dos tempos, o seu futuro e o da nação dos Estados Unidos da América. É, assim, fácil perceber que esta adaptação do romance homónimo, premiado com um Pulitzer, de Cormac McCarthy, debruça-se mais sobre questões sociais do que acerca das nefastas consequências de um recontro ilegal que deu para o torto.



O segundo ponto fundamental do filme é, inevitavelmente, as interpretações dos três leads masculinos. Tommy Lee Jones está impecável na sua inexpressividade: por mais horrendos que os crimes sejam, o seu Ed Tom Bell revela-se mais incrédulo que chocado; Josh Brolin também impressiona pelo seu controlo dramático, possibilitando a incerteza do destino da sua personagem até ao fim; e Javier Bardem, encarnando a loucura própria da filmografia dos irmãos Coen, um psicopata tão desconcertante quanto o seu modus operandi, não sobrando muitas dúvidas de que é o grande candidato a arrebatar os principais galardões de interpretação secundária na presente temporada de apreciação crítica.

NO COUNTRY FOR OLD MEN é uma obra "Coen vintage", de visualização obrigatória para o ano de 2008 que agora começa. Um regresso às singulares histórias de gangsters que perfilam na filmografia do duo e provando que esta fixação dos cineastas encontra, sempre, o seu lugar em qualquer cenário. Após a noite agreste de SANGUE POR SANGUE (1984) e a neve de FARGO (1996), agora são as planícies desertas do Texas que envolvem as personagens e servem de interessante postal turístico para o Great American Outdoors. Para além de revelar o talento do seu habitual director de fotografia Roger Deakins, demonstra a capacidade de adaptação dos Coen a diferentes contextos e ambiências, facto pouco em voga entre os cineastas de primeira linha de Hollywood.

3 comentários:

O Homem que Sabia Demasiado disse...

Óptima crítica. Só aumenta o desejo de ver o filme!
VA

_Loot_ disse...

Jà viste? Sortudo :P

Depois de ver o filme venho ler o que escreveste sobre ele.

abraço

Anónimo disse...

Leiam o livro de Cormac McCarthy que é assombroso !
JNAS