sexta-feira, março 13, 2009

O Direito ao "Contraditório"

#1: THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS



Em Dezembro de 2006, afirmava, peremptoriamente, que este filme representava "um passo ao lado na carreira de Scorsese". Pois bem, dois anos e alguns meses após ter assumido esta convicção, o tempo encarregou-se de obrigar-me a fazer um mea culpa relativamente à qualidade do filme, à natureza da sua narrativa e, inevitavelmente, ao bom nome (como se eu, de qualquer modo, fosse alguém para o "menosprezar"...) de Martin Scorsese.

Um dos pontos enfatizados para justificar a minha apática recepção a THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS prendia-se com o défice de originalidade do argumento (assinado por William Monahan, que viria a escrever duas obras de Ridley Scott, a saber REINO DOS CÉUS e O CORPO DA MENTIRA). Na altura, retive uma constante sensação de já ter visto a maioria dos plot points aqui explanados noutros filmes anteriores de Martin Scorsese: o mafioso perverso e descontrolado (Joe Pesci em TUDO BONS RAPAZES), a dualidade de identidades entre o submundo do crime e as forças da lei (Ray Liotta, também em TUDO BONS RAPAZES), a corrupção policial e nas instituições do poder (tema presente em CASINO) ou a honesta representação de uma específica comunidade norte-americana com raízes europeias (a atmosfera e vivências de Little Italy fazem parte do universo de Scorsese desde OS CAVALEIROS DO ASFALTO).

Embora fosse lógico considerar que tais características elevariam THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS como obra representativa da filmografia do cineasta norte-americano, um segundo raciocínio impedia que partilhasse dessa opinião. O facto de inspirar-se em INFERNAL AFFAIRS — INFILTRADOS — realizado, em Hong Kong, por Andrew Lau e Siu Fai Mak e detentor de uma excelente notoriedade no Ocidente — imbuiu todo o filme da (pessoalmente) limitativa marca do remake, algo que Scorsese apenas tinha feito com O CABO DO MEDO. Aliado às pretensões hollywoodescas que se lhe imprimiu, não fui capaz de ver THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS como uma película à altura de OS CAVALEIROS DO ASFALTO ou TUDO BONS RAPAZES — até o menosprezado CASINO continuava a figurar entre os meus predilectos realizados por Scorsese.



O principal elogio que consegui manifestar foi para os actores: "É mesmo devido ao trabalho dos actores que o filme, apesar da sua complexidade narrativa, nunca perde fôlego". Esta assunção não sofreu qualquer mudança durante a minha recente segunda visualização de THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS. O novo pormenor — a razão pelo qual efectuo esta retratação — figura nas diversas "camadas" que o filme encerra e que anteriormente me haviam escapado.

Na verdade, Martin Scorsese é dos poucos cineastas contemporâneos que, em cada novo filme seu, tem mesmo algo a dizer e a inspirar reflexão. Uma vontade dominada por temas relacionados com a espiritualidade de cada indivíduo, seja um personagem ou um espectador. Ao adaptar o actioner INFERNAL AFFAIRS — INFILTRADOS, Scorsese encontrou mais do que o 'jogo do gato e do rato' entre um polícia a soldo da máfia e um mafioso que colabora com as autoridades. A partir daquela sinopse, explorou teses como a importância (para o bem ou para o mal) da identidade cultural nas nossas determinações, confiança e traição, relações pai-filho e diversos conflitos internos e externos — "ingredientes" ausentes na película de Andrew Lau e Siu Fai Mak.

Para além disso, encontramos um Martin Scorsese em excelente forma no que toca à formalidade técnica de construção duma narrativa. Sobretudo, a tensão associada à dinâmica das situações é encenada magistralmente. Note-se, como exemplo, uma sequência em particular: um telemóvel, colocado em modo de vibração e de cuja existência só tinha conhecimento alguém que, naquele momento, encontrava-se morto, começa a tocar e a deslocar-se, ameaçador, em cima da mesa. O homem que atende a chamada nada diz; o homem que efectua a chamada permanece em silêncio. Nenhum dos interlocutores sabe quem se encontra do outro lado da linha, contudo esta interacção muda "explode" de suspeita e ansiedade. Um autêntico case study para a "arte" de filmar sem diálogos.



São razões de sobra para justificar esta súbita, inesperada e pessoal mudança de opinião acerca de THE DEPARTED — ENTRE INIMIGOS. Isto e a expressa vontade de o rever vezes sem conta.

5 comentários:

Raquel Roque disse...

Caro Sam,
confirma-se que de facto há filmes que apenas com um segundo visionamento lhe atribuímos o verdadeiro valor.

Maria das Mercês disse...

Caro Sam, tenho tido pouco - zero - tempo para visitar os meus blogues preferidos. Não sei quando fez a renovação deste blogue, mas quero dar os parabéns: mais fácil de ver, bem organizado, e com um design muito atraente :)

Sam disse...

Cara Maria,

Obrigado pelo teu simpático comentário à nova "cara" do Keyzer.

A renovação fez ontem uma semana :), ainda poderão surgir alguns retoques, mas agradeço o teu voto de que o trabalho foi bem efectuado.

Cumps.

Ricardo Lopes Moura disse...

Fiquei tão desiludido com este filme que nunca o irei rever.

Inês Moreira Santos disse...

Gostei de saber desta relação amor-ódio e de que o "amor" pelo filme tenha acabado por ganhar. :P

Cumprimentos cinéfilos,

Inês