quarta-feira, novembro 18, 2009

CENSURADO (2007), de Brian De Palma



Numa época em que o filme sobre a Guerra do Iraque tem conhecido inúmeros títulos, a melhor "notícia" desta tendência é a possibilidade de observar estilos e interpretações variados do conflito no Médio Oriente. Nessa "vaga", enumeram-se PEÕES EM JOGO, de Robert Redford (assumidamente pedagógico e eloquente), NO VALE DE ELAH, de Paul Haggis (ressentido e melancólico) ou ESTADO DE GUERRA, de Kathryn Bigelow (vertiginoso e explosivo). E depois temos este CENSURADO, que pelo seu deliberado formalismo e ausência de ambiguidade propagandista — ou seja, absolutamente anti-americana — encontra-se mais afastado dos esforços supracitados e só pode ser categorizado como objecto único na exploração do tema.

Mestre inigualável em conceber apelativas técnicas narrativas, De Palma constrói um filme que não se assume como tal, mas sim uma compilação de gravações vídeo oriundas de diversas fontes, como uma camcorder HD, câmaras de vigilância, reportagens televisivas, telemóveis e o inevitável YouTube. Pelo meio, é ainda incluído um falso documentário francês, uma "farsa" acompanhada por ofegante fotografia e profunda banda sonora clássica. Deste modo, CENSURADO transporta-nos não só para o campo de batalha como também para o moderno frenesim mediático, onde nenhum momento fica por registar e qualquer um é, à partida, o cameraman.



Angel Salazar (Izzy Diaz), um soldado posicionado numa das localidades mais inseguras do Iraque, sonha em ingressar numa Escola de Cinema e pretende usar o seu diário vídeo da missão que desempenha em Samarra como o bilhete para a fama. Quando não fala directamente para a câmara, apresenta-nos os outros membros da sua unidade, onde constam todos os clichés próprios deste género cinematográfico: o tímido intelectual que passa os momentos de folga a ler; o soldado aristocrata e descendente de heróis de outras guerras; e o par de brutamontes saloios que, neste contexto, irão ser os catalisadores do momento chave do filme.

Esse horrível e premeditado acto é a violação de uma rapariga iraquiana de 15 anos (baseado numa ocorrência real em 2006), as consequências que o mesmo terá nas relações, já de si instáveis, entre este grupo de soldados e a retaliação ao crime por parte de facções insurgentes iraquianas.

A sinopse de CENSURADO invoca, imediatamente, um filme anterior de Brian De Palma, concretamente CORAÇÕES DE AÇO (1989), passado na Guerra do Vietname e também sobre a violação de uma rapariga às mãos de um batalhão militar norte-americano. Não obstante a semelhança de temas e moral de ambas as histórias, CENSURADO diferencia-se pela forma como o cineasta explora ao máximo o voyeurismo que caracteriza a sua filmografia. Contudo, esse aparente espectro de realidade, desde os locais de filmagem na Jordânia (eterno substituto para filmes passados em solo iraquiano) até às sequências de maior violência e choque (que conseguem mesmo impressionar), possui uma teatralidade tão intuitiva que nunca deixamos de pressentir a mera representação de um argumento. Nesse âmbito, o elenco — todo ele estreante numa longa-metragem — não ajuda.



Ninguém pode criticar De Palma por querer difundir uma admoestação à presença americana no Iraque de modo tão original e contundente. A opção estética da colagem de vídeos imprime a CENSURADO o pretendido sabor documental acerca de uma página da História mundial que ainda está por definir, conseguindo mesmo arquitectar uma obra sem paralelo imediato nas últimas décadas.

Apenas lamento que tenha querido "influenciar" a nossa reflexão por aquela montagem final de «imagens reais do Iraque», um momento digno da comunicação social mais sensacionalista. São fotografias de morte e sofrimento que não impressionam o espectador mais informado sobre os horrores da guerra e nada acrescentam ou retiram àquilo que havia sido apresentado. Será que De Palma se apercebeu do seu próprio artificialismo e considerou imperativo colocar essas imagens para que não houvessem dúvidas quanto à "realidade" do seu filme?

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