segunda-feira, novembro 03, 2008

RENASCIMENTO (2006), de Christian Volckman



Se o mundo negro e alternativo evocado nas imagens de RENASCIMENTO (exibido Sábado passado, no Cine Sol-Mar, inserido na Semana Fantas 2008) poderá não passar do mero pastiche a títulos como BLADE RUNNER - PERIGO IMINENTE (1982), GATTACA (1997), RELATÓRIO MINORITÁRIO (2002) ou SIN CITY (2005), já o visual hiper-contrastante aqui empregue traduz-se no seu verdadeiro toque de originalidade. Aqui não existem cinzentos nem degradés, apenas recortes a preto e branco que misturam animação e imagem real reminescente da tecnologia usada por Richard Linklater em A SCANNER DARKLY - O HOMEM DUPLO (2006).

Utilizando a tecnologia do motion capture para homenagear o estilo linear de uma graphic novel, embora atraente, a escolha estética torna-se infeliz quando nos apercebemos de que rouba às personagens a textura e definição das suas expressões faciais — e, por inferência, a necessária "bagagem" psicológica para o entendimento das suas motivações.



Paris, 2054. A Torre Eiffel ainda marca a sua presença, mas muitos dos monumentos simbólicos da cidade encontram-se enterrados sob camadas tenebrosas de arquitectura desencaixada. No controlo da capital francesa encontramos a Avalon Corporation, um gigante financeiro que se auto-promove através de outdoors eloquentes, os quais, numa voz feminina e suave, comunicam a dedicação da empresa à "saúde, beleza e longevidade".

Ostentando as vozes (mas não os físicos) de conceituados actores britânicos como Daniel Craig, Ian Holm ou Jonathan Pryce, a história centra-se no desaparecimento de Ilona Tasuiev (Romola Garai), uma brilhante cientista de Genética. A sua busca fica a cargo de um detective agastado e teimoso chamado Karas (Craig) que, ajudado pela irmã mais velha de Ilona, Bislane (Catherine McCormack), confronta-se com uma conspiração secreta que envolve uma experiência genética ilegal realizada pelo mentor de Ilona, Jonas Muller (Holm). Encarada como um falhanço, essa experiência desenterrou o segredo da vida eterna que a Avalon agora deseja possuir, sem olhar a meios nem a fins.



O berrante chiaroescuro de RENASCIMENTO acentua eficazmente a sobrecarregada atmosfera negra do filme mas, ao fim de quase duas horas, este imenso contraste torna o enredo, cingido a uma complexa história de ganância corporativa, espionagem hi-tech e irresponsabilidade científica, ainda mais difícil de acompanhar.

A conclusão ambiciona "atirar" ao espectador um profundo conceito de Filosofia, ao afirmar «Sem a morte, a vida não tem sentido». Uma frase que encontra pouca ressonância numa história em que os seus protagonistas exalam pouca vitalidade. Acima de tudo, RENASCIMENTO merece a espreitadela enquanto exercício de estilo... e é esquecê-lo rapidamente.

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